quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Contributo para a diminuição do deficit

De forma profundamente patriótica e demonstrando um elevado sentido do dever público o Sr, Ministro das Finanças (e da Administração Pública também, não é?) manifestou-se disponível para fazer baixar o seu próprio salário para assim poder dar o seu contributo directo para a redução do deficit.

Permita-me que aceite, excelência.

Se é necessário? É mais que necessário. O Sr. Ministro bem sabe o que tem pedido aos outros.

Permita-me então uma sugestão. Reduza em 10% a remuneração de todos os detentores de cargos públicos e de nomeação política e obterá uma poupança superior a 12 549 742 €.

Posso facultar ao Sr. Ministro o ficheiro excel onde fiz os cálculos.

Mas adianto os principais vectores no quadro seguinte:




Os custos anuais com estes detentores de cargos e nomeados políticos perfazem 125497424€ pelo que descontando os propostos 10% se obtém o valor já indicado.

Como o Sr. Ministro facilmente verificará, os cálculos foram feitos “por baixo”. Não incluem os Governos Civis e os respectivos gabinetes, assim como não se incluem os vencimentos dos gestores de empresas públicas, institutos públicos e fundações.

Não se incluem os Parlamentos, Governos e Gabinetes das Regiões Autónomas.

Não se incluem os Gabinetes pessoais dos Sr. (s) Ministros e dos Sr.(s) Secretários de Estado, enfim…outros tantos.

Se acolhesse esta singela proposta, que grande serviço prestava ao País, Sr. Ministro e já podia deixar os funcionários públicos em paz.

Aliás, não constitui uma prova cabal de incompetência dos governantes esta prática “baixa” de culpar os funcionários públicos por todos os públicos males?

Quem os recruta? Quem os gere? Quem os avalia? Quem lhes determina objectivo? Quem lhes castra competências e vontades? Quem os aniquila com uma hierarquia de filosofia de chefe?

Quer discutir Função Pública, Sr. Ministro?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Palavras e orçamento




Às 22,22 de 26 de Janeiro de 2009 foi entregue a proposta de Orçamento para 2010.
Conclui-se assim um penoso processo de «copy paste» muito em uso na administração pública portuguesa, que contou apesar de tudo, nesta edição, com novos recursos cénicos, caracterizados em torno de uma farsa negocial e de forte dramatização.
Garantidas as abstenções dos que não teriam tido pejo nenhum em votar a favor, ou mesmo assinar por baixo, dá-se agora início aos novos actos.
Aumentos zero(???) na Função Pública.
Quebra no investimento público
Diminuição de 0,9 % no deficit.
Crescimento do PIB abaixo de um ponto.
Crescimento do desemprego, fazendo situar este na casa dos dois dígitos.
Recusa em taxar as mais valias especulativas.
São os grandes temas, as palavras que invadem o nosso quotidiano.
Poderíamos abreviá-las e dizer simplesmente…mais do mesmo.
Que querem dizer quando falam de aumentos zero?
O que pretendem fazer quando convocam os sindicatos para discutir os aumentos salariais (?) na Função Pública?
Brincam com as palavras ou já nem sequer os significados destas eles respeitam?
Quem votou PS como mal menor face aos perigos da direita o que pensa agora quando o PS faz a politica que a direita aplaude.
Aliás, até um pouco mais do que ela faria (por complexos) se fosse ela a estar no poder.
Ao PS não basta empertigar-se de esquerda, é preciso no mínimo, parecê-lo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Contributos para uma reflexão politóloga




Agora que é cada vez mais efervescente a luta interna no PSD - julgo mesmo que a efervescência não tem nada a ver com a liderança - decidi dar o meu pequeno contributo para a necessária reflexão politóloga que julgo necessária.
Elaborei para o efeito umas propostas de tese.
Primeira proposta de tese (PPT):
Apesar de não formalizado existe em Portugal um novo partido político. Nasceu da metamorfose interna de um outro, ou melhor da «cuculidaedização» - termo que irei desenvolver na SPT (segunda proposta de tese) - a que o seu criador procedeu.
Tal facto, agravado por não ter sido assumido - o que é traço distintivo do processo de «cuculidaedização» - tem contribuído, por um lado, quase à extinção dos politólogos - hoje quase totalmente suprimidos - pelos notáveis comentadores comendadores e por outro, ao total descalabro de empresas de sondagens e principalmente a estas. Tal é o desnorte.
Segunda proposta de tese (SPT):
Desenvolve-se em Portugal (tudo indica por contágio continental) um processo que pode ser designado por «cuculidaedização» e que consiste em aproveitar ninho alheio para desenvolver projecto próprio. O progenitor (o cuco), aproveitando ninho de outrem, coloca para gestação as suas propostas, que rapidamente ocupam o espaço e vingam, levando inclusive os progenitores da outra espécie, a alimentar (sem saber ou sem se importarem) os rebentos assim nascidos.
Terceira proposta de tese (TPT):
Parece existirem em Portugal, as condições propícias, para o desenvolvimento de uma nova espécie de indivíduos políticos (os MPQOP - os Mais Papistas Que O Papa).
São em regra originários das escolas de formação de um partido de esquerda (de esquerda de facto), mas que por vicissitudes diversas - que nem os próprios sabem explicar, mas que são de explicação simples - resolvem mudar de ares políticos.
Quase todos aterram em ninho que, para alívio da consciência deles - dizem próximo do seu ninho originário, embora se tenham já registado casos de voos para ninhos mais distantes - e depressa conquistam aí enorme simpatia.
De tal forma que logo são candidatos a deputados, ao de cá e ao de lá e a presidentes de Câmara. Este fenómeno é facilmente identificável em Évora.
Rapidamente se assumem como arautos esganiçados de voos mais altos e depressa são defensores incansáveis do processo de «cuculidaedização» em curso.
Uma crónica de hoje de um destacado MPQOP publicada no Público é disso bastante elucidativo, disse o dito cujo: “ …a sua oposição à modernização social democrata da teoria e da prática política do PS (que o levou a uma afinidade electiva com a esquerda radical…) esclareço que este MPQOP se está a referir a um homem que é militante de longa data do partido a que ele aderiu à pressa… e está também, explicitamente a confirmar o tal processo de nome esquisito que por economia da vossa paciência me abstenho de mais uma vez referir.
Na perspectiva de ter contribuído para o necessário debate em politologia… ou deverei dizer…em ciência política? Aqui vos deixo estas PT (propostas de tese).

