sexta-feira, 30 de abril de 2010

CRISE?! Responsáveis e lágrimas de crocodilo



A monotonia da viagem é agravada pela acalorada discussão que tem lugar no banco do lado sobre o jogo do próximo domingo.
Vai ou não o Benfica ser campeão e festejar (já) no Porto? É o tema dominante da conversa dos meus acompanhantes de viagem.
Interrogo-me como é possível falar durante tanto tempo e parece que de forma tão entendida sobre futebol?
Como eu gostaria de ter capacidade semelhante para entender a economia, ou deverei dizer finanças, ou jogo especulativo? Enfim, para entender a «crise», esta instituição que nos trama.
Mas não percebo.
Acima de tudo para procurar isolar o problema, reflectir sobre as causas, punir os culpados e tomar medidas para evitar cair nos mesmos erros.
As causas parecem indiciar, no que às contas públicas dizem respeito, que assentaram em medidas de despesa que não tiveram em conta as capacidades de receita. Gastou-se mais do que o que tínhamos. Com quem? No quê?
Se há mais pobres e se aumentaram as desigualdades na distribuição da riqueza produzida é lícito supor para que áreas se canalizaram os dinheiros que tínhamos e não tínhamos.
E quem tomou essas medidas? Eu não fui! Assim como também não o foram a generalidade dos portugueses, mas é fácil saber quem foram.
Porque mantemos sempre as culpas nos anonimatos?
Sabe tão bem certamente aos verdadeiros culpados ouvir expressões do tipo: «os políticos são todos iguais». É que enquanto durar essa capa social, dificilmente lhes pedirão contas.
E se não apontarmos claramente os culpados, não poderemos puni-los.
E… sem isolarmos o problema, sem reflectir sobre as causas, sem punir os responsáveis…vamos continuar com tudo na mesma.
Como lhes convém.
É por isso que hoje, em mais uma saída da cartola, o coelho gémeo do coelho filósofo vem solenemente, em nome dos interesses do país, propor que se pague aos funcionários públicos o subsídio de férias com certificados de aforro.
Pena é que, grande número de funcionários públicos e dos outros trabalhadores deste país, ainda não tenham procedido ao pagamento a estes políticos todos iguais (os que tem estado no poder nos últimos 30 anos e respectivos herdeiros) na mesma moeda.
Eu por mim tenho pago.
Mas temos de ser todos a fazê-lo.
Porque todos nós somos a imensa legião das vítimas destes senhores.
Deveríamos pois pagar-lhe de forma equitativa.
Com certificados de incompetência.
Os que assim não procedem e lhe deram e porventura se preparam para lhe dar votos são tão responsáveis como eles.
Têm de passar a assumir as respectivas responsabilidades.
Não pode haver mais lugar para lágrimas de crocodilo.

PC.Evidentemente amanhã não haverá «post» porque faz anos que sou trabalhador: VIVA O 1º de MAIO,

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O homem novo? Está atrasado?



Por aqui vou-me cruzando com paisagens, amigos, memórias, vontades.
Exercito-me (deslocando-me entre carruagens) e penso (uma actividade nobre a que o ritmo dos dias de hoje reserva pouco tempo), consulto jornais, bebo café, trabalho, falo com amigos.
Maravilhosos dias. Espantosas tecnologias.
E os seus falhanços? clamorosos!
À nossa volta estoira a mais requintada invenção da modernidade. Aquela que determinou rumos, moldou as vidas de milhões de seres humanos.
E que a par das ilusões que criou - a abundância para todos - gerou os milhões daqueles que quase ou nada têm que hoje povoam o mundo.
São muitos os que dizem que estamos em pleno apogeu da queda do Capitalismo e do paradigma teórico que permitiu a sua aparição e êxito.
Foi-se refinando a individualização do homem. O seu isolamento em si era condição. Alguém disse que nunca o homem esteve tão só como neste tempo em que o aglomeraram em cidades e mega cidades.
As invenções tecnológicas contribuíam na mesma direcção.
Até os saberes foram fragmentados. Especialização, diziam.
Mas o homem, mesmo fragilizado por este processo, é um ser inteligente. Reagiu, reage e vai reagir.
Creio que cada vez com mais dinâmica.
É forte a turbulência.
Quando os homens, todos os homens, em todo o mundo, tomarem plena consciência que é possível um novo rumo e que eles podem ser senhores do seu destino:
Então, aí estará o homem novo.

PC1 - Da cartola saiu um coelho. Igual ao outro (o coelho filósofo) e aos outros. Apelou hoje, sem corar, que é preciso moderação por parte dos Sindicatos nas suas reivindicações. Quem comprou semelhante ovo de páscoa?

