domingo, 28 de fevereiro de 2010

A Terra é linda



Já deixei subentendido em textos anteriores, julgo mesmo que mais explicito que subentendido, que me posiciono criticamente face aos convencimentos da modernidade.
Incluem-se neles, uma «fé» absoluta na tecnologia e uma concepção dogmática da ciência - o que julgo constituir-se como anti ciência.
O que se está a passar no capítulo do natural contribui dramaticamente para reforçar estas minhas atitudes criticas.
Um parafuso na pista destruiu o Concord, uma placa mal aparafusada quase terminou com o sonho interplanetário dos vai vem, as pontes ruíram quando se anunciavam eternas, os arranha céus vieram abaixo com o impacto de duas aeronaves, o mar reocupou as vivendas que se lhe sobrepuseram, os rios estoiraram as manilhas com que os procuraram domar.
E mesmo assim, o homem decidiu criar ilhas em forma de palmeira e nelas construir novas cidades e torres (quais babeis) que quase chegam ao céu (ou chegam mesmo, pois não sabemos onde este começa) e outras grandes feitos.
E é neste «confronto» que nos situamos.
E perante ele, seria aconselhável mais interrogação e menos arrogância. Mais dúvidas e menos certezas.
Mais ciência e menos a sua negação.
A terra não é o nosso animal de estimação domado. É um ser vivo, dinâmico, muitas vezes cruel e por vezes agressivo, onde vivemos.
A história do homem é uma sequência de lutas de forma a ganhar as condições para aqui habitar em segurança e bem estar.
Muitas, bem conseguidas. Outras, nem tanto.
Importará pois retermo-nos mais na análise dos fracassos do que na ostentação grosseira dos sucessos.
E… convém não esquecer.
A Terra é linda.
Respeitemo-la.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

A natureza ajusta-se.



E as consequências desses ajustamentos são dramáticas.
Medem-se em vidas humanas, no acrescentar desgraça às desgraças, na destruição maciça de bens e recursos.
Haiti, Madeira, Chile, só para referir os acontecimentos mais recentes e mais dramáticos.
Hoje mesmo, Portugal foi fustigado por ventos fortes, inundações e de novo a perda humana, no caso lamentável uma criança de 10 anos.
São vários os prismas, sobre os quais procuramos a racionalidade das tentativas para perceber as causas.
Há quem fuja dessa racionalidade e procure as respostas no plano espiritual.
E há outros que atribuem à natureza esse dom que é de deus em outros, melhor explicado, que atribuem dons divinos à natureza (essa coisa abstracta).
E quem somos nós para, perante os dramas vividos, criticar quem assim se presta a tentar perceber? Principalmente quando essas interpretações vêm das vítimas directas.
Mas, distantes, dos efeitos físicos, somos tentados a procurar perceber.
Um dado inquestionável é de natureza tecnológica.
Os modernos meios de comunicação permitem-nos hoje, saber ao momento (in loco), os acontecimentos que têm lugar em qualquer parte do mundo. E esta simultaneidade atribui uma outra dimensão ao acontecimento.
Um outro (dado), prender-se-á eventualmente, com o facto de sermos contemporâneos de profundas alterações climatéricas e de ajustamentos nesse capítulo que estarão a ocorrer à escala planetária.
As placas movem-se, os icebergues chocam e descolam-se, os glaciares derretem-se, formam-se tornados onde antes nunca tal tinha acontecido, neva em sítios até hoje impensáveis.
O mundo mexe-se em todos os sentidos.
E os homens continuam cegos com as certezas de uma pretensa racionalidade.
A ciência e a técnica terão as soluções, asseguram.
E nós cremos que sim, desde que a ciência não se renegue.
Desde que se assuma esta como um caminho para o saber (verdade) e não como o saber (verdade) em si.
A ciência é expressão de capacidade metodológica sobre a dúvida.
Não é a certeza precipitada (e arrogante)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Há sempre alguém que resiste


Sabemos que alguns julgam que tudo está como sempre estará.
Que sempre haverá ricos e em consequência uma imensidão de miseráveis.
Que sempre haverá senhores e em consequência uma imensa mole de gente submissa.
Que sempre haverá um deus para dar suporte espiritual e em consequência cada vez mais gente sem esperança.
Que sempre tudo será assim.
Mas também há os que assim não pensam. E somos muitos.
Sonhadores dizem. Outros chamam-nos utópicos.
Pois que sonhemos então a utopia e a transformemos em vida.
E um pouco por toda a Europa vão tendo lugar lutas - coisas banais que não merecem a atenção dos media - que demonstram a vontade de mudar. De reagir. De dizer não e de mudar.
Hoje na Grécia - Greve Geral, contra as receitas de sempre do capitalismo. Duas semanas depois de intensas e históricas lutas.
Ontem em Espanha - Madrid, Barcelona, Valência e em muitas outras cidades - manifestações vieram quebrar a bolorenta trégua que haviam concedido a Zapatero.
Em Dresden um cordão humano com mais de 10 mil pessoas impediu o acesso de uma manifestação neo nazi.
Na Rússia, um estudo sociológico realizado em mais de 140 localidades , com cerca de 1600 inquiridos, conclui que a maioria valoriza o processo de construção do socialismo que teve lugar no seu país.
Porque será que as televisões, rádios e jornais nada nos dizem sobre isto e por muitas outras similares acções.
E nós preparamo-nos para a 4 de Março - Greve na Função Pública - para dizer a Sócrates que nos escute.
E de novo nos preparamos para comemorar Abril.
Há sempre alguém que resiste.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

É sempre do mesmo



«Para o economista chefe do FMI o esforço de consolidação orçamental pode durar 20 anos e, nesse âmbito, sacrificar salários para recuperar competitividade será uma medida inevitável.
Numa entrevista hoje divulgada pelo jornal italiano La Repubblica, Olivier Blanchard declarou que "a adaptação é mais fácil para os países que podem desvalorizar a sua moeda", o que não acontecerá "nos países que não têm essa opção", onde "o aperto será extremamente doloroso". Portugal está nesta situação.»

