Eu tive um sonho.
Todos temos sonhos, não é verdade?
Nesse sonho:
Vivia numa pequena cidade do sul. Uma cidade nova encostada às muralhas de uma velha cidade.
Casario branco, rasteiro, ruas limpas e cuidadas .
No centro, becos, ruelas, praças fervilhando de gente - muitos visitantes - esplanadas plenas de cor.
E muita luz, muito sol.
E grandes monumentos a lembrarem-nos outros tempos, antes de nós - ou antes do sonho.
Na cidade nova, as casas tinham pequenos quintais e jardins.
Espantosamente - pequenos jardins e até pequenos hortejos - não lajes e cimento.
Nesse sonho, nessa manhã, a vizinha do lado tinha vindo pedir-nos hortelã e bem fresca a levou para a sopa da panela.
À tarde, num passeio pelos arrabaldes, visitámos um centro de interpretação do mundo rural. Deambulando pelos campos bem tratados, trocámos umas palavras de circunstância com o homem que olhava pelas ovelhas. Apanhámos uns espargos e fomos até ao monte. Traça antiga, barrinha azul em todo o casario, rua empedrada e limpa. Ali funcionam uma padaria, uma leitaria e queijaria. Comprámos pão quente e leite fresco.
Em volta do centro de interpretação funcionam outras unidades de exploração agrícola, modernas e bem geridas. Algumas são cooperativas, outras empresas familiares.
Há pleno emprego, para os de cá e para muitos que têm vindo para cá.
Na aldeia há escola, centro de actividades infantis, posto médico com médico. Um pequeno Centro Cultural - cinema de qualidade uma vez por semana .
Quatro vezes por dia, um moderno mini autocarro liga a aldeia à cidade.
De forma tão inexplicável como inexplicável é a razão para o sonho, este acaba.
E:
Procuro conferir coincidências. Encontro uma:
vivo numa pequena cidade do sul…
Ruas descuidadas e sujas.
Ambiente sombrio. Monumentos que como chorando, largam pedaços de si sobre quem os contempla. Ninguém tem o direito de contemplar a sua decadência…
Casas abandonadas. Cada vez menos gente. E os filhos dos que ficam - os que ainda resistem - a partir para outras cidades à procura dos seus sonhos
Quintais cobertos de cimento e lajes.
E os campos envolventes abandonados, cercados de arames.
E as noticias dos jornais amedrontando. «O Mundo não tem capacidade para produzir alimentos para todos».
Este «mundo» não tem não.
Mas o mundo que sonhei, esse tem.
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sexta-feira, 4 de março de 2011
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
VIVA O AMOR
Enquanto hoje nos impingem berloques vários em forma de coração, bombons afrodisíacos, jantares apimentados, serranos romantismos (sem lua porque está enublado), frases de partir coração, toques de telemóvel de fazer chorar as pedras da calçada, chegam-nos também as noticias, às bancas de jornais e via on-line, que milhares de Italianos - principalmente Italianas, - se manifestaram em muitas cidades, em nome da dignidade da condição humana .
Disseram a Berlusconi que a Itália não se revê nos seus deboches.
Festejaram o amor.
Bela forma de antecipadamente comemorar valentim.
E Berlusconi - essa coisa - terá percebido?
Não creio. Essa «coisa» tem do amor o entendimento que sabemos.
Não fosse a «coisa» tão execrável e até apeteceria dizer:
«Pobre coitado, só comprando pode ter um abraço».
Permitam-me que hoje me sinta Italiano (não querem que sejamos europeus?) e enojado por ter à frente dos destinos deste belo País uma criatura tão miserável.
Visitarei um dia (assim desejo) Roma, Florença, Veneza, Verona…e espero que nesse dia, já não paire sobre o amor (entendido e praticado na sua plenitude,) uma figura tão repugnante.
Viva o amor (não o dos berloques…).
Disseram a Berlusconi que a Itália não se revê nos seus deboches.
Festejaram o amor.
Bela forma de antecipadamente comemorar valentim.
E Berlusconi - essa coisa - terá percebido?
Não creio. Essa «coisa» tem do amor o entendimento que sabemos.
Não fosse a «coisa» tão execrável e até apeteceria dizer:
«Pobre coitado, só comprando pode ter um abraço».
Permitam-me que hoje me sinta Italiano (não querem que sejamos europeus?) e enojado por ter à frente dos destinos deste belo País uma criatura tão miserável.