PC2 . O apelo do regresso à política a que de certa forma hoje dou continuidade, que ontem aqui fiz, foi também objecto de tratamento de outro blogue. Tive disso conhecimento no Público de hoje. Para que conste.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

É preciso voltar à política




Em Democracia é através dela que se Governa.
O que tem acontecido é que tem interessado a quem dela se serviu para chegar ao poder, que dela se digam agora «cobras e lagartos» para se perpetuar no poder.
E esclareça-se que o perpetuar no poder não tem a leitura simples que fazemos da expressão.
Perpetuar no poder é hoje ser ministro das obras públicas e amanhã administrador da CP, da Refer ou Lusoponte.
Perpetuar no poder é fazer escola na jota e com restos de cueiro ainda agarrados ao dito cujo ser nomeado administrador de uma grande empresa pública (ou privada porque nos negócios não há pudor e há favores a pagar).
Perpetuar no poder e passar a ter o descaramento para justificar os milhões embolsados como prémio por atingir objectivos e os trabalhadores da mesma empresa não poderem ser aumentados por causa do deficit, da crise, dos gregos, dos ratings.
Importa pois denegrir a política.
Vender a ideia que os políticos (o que não é a mesma coisa de entendidos em política) são todos iguais.
Querem é «mamar».
E vão mamando.
Uns, directamente na teta mãe e outros nas tetas secundárias.
Alternando-se só nas tetas, porque mamam sempre.
E têm nomes. Todos os conhecemos de ginjeira.
Agora o PS, amanhã PS com o CDS, depois PSD, depois PSD e CDS, e depois PSD e PS.
Há mais de trinta anos!
De facto são todos iguais.
Se do todos, excluirmos outros.
Façamos pois um esforço e voltemos à política. Procuremos analisar percursos, propostas, acções e escolhamos em consciência e não por arrastamentos provocados por modas.
O país precisa de nós.
Não para nos sacar mais impostos, impor-nos baixos salários, reduzir direitos.
Esse é o contributo que há trinta anos nos pedem.
O País precisa de nós mas para dizer: BASTA.
Não acham que foi comovente este encontro de hoje entre Sócrates e Coelho?
Assim à laia de «não nos podemos esquecer que estamos juntos nisto»
Por mim, há muito que BASTA.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Luta Continua



Foi linda a Festa.
Porque o povo encheu a Praça. E porque também foi afirmação e luta.
Mesmo depois de tudo ou até mesmo por causa de tudo é tão bom saborear cada trago desta doce Liberdade.
Agora continuamos. Nas lutas que nos esperam.
Na duradoura resistência de quem sabe que é justo o que pretende.
Já meti de novo os pés ao caminho.
Reinicio a minha viagem, percurso saltitante entre o presente, as memórias presentes e que não é mais que uma desculpa para me afastar das coisas da cidade.
Criticável esta minha atitude, mas não suporto mais hipocrisias, desresponsabilizações, lavagens pilateanas de mãos.
Pois que lá fiquem os carrascos e a plebe que os mimou e trouxe ao colo.
Sei que também ficam os que não tiveram culpa (muitos, muitos mil) mas esses sabem que mesmo com este aparente alheamento, ( e agastamento - evidente) eu farei o que puder…
E (re) inicio a viagem retendo, preocupado, preocupantes traços do declínio.
O rossio para onde, em tempos recentes, afluiu tanta esperança e tanta afirmação, virou parque de diversões decadentes e em manifesto fora de prazo para consumo.
A vala de água suja que fronteia o monte alentejano não é o que todos ficaram a pensar, pois não?
É que ela provem de uns tubos que saem das caravanas do circo…
Os jornais falam da incerteza em relação ao Projecto da Embraer - parece que haverá hoje uma reunião decisiva em Bruxelas - mas os vendedores de ilusões excelentes já por aqui ganharam as eleições acenando com os empregos e o desenvolvimento que gerariam.
E se alguma coisa agora correr mal?
Devolvem o voto ao povo?
Terão ao menos estatura para tal?
Não creio!
Mudando de linha.
Quando há um texto atrás dizia, que alguns que gostariam de estar connosco na Praça para comemorar Abril, não o poderiam já fazer, estava longe de pensar que o Albino seria um deles.
Soube hoje. Seca e inesperadamente.
Adeus Camarada.

sábado, 24 de abril de 2010

Vá camarada, mais um passo.


O casario branco que avistava era de facto Casa Branca.
Feito o transbordo e aproveitando por dias o funcionamento desta linha, que estupidamente vai fechar por um ano, estou de regresso.
Não tarda nada, aí estou.
Pelo tempo necessário para ir convosco à Praça de onde nos quiseram correr.
Não vou cumprir nenhum ritual. Vou à Festa.
Alguns já lá não estarão.
Não podem.
Mas nó vamos lembrá-los.
Eles merecem.
E estarei na Praça, sem melancolia.
È só mais um passo, de todos os outros dados antes e de todos os que ainda falta percorrer.
Dado com muita alegria e com os olhos no futuro.
Por isso, por hoje:
VIVA A LIBERDADE!
VIVA O 25 de ABRIL.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