Eis de novo, o discurso de sempre.
Pelos vistos, vai durar - ameaçam - pelo menos mais 20 anos.
O discurso inevitável. O peso da opinião que quem se afirma detentor do saber. Nada mais há a fazer.
Preparemos-nos pois. A nossa vida vai continuar a marcar passo.
Quem sou eu, ou tu caro amigo que me lês, para se julgar no direito sequer de duvidar que não há outro caminho?

Moralizar a vida pública.
Combater excessos e gastos supérfluos.
Retirar da lógica do lucro sanguinário, bens e serviços essenciais à população.
Tributar os milhões gerados no jogo especulativo e os prémios imorais de gestores de trazer por casa.
(Dizem que um conhecido ex continuo, de um grande banco, ganha hoje mais - em Portugal - que o Presidente dos EUA).
Reduzir nas mordomias patéticas de um poderoso aparelho partidário que precisa de alimentar a «pão de ló» as suas clientelas. (os episódios trazidos a lume - PT e outros - não só ofendem como enojam).
Criar condições para o aumento da procura interna e consequente aumento da produção.

Estas não são soluções.
Os senhores do FMI, Banco Mundial, Banco Central Europeu, Banco de Portugal e dos outros e os outros assim o dizem e está dito.

Mesmo que na Argentina, na Grécia, Na Islândia, em Portugal, em Itália e em quase todo o mundo, a realidade demonstre o contrário das suas doiradas (de oiro) teorias.

Mesmo que Lula da Silva lhes diga que fez exactamente o contrário e que assim teve êxito.

E silenciam ou procuram silenciar a Greve Geral da Grécia com o cerco à bolsa e um povo inteiro que se levanta contra o remédio que mata.

Até a desgraça da Madeira lhes serve, para que não se fale de mais nada.

Até quando?

Até quando julgam possível o silenciamento?

Que ninguém tenha o adquirido como certo e definitivo.
Essa arrogância fica-vos mal e pode-vos assentar mal.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Um abraço, amigos



Como todos, julgo, os que percorrem os caminhos da blogofonia, dedico uma parte do tempo de «navegação» a tentar perceber os outros, lendo-os.
Os outros com que me identifico, obviamente.
E é com alguma estranheza que me vejo envolto, sozinho, nesta apoquentação permanente com o drama dos nossos compatriotas madeirenses.
Este é o terceiro texto em que me sinto toldado pela tristeza e pela incapacidade de encontrar as palavras (já que a distância não facilita outra atitude) que de alguma forma pudessem contribuir para aliviar a dor dos que sofrem.
Sabemos que a vida continua e que a luta continua.
Mas eu, de momento, pretendo travá-la assim, a luta.
Este é o texto possível do 1.º dia de luto pelas vítimas da tragédia da Madeira.
Envio pois mais um ramo de flores.
E mais farei, garanto.
Do pouco que está ao meu alcance.
Um abraço, amigos.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Para a Madeira, com todo o respeito



Quando continuamos a assistir a imagens aterradoras da força de uma natureza, que impiedosa fustiga e pune, garantidamente os inocentes, não é fácil abordar outros temas.
Quantos são neste momento, os que na Madeira choram os seus mortos, contabilizam os prejuízos e se abrigam sob telhado amigo?
E eu aqui, sossegadamente, pretendendo reflectir sobre o mundo e as suas gritantes contradições. Ou até mesmo sobre coisas mais terrenas, mesmo que seja.
Apela o senhor que na Madeira julgava tudo controlar para não dramatizarmos a situação. Não o faremos garantidamente, o drama por si já é suficientemente grande.
E não é escondendo a dor que ela passa mais depressa.
Diz depois, que agora vai pôr tudo bonitinho. Acredito que sim. Nas campas dos que agora morreram as famílias irão pôr flores.
E na Madeira, assim como nos Açores e no Continente outros dramas continuam.
Assim como continua a gula de uns quantos - quantos deles não enriqueceram em negócios sem escrúpulos de construção em leito de cheia - que agora choram lágrimas de crocodilo e que às perguntas concretas, sobre a disponibilidade de atribuir algumas migalhas das suas enormes riquezas, respondem evasiva e hipocritamente: … pois todos nós iremos ajudar.
A grande maioria dos portugueses acredito que sim.
Alguns, mesmo que disponibilizem «maquias generosas» parece que só estarão a repor parte (ínfima) do saque.
É verdade e repito: é preciso tratar dos vivos e respeitar o luto.
Mas é urgente responsabilizar os responsáveis.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um abraço aos madeirenses




Havia planeado abordar outra temática mas as trágicas noticias que nos chegam da Madeira, alteraram as minhas intenções.
Cingir-me-ei à manifestação de clara solidariedade para com os nossos compatriotas e a uma palavra de pesar pelas vidas perdidas.
Agora é hora de tratar dos vivos e de respeitar o luto.
Haverá tempo para apurar responsabilidades.
Como português do continente o meu singelo apoio aos portugueses da Madeira e um pequeno reparo para que o Sr. Presidente da República não fale de solidariedade de portugueses com madeirenses mas, apropriadamente no caso, de solidariedade entre portugueses.