Visitarei um dia (assim desejo) Roma, Florença, Veneza, Verona…e espero que nesse dia, já não paire sobre o amor (entendido e praticado na sua plenitude,) uma figura tão repugnante.
Viva o amor (não o dos berloques…).
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Façamos as pazes com o campo

Há apesar de tudo, um clima de bonança que se sente.
Os mercados estão mais calmos.
Os nossos doutos analistas, têm outras preocupações.
O pedacinho de mundial que nos estava reservado foi parar à Rússia.
As grandes democracias do Ocidente - no seu melhor - procuram silenciar - por todos os meios - o site da Wikileaks.
Mesmo sem luzes, o Natal aproxima-se.
Aproveito então, para falar do campo.
Do campo que abandonámos, amaldiçoámos e responsabilizámos por todos os males.
Do campo de onde vinham as alfaces, os tomates, o trigo para o pão, as carnes de porco, ovelha e de bovino. Os frangos e as frutas. As flores. O mel e o vinho.
Agora tudo isto vem do supermercado, devidamente embalado, plastificado.
E os campos aqui estão, quais sinónimos de domínio senhorial, à boa - para pior - imagem feudal.
E para pior, porque nos tempos feudais, poderia ter de se pagar portagem, mas os campos eram transitáveis. Perpetuaram-se direitos sobre caminhos (vicinais) que hoje já não se respeitam.
Tudo é cercado.
Pôr os campos a produzir, isso não, porque:
As quotas da UE não o permitem;
As compensações compensam muito mais que as produções;
As culturas não são compatíveis com a caça;
A mão de obra já não é escrava (eles bem tentam…)
Os produtos não são escoáveis porque as grandes superfícies vão comprar mais barato a Espanha, a Marrocos e onde calhe.
E…
E…
Porque não mandar às urtigas estas certezas impeditivas e juntar vontades e alterar o estado das coisas?
Porque não se dinamizam localmente - as Juntas de Freguesia poderiam ter aqui um papel determinante - pequenos mercados para escoamento dos excessos de produção das hortas, onde fosse possível vender as couves, as laranjas, os espinafres, os ovos, as galinhas, e os coelhos excedentários?
Com o mínimo de cuidados sanitários, mas sem burocracias e policias de costumes.
Proporcionar-se-ia assim um rendimento extra aos reformados que nas pequenas aldeias trabalham hortas; escoavam-se produtos frescos e saudáveis, dinamizavam-se as aldeias (quantos não ficariam para comer na tasca do sítio um feijão com catacuzes feito na panela de barro em lume do chão?).
Lirismo?
Talvez. Mas faz-nos algum mal um pouco de poesia?
Acrescentemos-lhe uma boa dose de ar puro, a descoberta de uma paisagem deslumbrante e dois dedos de conversa e veremos como a sua métrica e sentido nos encantam.
A razão para este «escrito» vem de uma visita a Vila de Frades - Vidigueira.
Faz bonitas e despretensiosas feiras a Vidigueira.
À Vitifrades só para o ano, mas avizinha-se o certame Pão e Laranjas.
Programem um visita e
Ouvirão ecoado de uma adega o genuíno cante alentejano.
Façamos as pazes com o campo.
As cidades ficarão mais bonitas e humanas.
sábado, 11 de setembro de 2010
Sustentabilidade
Não é por muito falar nas coisas que as coisas passam a coisa.
Por exemplo, falamos muito de desenvolvimento e ultimamente de desenvolvimento sustentável e no entanto os indicadores, quando existem, só expressam crescimento - ao invés de desenvolvimento - e assim sendo, sem nenhuma sustentabilidade.
Mas não nos limitamos a falar, instituímos mesmo colossais corporações que se encarregam de difundir e de «homologar» esses conceitos virtuais.
É assim que nos deparamos com estatutos diversos - bandeiras azuis, verdes e outras - cidades inteligentes, educadoras, amigas do ambiente, capitais disto e daquilo, certificações iso e de todo os outros tipos, provedorias para todos os fins.
E aplicamos esses estatutos, aos sítios, às organizações, às cidades.
E no entanto cada vez mais os cidadãos se afastam da participação na gestão desses sítios, organizações e cidades.
Parece até mesmo que esse é o objectivo, ou seja, cria-se a doce ilusão de uma sociedade «preocupada» e «activa» e cria-se uma sociedade alheada.