ABRIL


Alheio-me por completo desta minha viagem.
Olho pela janela e não me consigo situar.Avisto ao longe uma aldeia. É cada vez mais nitido o seu casario branco. Será? Já? Hum...não sei.
E este alheamento fica a dever-se ao facto de por formas várias, que tecnologicamente estão a nosso dispor, ir recebendo notícias. E estas serem de forma a nela me concentrar.
Lá, na cidade, continua tudo como antes.
Os senhores da cidade não têm Abril como prioridade.
Mas a cidade não lhes corresponderá.
Espero lá estar, na Praça, para lho demonstrar.
Espero também encontrar-te lá, amigo. Tenho para mim a certeza que sim.
Quero falar-te do teu texto.
Claro que me identifico com o que dizes, mas...
Mas para mim Abril, é também memória,
E não sei, tal como tu também não sabes, se os entusiasmos então vividos são irrepetíveis,
Sei também que muitos dos que cantaram os hinos que recordamos, desafinam hoje as melodias que então cantavam. Mas eu recordo estas.
As solidariedades que afirmas que então pareciam não ter fim, não têm mesmo. Tal como ontem, hoje as proclamamos.
Não menosprezes os hinos, as bandeiras, as canções, a memória. São as nossas iconografias. São a parte que nos cabe, neste percurso inacabado.
Deixa-me lembrar o sonho.
Quero saboreá-lo, para o repetir, ou pelo menos deixar a receita para os meus filhos.
Deixa-me ficar com a poesia dos tempos poéticos.
Deixa-me lembrar que quando cantávamos: “Esta terra é hoje nossa”, ela o foi de facto.
Dizes que Abril é futuro.
Claro que sim.
Desde o segundo primeiro.
Sempre foi futuro porque fechou as portas do passado.
Mas é memória.
Não te esqueças amigo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Exercício



Aqui sentado, apreciando a paisagem através deste comboio em movimento, vendo que lá fora chove… de novo a chover, nesta Primavera molhada! proponho um desafio.
Imaginemos Portugal.
Há trinta e seis anos atrás, precisamente a 22 de Abri de 1974.
Uns, podem fazer esse exercício sem recurso à imaginação. Outros terão mesmo que se esforçar, para imaginar.
Não proponho nenhum exercício «negro», vereis que é uma reflexão…
Aos que tais recordações ainda causam dor, peço e sei que obtenho a vossa compreensão.
Dou para já o exemplo e inicio essa tenebrosa viagem de regresso a um tenebroso tempo.
Terei que o fazer na mais completa intimidade. Estamos no tempo em que as paredes têm ouvidos.
Há bufos, pides, policias, lambe botas, graxistas e toda uma sub espécie humana ansiosa por mostrar serviço.
E do seu «serviço» resultam sempre torturas, humilhações, prisões.
Decorre em Africa uma guerra para onde são enviados todos os que tenham mais ou aproximadamente 20 anos, sejam do sexo masculino, andem, mesmo que coxos e vejam, mesmo que míopes.
Nem todos regressam. E muitos, embora regressados estão marcados, física e psicologicamente para sempre.
Dizer ao patrão que acha justo mais salário, significa, no mínimo, despedimento e mais fome a acrescentar em casa.
FOME. Sim Fome, não escassez alimentar. Mas fome dura e cruel.
Uma fome que, no campo, arrastava os homem, durante a noite, para rabiscar azeitona, apanhar pequenas tiras de cortiça caídas durante o carrego. Roubar, berravam os vampiros. E mandavam a GNR espancar, prender, humilhar.
E havia homens e mulheres presos. Sem culpa formada, sem julgamento e sem prazo. Haviam tido a coragem de denunciar, de propor aos outros homens e mulheres que se levantasse e se erguessem contra a tirania e os monstros.
E na prisão eram torturados. E alguns assassinados.
Comunistas. Berravam os vampiros.
Querem pôr em causa a ordem e perturbar a paz no rebanho do senhor.
E a paz e a ordem no rebanho do senhor eram a censura, a repressão, a negação das mais elementares liberdades, a fome, a guerra, as prisões e as torturas.
Dou por terminado o exercício proposto e pergunto:
Os que, de entre nós, por vezes desanimam e afirmam que não há nada a fazer, que não vamos lá, imaginam como se sentiria o seu camarada nas masmorras fascistas a 22 de Abril do ano de 1974?
E no entanto três dias depois eles e todos estavam na rua, em liberdade, a cantar liberdade.
Aos outros. Aos que em determinado momento optaram convenientemente por colocar cravo vermelho na lapela e agoram assobiam para o lado e procuram esquecer, afirmamos a nossa vontade de juntar mais anos ,muitos mais a esta festa permanente da liberdade conquistada, mesmo perante a boçal neutralidade que proclamam.
Aos que estavam e estão do outro lado da barricada, afirmamos: podeis ter recuperado, o susto poderá ter passado, mas não voltaste e não voltareis a ser senhores.
Trinta e seis anos deste saboroso sabor a liberdade, alguns deles de sabor tão intenso, só podem fazer com que estejamos eternamente gratos a quem teve a coragem de iniciar o caminho.
Gratos e responsabilizados. Temos um testemunho para entregar.
Bem hajam.