segunda-feira, 29 de março de 2010
Alguém se enganou no caminho
A formiga no carreiro
A formiga no carreiro
Vinha em sentido cantrário
Caiu ao Tejo
Ao pé dum septuagenário
Larpou trepou às tábuas
Que flutuavam nas àguas
E de cima duma delas
Virou-se prò formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
(Zeca Afonso)
Nesta inconstância destes textos inconstantes regresso a casa.
À cidade que me adoptou e a que hoje chamo de minha.
Uma cidade, austera, seca, pouco dada a espontaneidades , mas que sei hoje: autêntica.
E não são bons os ventos que a fustigam, aliás se fossem bons, não a fustigavam, acariciavam-na numa suave aura.
Enquadrável numa perspectiva inexplicável de renegação do património cultural, procuram os excelentes senhores que lhe gerem o destino, fechar o novel museu do artesanato e instalar nele, uma mostra de um coleccionador privado, de design.
Não valorizemos, nem desvalorizemos as diferentes expressões artísticas.
A Arte é plural.
Mas é necessário este duelo? É necessário que um morra para que o outro vingue?
Não existem, disponíveis, numa cidade cada vez mais vazia, outros espaços?
Não gosto de ver esta cidade como palco de semelhante duelo.
Ela é também plural.
Esta medida, parece enquadrar-se numa aversão geral para com as questões patrimoniais, que se expressa no poder instalado.
Prá frentex, propalam, que o património é coisa do passado.
Claro, património é coisa do passado e no futuro que construímos assim queremos que continue a ser.
Mas como é que alguém pode insinuar que sabe para onde quer ir e falar-nos de futuro, se não sabe sequer de onde veio?
O património desta cidade é a consciência colectiva adquirida da importância do seu Património.
Sabemos de onde viemos e para onde queremos ir.
Enganámo-nos foi no caminho (alguém se enganou), mas vamos corrigir.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Certamente por lapso

Insisto nas questões do património (entendido este na perspectiva que aqui já deixei ficar clara) porque o considero um tema da máxima importância.
E é por assim ser que acompanho com atenção todas as iniciativas que o tenham como objecto de análise e discussão, assim como a própria acção dos auto designados patrimonialistas.
E são patrimonialistas os arquitectos; urbanistas, paisagistas, historiadores, arqueólogos, artistas, historiadores da arte e quase nunca aqueles que a ele se dedicam na perspectiva social.
Como se o património fosse algo que deve ser estudado de forma dissociada da sua componente vivencial, como se tivesse surgido do nada, nada representasse no presente e para o nada caminhasse.
Para além daquele universo de frases feitas, tipo «as pessoas também são património» é um facto que hoje ninguém questiona a importância do património imaterial no conjunto dos bens patrimoniais, assim como, são muitos os que entendem que, por exemplo só com a vivificação dos centros históricos
se garante com eficácia a sua preservação.
Que perturbante seria calcorrear as ruas e travessas de um centro histórico sem gente. Como já é perturbante verificar o estado de ruína de muitos dos seus edifícios, constatar que o barbeiro fechou, que a mercearia tem afixado um grande cartaz de vende-se de uma conhecida imobiliária, que a taberna virou snack e que este virou coisa nenhuma.
Só há uma verdadeira política patrimonial se esta tiver no seu cerne e como objecto as pessoas. Pessoas que o salvaguardem, que o projectem, que o usufruam e que o entreguem em bom estado de conservação às gerações futuras.
Não nos esqueçamos que o património é um elo geracional.
O texto de hoje, sendo a este propósito, é também um estado de alma.
Aqui, nesta cidade que em tempos se soube projectar ao estatuto de Património da Humanidade, habituámo-nos a ver o desprezo a que se vota a «galinha dos ovos de ouro», a desprezar-se e a questionar-se a utilidade de investir na salvaguarda do centro histórico.