domingo, 24 de janeiro de 2010

Certamente por lapso



Insisto nas questões do património (entendido este na perspectiva que aqui já deixei ficar clara) porque o considero um tema da máxima importância.
E é por assim ser que acompanho com atenção todas as iniciativas que o tenham como objecto de análise e discussão, assim como a própria acção dos auto designados patrimonialistas.
E são patrimonialistas os arquitectos; urbanistas, paisagistas, historiadores, arqueólogos, artistas, historiadores da arte e quase nunca aqueles que a ele se dedicam na perspectiva social.
Como se o património fosse algo que deve ser estudado de forma dissociada da sua componente vivencial, como se tivesse surgido do nada, nada representasse no presente e para o nada caminhasse.
Para além daquele universo de frases feitas, tipo «as pessoas também são património» é um facto que hoje ninguém questiona a importância do património imaterial no conjunto dos bens patrimoniais, assim como, são muitos os que entendem que, por exemplo só com a vivificação dos centros históricos
se garante com eficácia a sua preservação.
Que perturbante seria calcorrear as ruas e travessas de um centro histórico sem gente. Como já é perturbante verificar o estado de ruína de muitos dos seus edifícios, constatar que o barbeiro fechou, que a mercearia tem afixado um grande cartaz de vende-se de uma conhecida imobiliária, que a taberna virou snack e que este virou coisa nenhuma.
Só há uma verdadeira política patrimonial se esta tiver no seu cerne e como objecto as pessoas. Pessoas que o salvaguardem, que o projectem, que o usufruam e que o entreguem em bom estado de conservação às gerações futuras.
Não nos esqueçamos que o património é um elo geracional.
O texto de hoje, sendo a este propósito, é também um estado de alma.
Aqui, nesta cidade que em tempos se soube projectar ao estatuto de Património da Humanidade, habituámo-nos a ver o desprezo a que se vota a «galinha dos ovos de ouro», a desprezar-se e a questionar-se a utilidade de investir na salvaguarda do centro histórico.
Aqui o património não se enquadra com a «excelência». E a «excelência»como sabemos é acabar com o cinema, com as iniciativas que preenchiam as ruas, é construir praças de touros em praças alheias e chamar-lhes arenas, é promover o marialvismo e dar a primazia à comedora de croquetes.
Mas não gosto e esse até é o propósito central do texto que, onde esperava que nas questões patrimoniais pusessem em primeiro plano as pessoas, constate que se promovem umas jornadas do património (Montemor-o-Novo) onde estas não estão incluídas.
Vão discutir o património e discutem desde o megalitismo à azulejaria, das espécies autóctones dos Sítios de Cabrela e Monfurado ao Rio Almonsor e não discutem o riquíssimo património imaterial do concelho, as problemáticas associadas ao habitar nos centros históricos, a forma de usufruto patrimonial ou as formas de potenciar o património como factor para o desenvolvimento económico e social.
Acredito que em Montemor é só um lapso.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Processos de tomada de consciência




