domingo, 22 de novembro de 2009
Sopa da Panela
Ainda pensei em escrever sobre faces ocultas, indícios que o deixam de ser, ou que para uns são e para outros não, bpn (s) e outras sucatas, mas retraí a vontade.
Porque carga de águas devo ir para o pântano – um meio que não conheço – quando aqui nestas terras planas e secas, apesar de todos os males de que também padecemos, temos uma planície de horizontes à nossa frente e podemos partir discorrendo sobre o cante, sobre as artes e o património, sobre a escrita e as estórias (lindas) não escritas e sobre …açordas e a sopa da panela.
Para quem tem a ideia de que aqui uma açorda, um gaspacho, uma sopa da panela, são sempre feitas da mesma maneira, estejamos nós em Avis ou em Ervidel, tire daí o cavalinho. Até o gaspacho.
Não imaginam as acaloradas (não me refiro aos gaspachos é claro) discussões que cada um de nós, oriundos das mais diversas partes deste enorme todo, trava em defesa da pureza alentejana dos seus modos de cozinhar.
Este texto vem a propósito de ter lido no «Fugas» de ontem, que num Restaurante aqui próximo (Aldeia da Serra – Redondo) a apreciada sopa da panela (para além dos ingredientes normais, embora variáveis) inclui uma …posta de bacalhau.
Habituado e preparado para as diferenças, confesso que esta, nem em imaginação admitiria.
Estou ansioso por provar. Depois digo qualquer coisa.
sábado, 21 de novembro de 2009
Terra
Do outro lado do mar, mas o mesmo latifundio
Por breves momentos e de forma tímida o Alentejo sedento está molhando os lábios.
Hoje está a chover.
Pouco e segundo os especialistas, por pouco tempo.
Ainda não é agora que a terra vai matar a sede.
Mas também o que vem regar, a chuva?
A terra…mas ela é já tão grande!
Regará as cercas, os arames farpados, os domínios senhoriais de senhores feudais que quase sempre foram senhores desta terra.
Regará o latifúndio e o lago para turista ver. Regará as tabuletas que ameaçadoramente proclamam: “Aqui é propriedade privada. É proibido apanhar espargos, cardos e caganitas de coelho”.
E a terra continuará sem produzir. Sem cumprir a sua função social.
Somente e como sempre, exclusivamente como símbolo de domínio.
Há muita terra neste texto. Tanta como a que está entregue a si mesmo nas lonjuras desta minha pátria alentejana.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Viva o Teatro

Hoje despedimo-nos (os que fizeram) de Mário Barradas.
Ele permitia-nos que o tratássemos assim e que o cumprimentássemos como um de nós.
A morte, principalmente a morte de um conhecido, de um que se destaca de entre os outros, provoca sempre grandes e elogiosos epitáfios, hipocrisias diremos.
Talvez não. É a dimensão do enigma da morte que nos provoca estes comportamentos.
Mas não vi a minha cidade, a cidade para onde Mário Barradas canalizou tanta da sua energia e criatividade, chorar esta perda.
Teremos perdido essa faculdade.
Já tudo é banal.
Já nada importa.
A não ser que se trate da princesa letizia, dos nus da senhora agora sarkozi, de mais uns croquetes sugados pela velha de plástico, de uma qualquer gorda e mal jeitosa viscondessa… Isto sim, a razão das grandes preocupações…
Os jornais (e hoje não incluo o meu inimigo de estimação – O Público – nada disseram. Televisões e rádios cumpriram os mínimos obituários.
Tratava-se de um homem que apostou na descentralização. Que entendeu que o Teatro também podia ter casa em Évora,
A melhor homenagem que lhe podemos prestar é garantir que nesta cidade o Teatro continua a morar (e é tão reconfortante ver o esforço dos jovens actores da SOIR Joaquim António de Aguiar).
Eu vou emendar-me
Irei mais ao Teatro.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
A propósito do despropósito
Helena Matos subscreve no Público de hoje uma crónica que intitulou: “O que foi feito do homem que nos marcou golo no primeiro minuto?” E lá vem a ladainha de quem tem palco, megafone e oportunidade.
Eu ficarei p´ra aqui a bradar às tardes. Não tenho talento para tais púlpitos…
Mas, permitam-me. A dita cuja interroga-se sobre o que aconteceu ao jogador norte coreano que nos marcou o primeiro golo no campeonato de 1966. E a interrogação tem de imediato resposta, dada pela própria, por vezes socorrida de acólito.
Claro: perseguição, miséria terror. O herói foi vandalizado pelo regime do seu país.
Talvez. Acredito.
Mas estamos em 1966. Helena Matos não desconhecerá o que, no seu país, se passava com os heróis que não marcavam golos, mas arriscavam a sua liberdade e a própria vida para ganhar a liberdade. Para todos. Saberá por acaso o nome de um, de um só, que possa citar um dia nas suas crónicas de liberdade?
Diz ainda, a propósito do Muro de Berlim, criticando a ladainha relativista sobre os novos muros: “perguntem aos presos se um muro que impede a saída é igual a um muro que impede a entrada?”.
E critica ela a relativização. Claro que o preso, enquanto tal, vê o muro enquanto obstáculo à saída que por sua vez é obstáculo à entrada. Saída da prisão e entrada no mundo da liberdade. Helena Matos não refere a que presos, se refere.
Mas, para ela muro é muro e é de Berlim, mesmo que este já tenha caído há uns anecos.
Os que estão de pé, esses, não importam, só são referidos para relativizar.
Cisjordânia; Melila; México e muitos outros, não importam.
Importa isso sim, o lado de que estamos face a eles.
Nisso estou de acordo com HM.
De que lado está ela face a eles? Como alguém que quer sair ou como alguém que quer entrar?
Do lado dos que querem entrar na legítima procura da sobrevivência (a ONU declarou o direito à alimentação como um direito natural), ou do lado dos que, fartos, procuram estupidamente salvaguardar o seu território de estranhos, mas que nunca recusaram o que aos estranhos sacaram.
Quando eram senhores do mundo e não encontraram muros para a sua expansão.
Obrigado HM. Foi bastante elucidativa a explicação. Sabemos de que lado dos muros está .
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
CUBA