Aqui o património não se enquadra com a «excelência». E a «excelência»como sabemos é acabar com o cinema, com as iniciativas que preenchiam as ruas, é construir praças de touros em praças alheias e chamar-lhes arenas, é promover o marialvismo e dar a primazia à comedora de croquetes.
Mas não gosto e esse até é o propósito central do texto que, onde esperava que nas questões patrimoniais pusessem em primeiro plano as pessoas, constate que se promovem umas jornadas do património (Montemor-o-Novo) onde estas não estão incluídas.
Vão discutir o património e discutem desde o megalitismo à azulejaria, das espécies autóctones dos Sítios de Cabrela e Monfurado ao Rio Almonsor e não discutem o riquíssimo património imaterial do concelho, as problemáticas associadas ao habitar nos centros históricos, a forma de usufruto patrimonial ou as formas de potenciar o património como factor para o desenvolvimento económico e social.
Acredito que em Montemor é só um lapso.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Património, de novo
Parte III
(…) Hey por bem que daqui em diante nenhuma pessoa de qualquer estado, qualidade e condição que seja, desfaça ou destrua em todo, nem em parte, qualquer edifício que mostre ser daqueles tempos [antigos] ainda que em parte esteja arruinado, e da mesma sorte as estátuas, mármores e cipos. (…) «lâminas ou chapas (…) «medalhas ou moedas».
Decreto Régio de D. João V (1721) - Fonte Wikipédia.
Já vem de longe a resposta para a pergunta do articulista.
Adiante então…
A questão do usufruto
O património que não esteja acessível e que não possa assegurar por essa via a sua função cultural só pode ter valor na perspectiva da sua própria manutenção.
Função insuficiente, diga-se.
Alguns casos concretos com Évora como cenário:
Troço das muralhas junto ao Mar de Ar Muralhas. Parece que ficou salvaguardado que havia obrigação de garantir o livre acesso a todos e julgo mesmo que tal nunca foi impedido, mas a verdade é que a arquitectara do espaço criou uma barreira que o dificulta.
Partes do traçado da via romana, nomeadamente os que foram objecto de escavação arqueológica (R. Vasco da Gama). Foram de novo soterrados numa perspectiva conservacionista da mera esfera da concepção arqueológica.
Importante troço da via romana descoberto junto ao Aeródromo de Évora. Para quando a facilitação das visitas?
Poderia citar outros, mas importam como exemplo.
Em relação - de novo - a S. Bento de Castris e na perspectiva de poder contribuir para afastar a ideia da sua inevitável conversão em unidade hoteleira, porque não o desenvolvimento de uma parceria que envolvesse organismos descentralizados da administração central, o município, fundações, empresários, Universidade de Évora e cidadãos individualmente na perspectiva de desenvolver projecto que pudesse apontar para um centro cultural dinâmico e de referência nacional e internacional?
Que se integrasse e contribui-se para desenvolver outros projectos que vivificassem uma vasta área de importantes riquezas patrimoniais que engloba o Alto de S. Bento, o Aqueduto, o Convento da Cartuxa, o Convento de St. António.
Que criasse um «corredor» que a ligasse ao Centro Histórico e por essa forma contribuísse para um maior usufruto patrimonial aos eborenses e aos seus inúmeros visitantes.
É só uma ideia.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
De novo, a questão do (s) Património (s)

Para evitar sucessivos recursos ao esclarecimento do conceito, informo que abordo, neste texto e nos próximos se não fizer alusão diferente, a problemática do património nas perspectivas histórica e cultural e que conceptualizo estas como enquadrando as vertentes materiais, imateriais e naturais.
Assim integro todo o edificado de valor histórico e cultural de que o Centro Histórico de Évora é expoente, assim como integro o cante e inúmeras «relíquias» de tradição oral (estórias, poesia), certas expressões artesanais, sem descurar a gastronomia e doçaria, assim como, na vertente natural, o maciço rochoso do Alto de S. Bento.