E sem participação activa da sociedade - das pessoas - não é possível dar curso a verdadeiros processos de desenvolvimento e muito menos de desenvolvimento numa perspectiva sustentável.
Outro factor que parece contribuir para o alheamento é o que está relacionado com a competitividade territorial - fala-se mesmo de marketing territorial.
A competição tem-se constituído, não como factor de desenvolvimento, mas como produtora de efeitos contrários.
Ao invés de competirem entre si, os sítios e as cidades deviam adoptar políticas de parceria e cooperação.
Tomemos como exemplo o turismo no Alentejo. A taxa média de estada dos turistas só aumentará, não enquanto perdurar a competição entre sitios, mas quando estes se complementarem e proporcionarem ofertas integradas.
O Alentejo pode oferecer planície (Beja / Castro Verde), serra ((Marvão / Castelo de Vide) lago (Alqueva) Património Monumental (Évora / Monsaraz / Serpa / Vila Viçosa) praia (Odemira / Grândola), rio (Mértola / Alcácer / Gavião), tomando só algumas referências como ponto para exemplo.
E assim, numa perspectiva integrada, pode levar a convidar a estarem mais por aqui, os visitantes.
O grande lago, o Tejo, o Guadiana, o Sado, as Praias, as Serras de S. Mamede, Ossa, Portel, as cidades, vilas, a gastronomia, o cante e as gentes, acima de tudo as gentes, são património de grande riqueza.
E é com estas e para estas gentes, que temos que mudar e inovar.
Falar pois de desenvolvimento sustentável deve pressupor a tomada de medidas concretas e o abandono do discurso estéril.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Um abraço para os mineiros Chilenos
Sem pretensões, simplesmente desabafando, percorro temas e áreas variadas.
Vou escrevendo, umas vezes mais, outras menos, mas sempre sob o impulso das emoções - nunca numa perspectiva planeada.
Às vezes escrevo sobre cortes nas prestações sociais (indignado), outras sobre questões patrimoniais (preocupado), cultura (estupefacto), economia (escandalizado), política (envergonhado).
A amplitude temática não quer significar «domínio» dos temas - o que seria pretensioso - mas sim é a expressão de impulsos emotivos vários.
E assim (angustiado) escrevo hoje sobre os mineiros do Chile.
Pelo que já passaram e pelo que se lhes anuncia passarem.
Eu que tenho tiques claustrofobicos não consigo sequer imaginar a dimensão do sofrimento.
A 700 metros de profundidade, há mais de três semanas, 33 homens resistem ao enclausuramento, ao calor, à humidade, às doenças, às privações de todo o tipo, às saudades e à angústia.
À superfície muitos estão solidários e alguns tentam tudo para resolver o problema.
Outros, os que têm responsabilidades sobre esta e outras desgraças (os donos da mina - associados a um historial de «acidentes») estudam caprichosamente a forma de sacudir as águas dos seus capotes. Canalhas, estes - numa só palavra.
Também aflige, que as soluções técnicas sejam tão rudimentares como parece ficar demonstrado, mas esta é uma outra questão, já aqui abordada e que só vem juntar-se a outras em que se demonstra que o homem moderno criou erradamente a ideia da infalibilidade da técnica.
Assim não é para mal daqueles que estão à espera, algures a 700 metros de profundidade, numa mina chilena.
Pedindo emprestada esta canção, que veio daí, desse Chile marcado por desgraças destas e outras, aqui a deixo, neste meu desabafo solidário.
Que regressem rápido à luz , com saúde, para abraçarem a família, os amigos, a vida.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
As cidades (tambem) morrem de pé

A lógica moderna da vida nas cidades é marcada pela construção desenfreada. Pelo rasgar de avenidas longas e rectilíneas. Pelas construções esquadráticas e em altura. Pela normalização de tubos, ligações, perfis, parafusos, canos, coberturas, caixilharias.
Por periferias ricas com vivendas, garagens, piscinas, relvados e zonas de churrasco, tudo devidamente amuralhado - qual reminiscência medieval - e protegido por ferozes cães.
Pontificam os jipes, motos quatro e de água, barcos, skis para a neve - que dista centenas de quilómetros - e milhares de outros visíveis adornos.
Esta lógica moderna está a matar as cidades enquanto espaço de socialização, democracia e liberdade.
As cidades estão a virar meros aglomerados, de centros vazios e decadentes, de costas viradas para a história e para a cultura.
E a par desse processo, no Alentejo, as cidades seguem o curso de esvaziamento demográfico do meio envolvente.