Interessa-me, melhor, fascina-me, a análise dos processos de tomada de posição individual (ou os chamados processos de tomada de consciência).
Porquê, dois homens (ou duas mulheres), ou um homem e uma mulher (e ou vice-versa por razões do politicamente correcto), nas mesmas condições: económicas, culturais, sociais, conjunturais, estruturais têm, sobre o mesmo assunto, posições diametralmente opostas?
Uns dizem que é determinante a condição social, outros contrapõem com argumentação de ordem genética, outros enredeiam-se nos factores culturais.
Este disederato, que vos prometo abandonar desde já, vem a propósito, para o caso, do Haiti.
Para uns, os mais de 15 000 soldados norte americanos (para pouco mais de 300 socorristas) estão no Haiti para «ajudar».
Incluem-se nestes, a maioria dos agentes dos media e consequentemente, acredito, a maioria dos portugueses.
E alguns colegas e amigos meus.
Estarão certos?
Como era bom acreditar que sim.
Mas muitos duvidam e falam de ocupação.
E eu sou dos que duvidam.
É unânime aceitar a tragédia como consequência natural - já serão poucos, mas ainda existirão os que a julgam como consequência divina - mas há os que afirmam ter a mesma sido consequência de atitude deliberada da marinha norte americana.
Consequência da badalada teoria da conspiração?
A maioria acredita na tese naturalista (e outros na divina).
Tenho colegas e amigos que assim pensam.
E eu duvido desta tese e julgo que não é disparate julgar que ali houve mão humana.
Mas se não a houve no terramoto, houve-a de certeza na potenciação da suas consequências.
O que provoca então semelhantes antagonismos?
Julgo que diferentes estádios de aproximação à verdade.
É neste processo que, os que verdadeiramente não a renegam, devem apostar.
Esforcemo-nos então e façamos o caminho pelos nossos próprios meios - as boleias que se nos oferecem são duvidosas.
Eu esforço-me por fazer o meu próprio caminho.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Promessas




Há oito anos que vivemos de promessas. Ou melhor, um pouco mais, pois elas começaram antes ainda.
Não deixa de ser verdade que eram aliciantes.
Pavilhões de Congressos, Multiusos, Parque de Feiras e Exposições, Complexo Desportivo. Habitação para todos ao preço da uva mijona, empregos aos milhares, fábricas de aviões de todos os modelos, desenvolvimento a levantar voo…Uma cidade de excelência.
De tal forma são as expectativas que hoje, mal uma escavadora remexe umas terras e logo se conclui: já começaram as obras da fábrica dos aviões, até já estão a receber inscrições…ou… já começaram as obras do Fórum…antes do final do ano temos Centro Comercial…ou…
E assim foi quando foram detectadas escavações junto ao IZI. Eis as ambicionadas obras de construção do Fórum…aspirou-se.
Afinal não são.
São de um outro empreendimento.
Mas tudo indica que ainda este ano se iniciarão as obras não do Fórum, mas de um Retail Park, com algumas dezenas de lojas, duas salas de cinema e restauração.
Uma lufada de descompressão pela mão da iniciativa privada.
Pelo menos parece que vamos ter cinema na cidade de excelência.
Mas o que parece ser evidente é que já acabou a embriaguez.
Falta saber como se vai viver a ressaca.
E ela é dolorosa.
Ainda só estamos na fase das náuseas.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

HAITI os desabafos e as perguntas a que tenho direito




Já tentei vezes sem conta iniciar este texto.
Já escrevi.
Já apaguei.
E não sei ainda se agora fica.
Quero escrever sobre o Haiti.
E quero, não por capricho, mas por imposição cívica e ética.
Mas que sei eu? Que direito tenho, no abrigo seguro (até agora)do meu lar, a falar ou escrever sobre a dor dos que para a subsistência NADA têm de bom e TUDO têm de mau?
Mas para além do choque que as imagens que nos transmitem me provoca, chocam-me outras «imagens».
A que distância dos EUA está o Haiti? Porque demora tanto o auxílio?
Onde estão os soldados que os EUA dizem ter enviado? O que fazem ? - não quero sequer imaginar que foram para ficar, mas com outros fins.
Não havia um plano de contingência perante as anomalias que afectaram o C130 da Força Aérea Portuguesa?
Se se tratasse de uma (mais uma) invasão militar para anulação de armas de destruição maciça, as coisas processar-se-iam de igual forma?
O que faz o Sr. Clinton, mais conhecido por outras performances, na coordenação logística do apoio norte americano? E o texano que não foi capaz de socorrer os seus concidadãos?
A ONU é só mais um corpo ou é de facto a Organização das Nações Unidas? Não lhe competiria a coordenação e direcção de todo o processo de socorro e apoio?
Depois das perguntas desabafo, retenho como bom, a enorme solidariedade que em todo o mundo se levanta. Cidadãos sem nome que agem, das mais diversas formas, para minimizarem a dor dos que hoje sofrem.
Assim como retenho o papel da AMI, uma gota de água no oceano é certo, mas uma gota a que se juntaram muitas outras.
Conquistaram o meu respeito.
Guardo também, pela negativa, o anúncio de HOJE, da doação feita pelo Patriarcado de Lisboa.
20 mil euros!!!
Bastaria que cada um dos cerca de 80000 que assinaram o abaixo assinado para defender a realização de um referendo sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo - uma intromissão nos juízos e opções de cada um - friso, bastaria que contribuísse com UM EURO, para que a expressão dessa solidariedade não roçasse o ridículo.
É a Igreja que se tem. Cada vez mais distante do seu rebanho.
Pela minha parte não fiz certamente o que se impunha.
Mas fiz.