Explicado o conceito e ainda a propósito da dúvida sobre a utilidade de investir na recuperação dos Centros Históricos a que aqui já aludi, pretendo confrontá-lo com a definição «contabilística» para o mesmo e verificar que onde se esperavam grandes contradições, se registam pelo contrário algumas importantes similitudes.
“Património em contabilidade são os bens, direitos e obrigações que uma empresa possui”(fonte Wikipédia) e
“Património Cultural é o conjunto de todos os bens, materiais ou imateriais, que pelo seu valor próprio, devem ser considerados relevantes para a permanência e a identidade e cultura de um povo” Fonte: Lei 13/85 (entretanto revogada pela Lei 107/01).
Investir na preservação, valorização e usufruto dos bens patrimoniais, não pode pois ser objecto da dúvida pela rentabilidade do investimento, mas deve antes constituir-se como obrigação de todos, já que o mesmo não só não é propriedade nossa – só nos foi confiado o uso e a guarda temporária - como ainda este se constitui como elo civilizacional que ninguém nos deu o direito de quebrar.
A própria Lei 107/91 no seu art. 11.º estabelece essa obrigação.
Mas há uma questão importante que friso, sempre que abordo a temática do património e esta prende-se com o direito ao usufruto.
Tem sido recurso, como forma que nos dizem única, para preservar alguns espaços e construções, transformar os mesmos em Unidades Hoteleiras (Os Hotéis Mar de Ar Muralha e Aqueduto e o Hotel Convento do Espinheiro para falar dos mais recentes), se é indiscutível que se salvaguardaram, já não é claro que, o usufruto por todos tenha ficado salvaguardado.
Dizem-nos agora que esta é a solução para o Convento de S. Bento de Castris. Será?
Afinal o Património é ou não um negócio?
O que pode ser rentável, recupera-se (e recebe-se inclusive contrapartidas financeiras por tal facto) o que não se apresenta como tal (inúmeros fogos do C.H.) deixa-se ruir.
Era sobre este Património que o articulista lançava a dúvida sobre se valeria a pena investir na recuperação dos Centros Históricos, não era?
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
PATRIMÓNIO

A propósito dos custos, e nos tempos que correm parece que tudo se analisa sob esta perspectiva, li hoje, acidentalmente diga-se, um pseudo editorial de um jornal da terra, onde o articulista debita a dúvida, sobre se valerá ou não a pena (tão bom seria que a pena não tivesse debitado tal disparate, mas não há que esperar mais) investir na recuperação dos Centros Históricos.
Não é assunto para desprezar. Ou menosprezar, como alguns, assobiando para o lado, fazem.
À custa dele – o posicionamento face ao Património – pode a CDU encontrar um dos factores que levaram à sua perda de influência política em Évora.
O que o escriba de hoje nos procura dizer, interrogando, quando tem a resposta artilhada, é que o investimento na recuperação patrimonial é um investimento errado.
Recuperar uma casa no Centro Histórico de Évora é mais caro do que fazer uma mansão nos subúrbios, além de que a casa no CH não poderá dispor de piscina, cave para os vinhos e grandes áreas para os churrascos.
Por isso deduz-se, que constará da sua artilhada resposta: abandonem-se os Centros Históricos, ou talvez seja mesmo, deitem-se abaixo os velhos casarios, construam-se avenidas largas e rectilíneas, construam-se altas torres, modernas, elegantes e esguias e então sim, viveremos numa cidade moderna.
Talvez se conservem o Templo Romano, que por razões de marketing territorial insistiremos em denominar de Diana e a Sé de Évora, não vá o senhor Bispo não gostar da nova que projectávamos estilo coche (em similitude à caravela do Restelo). Afinal é preciso guardar algumas lembranças…o resto perpetuava-se através de postais ilustrados.
O património, atente-se na própria designação, é: pertença, identidade, valor e afirmação.
O dinheiro usado na sua conservação e USUFRUTO é investimento.
Voltarei certamente ao assunto, até porque ele me é muito CARO.