Parece ter-se registado aqui um fenómeno de migração bietápico. Numa primeira fase dos campos para as cidades da Região e posteriormente destas para as grandes cidades do litoral.
Nem Évora é já excepção a este cenário.(Havia sido nas ultimas décadas)
O centro está abandonado e as suas casas e palacetes vão ruindo com o passar dos anos.
Os velhos arrastam-se pelas suas velhas ruas em perfeita simbiose no adeus.
O crescimento - que tantos insistem em apresentar como factor de desenvolvimento - leva a que grandes manchas da área urbana estejam sujas, feias, decadentes.
A cidade está vazia. O café toma-se encapsulado em casa.
Perde população, envelhece a que fica, a actividade económica está fragilizada, perde dinâmica social e cultural.
Estes são os traços de uma cidade, não só em processo de decadência acelerado mas que está a morrer, de pé.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Cidades e Campo, Campo e Cidade
Agora que as matas ardem e com elas arde o sustento de alguns (muitos), que os campos não dão trigo nem cevada, em que não há legumes nem frutas, em que as escolas, centros de saúde, postos da gnr e outros serviços, encerram portas, agora… talvez fosse oportuno.
Talvez fosse oportuno, falar do campo.
Do campo que odiámos, abandonámos e entregámos à sua desgraçada sorte.
Antes, viemos para as cidades à procura de trabalho, casa, lazer, ensino e liberdade. O campo não nos facultava esses atributos.
Era um meio austero e duro. «O trabalho do campo é pra homens de barba rija» sempre me impuseram.
Ele tinha que ser penoso, pois só assim era honroso. Podia um homem apanhar azeitona de joelhos? Nem pensar! Que vergonha! - Mesmo se apanhasse mais que curvado e cravejado de dores lombares.
E hoje, as barbas dos homens continuam rijas mas os homens definham arrastados pelo passar dos muitos anos.
E as mulheres curvam-se sob o peso dos anos, das dores e dos resquícios do trabalho duro dobrado.
Só abrem rasgos de esperança no sulcado dos rostos quando os filhos e os netos, numa fugaz passagem, os visitam num final de tarde de um fim de semana.
E os homens, com responsabilidades, parece que tudo fazem para acrescentar ainda mais abandono.
É tempo de repensar estratégias.
De encontrar formas de intercalar e harmonizar campo e cidade.
De encontrar formas que «honrem» o trabalho nos campos e a vida nas aldeias.
A ciência e a técnica facultam-nos hoje meios que podem ser postos ao serviço desta articulação e da harmonização da forma de vida nos dois meios: citadino e rural.
Não precisamos de proclamar um regresso ao campo.
Mas julgo que precisamos de fazer as pazes com o campo.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Alentejo frondoso
Há dias, em extenso trabalho jornalístico, ficámos a saber que o futuro da agricultura passa pela sua prática em altura, ou seja sobre construções em altura.
Nada contra.
Desde que também nada haja contra as outras posições em que esta pode ser realizada.
E ao olhar para a imensidão dos campos sem nada produzirem (para além da flora natural) pergunto se neles não é possível a prática agrícola?
Aqui, no Alentejo, e sei por experiência própria ou transmitida que de igual forma em muitas outras partes do país e do mundo, o campo é o campo do latifúndio. Dos grandes domínios senhoriais, murados e santificados para a caça. (para alguns, poucos)
O latifúndio foi sempre e volta a ser no presente, o escalracho desta terra. A erva daninha que a afecta e a impede de assumir a sua função social.
Um escriba desta cidade, deslumbrado com a sua imaginação e desejo condicionado por interesses que tais, esborratava que o Alentejo está frondoso – graças a Alqueva – e ávido de desenvolvimento – basta que gostem dele, arrematava.
Todos conhecemos a estória do burro e dos óculos de sol de lentes verdes para que pudesse comer como prado frondoso a palha seca que lhe estendiam…
De Alqueva – construída com dinheiros públicos – ainda aguardamos que regue as terras e as ponha a produzir, porque o que vemos até agora como frondoso são os mega projectos turísticos que se iniciam ou insinuam nas suas margens.
Avistemos o grande lago, por exemplo do alto de Monsaraz, e sem óculos de sol de lentes verdes o que avistamos?
O dourado dos campos torrados por este estio impiedoso e a mancha enorme azul esverdeado das águas quase paradas.
Os projectos turísticos, assim como o aproveitamento energético, a pesca e outras valências, não são de importância desprezável.