Eu optara por uma vida frívola quando, por volta dos trinta anos, um acontecimento excepcional transformou minha vida: a Revolução.Foi então que tirei esta foto, de uma garotinha abraçada a um pedaço de madeira, em substituição à boneca que não tinha.Percebi que valia a pena dedicar um trabalho à revolução que propunha supressão de tais desigualdades.
Korda
Não vou garantidamente falar do que não conheço (embora o coração para aí me chame).
Vou falar do que oiço falar (creio que muitos nem sequer o fazem, ou seja; falam do que julgam que se devia falar).
Vem a propósito de uma notícia do jornal Público de hoje, em que é afirmado “anticastritas pagam milhões a congressistas americanos”.
Nunca estive em Cuba. Não conheço por isso Cuba.
Um amigo, diz-me que conhece (privilégio conseguido numa estada semi turística de 15 dias) e diz-me que não há liberdade e que o povo vive amordaçado, sem alegria…
E eu, que não conheço interrogo-me: e como é possível? Quase 50 anos de tirania e o povo, nada fez?
Será que o meu amigo conhece de facto e está na posse de todos os elementos, ou são só parciais os seus conhecimentos?
E os vizinhos e o bloqueio e a CIA e a baía dos porcos e guantanamo e os ataques biológicos e …
Porque compram os anticastritas o voto?
Se é tão clara a tirania e agora a agonia do regime porque gastam os inimigos de Castro o seu dinheiro?
Eu também posso ter dinheiro só para uns jeans e um par de ténis de marca, e uns óculos ray-ban (que não tenho) e os cubanos nem para isso… e alguns dos meus amigos, para além disso, têm descapotáveis e outros topos, mas quero viver de cabeça erguida.
Não será por isso que os Cubanos nada fizeram até hoje contra Castro?
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Para os trabalhadores sem trabalho

Para os trabalhadores sem trabalho
Rodas paradas de uma engrenagem caduca.
(Soeiro Pereira Gomes)
O INE publicou hoje estatísticas sobre o desemprego
Gráficos coloridos, variações homologas, tendências…
NUTsI; II,III e
Quantos desempregados estão contabilizados em Évora?
Aí a coisa complica-se…
2000, 2500 , 3600 (segundo os meus cálculos) que importa isso.
E quiséssemos nós saber mais.
Quem são? Quantos anos têm? São casados? Têm filhos?
Como sobrevivem sem salário?
Como enfrentam o estigma?
Como reagem quando alguns carecas disfarçados bradam contra o desperdício que constituem os apoios sociais?
Quando lhes chamam malandros por não quererem ser escravos?
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Hipócritas
A cimeira da FAO que se reuniu hoje em Roma declarou-se incapaz de erradicar a fome até 2025 tal como era o seu objectivo.
Não deixou no entanto Ban Ki-moon de declarar solenemente que a alimentação é um direito básico.
Basicamente não disponível para milhões de homens, mulheres e crianças.
Nesta mesma cimeira não participaram dirigentes dos países do G8, certamente ocupados com problemas bem mais sérios...