Devem no entanto ser complementadas com a valência agrícola e a irrigação das terras numa perspectiva de produção de bens agrícolas que possa contribuir para a redução da necessidade da sua aquisição externa.
Alqueva é grande. Aprisionou um grande rio.
Que não nos aprisione as vistas.
Eu gosto do Alentejo.
Mas não o Alentejo aprisionado e subjugado dos marialvas e dos grandes senhores feudais.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
A senhora já não dança

Quem não se recorda da sua figura achatada, quase à beira da implosão de tanto ser aperreada dentro do apertado corpete, cabecinha de pardal amachucada para dentro do pescoço gordo, saltitando (dançando?) de contente em cada golo marcado à Argentina?
Ah como ela se sentiria senhora do mundo.
Via-se no seu rosto de mal amada que se sente bem no papel ridículo de julgar que achincalha os outros.
Quando estes fazem figura de tolos julgando que falar a língua dos outros é sinónimo (só por si) de inteligência ou quando subservientes escutam os seus dilates que esta proclama como conselhos.
Ganhar à Argentina era não só um sinal de superioridade como uma lição para amigos de Fidel.
Que me perdoem os jogadores, a equipa técnica e o povo Alemão (porque nem todos têm culpa) mas depois dos saltinhos dançantes da dita senhora estive sempre a «torcer» pelos adversários.
Que pena o Uruguai, estiveram tão perto… pois por ela, não merecia a Alemanha, nem sequer o lugar de consolação.
Mas a senhora, ontem, deve ter perdido mesmo o gosto por saltinhos dançantes. Perdeu a maioria na Câmara Alta do Parlamento e assim vê-se obrigada a negociar com a oposição.
Facto a que se juntam outros reveses, como os desgraçados (para ela e o candidato que apoiava) resultados das eleições para Presidente.
A senhora não deve andar com grandes vontades de dança.
Avizinhando-se a sua reforma, talvez possa praticar então (retribuímos agora os conselhos) umas valsas com Blair, Aznar e Busch, outros dançarinos reformados.
É difícil imaginar-lhe um futuro diferente na dança (pode sempre perguntar ao polvo).
Até porque o rapaz das línguas já tem par e dedica-se ao tango. Por aí não é solução.
Também depois de tanta risota à custa dele…
quinta-feira, 8 de julho de 2010
ALQUEVA
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Enquanto escrevo, através da televisão oiço Marisa esganiçando uns fados tendo como cenário Alqueva.
A Barragem que idealizámos para regar um Alentejo sedento.
E o que vemos? Uma elitezinha e seus apanágios debitando as palminhas da praxe que ecoam no mar de água que sonhámos mar de esperança.
Que bandeira virou hoje Alqueva?
Sempre que uma nova torneira se abre e uns metros de canal se rasgam, eis que surge a pompa.
Lutámos por Alqueva e quando alguém escreveu: “Construam-me Porra!” esperava certamente por um fim diferente.
É que os denominados «fins múltiplos» são cada vez mais só os interesses imobiliários e fundiários associados a grandes projectos turísticos.
A terra continua sedenta, cercada por arames, improdutiva.
As terras abandonadas pelas gentes.
Ficam e regressam velhos os que novos daqui haviam partido.
Alguns, levados por filhos e netos em visita de fim de semana, contemplam o lago, o imenso lago de que lhe falaram.
E voltam e ficam sós de novo.
Um pouco como o Alentejo.
Apesar de Alqueva, do lago, da água, está de novo só.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
A Terra é linda
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Já deixei subentendido em textos anteriores, julgo mesmo que mais explicito que subentendido, que me posiciono criticamente face aos convencimentos da modernidade.
Incluem-se neles, uma «fé» absoluta na tecnologia e uma concepção dogmática da ciência - o que julgo constituir-se como anti ciência.
O que se está a passar no capítulo do natural contribui dramaticamente para reforçar estas minhas atitudes criticas.
Um parafuso na pista destruiu o Concord, uma placa mal aparafusada quase terminou com o sonho interplanetário dos vai vem, as pontes ruíram quando se anunciavam eternas, os arranha céus vieram abaixo com o impacto de duas aeronaves, o mar reocupou as vivendas que se lhe sobrepuseram, os rios estoiraram as manilhas com que os procuraram domar.
E mesmo assim, o homem decidiu criar ilhas em forma de palmeira e nelas construir novas cidades e torres (quais babeis) que quase chegam ao céu (ou chegam mesmo, pois não sabemos onde este começa) e outras grandes feitos.
E é neste «confronto» que nos situamos.
E perante ele, seria aconselhável mais interrogação e menos arrogância. Mais dúvidas e menos certezas.
Mais ciência e menos a sua negação.
A terra não é o nosso animal de estimação domado. É um ser vivo, dinâmico, muitas vezes cruel e por vezes agressivo, onde vivemos.
A história do homem é uma sequência de lutas de forma a ganhar as condições para aqui habitar em segurança e bem estar.
Muitas, bem conseguidas. Outras, nem tanto.
Importará pois retermo-nos mais na análise dos fracassos do que na ostentação grosseira dos sucessos.
E… convém não esquecer.
A Terra é linda.
Respeitemo-la.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Em Montemor, com muitas saudades do futuro.

Ontem foi dia de reencontro de amigos e de memórias.
Em Montemor homenageámos a dignidade.
A dignidade dos que se ergueram contra a tirania e a opressão e assim, levantados do chão, fizeram a Reforma Agrária.
E com esta criaram emprego, fixaram população, alfabetizaram, abriram creches, ludotecas.
Trouxeram para as terras antes de miséria e sufoco, a alegria de trabalhar o campo, de produzir.
E surgiu o teatro, ora improvisado, ora pela mão de actores a sério (e sérios).
E cantávamos modas e hinos acompanhados em coro por cantores a sério (e sérios).
E conhecemos escritores a sério (e sérios), quando muitos por ali ainda não conheciam sequer o livro.
Trouxeram para as aldeias onde antes escasseava o pão, iguarias inimagináveis - sem ironia, - conheceu-se o fiambre, o iogurte e outros. As cantinas e cooperativas de consumo disso se responsabilizaram.
E o mais bonito, foi que tudo isto foi feito, com muita dignidade e sem raiva.
Ninguém ali quis tirar a terra para ficar com ela para si, mas simplesmente para a pôr a cumprir as suas funções sociais.
A terra passou a ser de quem a trabalhava.
E recebiam-se amigos das cidades aos fins-de-semana que vinham ajudar a apanhar a azeitona, o tomate, a carregar fardos de palha.
Foi bonita a festa.
Mas…
Os esbirros espreitavam e esperavam a revanche. O povo não podia ser feliz.
E encheram os campos com metralhadoras, tanques de guerra, cavalos, cães, soldados.
Para devolver as terras aos seus donos, diziam.
E espancaram, feriram, mataram
Até os padres assim rezavam –é preciso devolver as terras aos seus proprietários - …como se deus tivesse feito homens com terra e homens só com miséria.
E como nos tempos que se seguiram, foram socialistas os mandantes...corrigir excessos, diziam.
E hoje vemos os resultados dessa correcção de excessos.
Os campos estão de novo improdutivos, cercados com arames electrificados e com ameaçadores dísticos: «é proibido colher, espargos, cogumelos» e até caganitas de coelho, acrescenta-se.
E a população procura de novo as cidades.
E se antes os novos vinham visitar os velhos que ficavam. Agora já quase não há velhos que ficaram.
Mas.
Há-de haver um dia essa alegria, que a malta constrói. Quando se luta dia a dia. A luta não mói.
E nós encontrámo-nos ontem em Montemor, não como saudosistas de um tempo perdido, mas com muitas saudades do futuro.
E com um brilhozinho nos olhos.
sábado, 21 de novembro de 2009
Terra
Do outro lado do mar, mas o mesmo latifundio
Por breves momentos e de forma tímida o Alentejo sedento está molhando os lábios.
Hoje está a chover.
Pouco e segundo os especialistas, por pouco tempo.
Ainda não é agora que a terra vai matar a sede.
Mas também o que vem regar, a chuva?
A terra…mas ela é já tão grande!
Regará as cercas, os arames farpados, os domínios senhoriais de senhores feudais que quase sempre foram senhores desta terra.
Regará o latifúndio e o lago para turista ver. Regará as tabuletas que ameaçadoramente proclamam: “Aqui é propriedade privada. É proibido apanhar espargos, cardos e caganitas de coelho”.
E a terra continuará sem produzir. Sem cumprir a sua função social.
Somente e como sempre, exclusivamente como símbolo de domínio.
Há muita terra neste texto. Tanta como a que está entregue a si mesmo nas lonjuras desta minha pátria alentejana.