terça-feira, 13 de julho de 2010

Esta conversa já catinga, já fede



Se SEXA a Ministra da Cultura pode redundar então julgo que me é assistido o direito de o poder fazer.
Afirmou esta, que os cortes (que foi impedida fazer por força do coro de protestos) no orçamento da cultura, eram uma preocupação sua, diária, quotidiana.
Pois assim redundando reafirmo: já catinga, já fede, a medida proposta de cortes nos salários da função pública.
É que não há cão nem gato que não venha, com aquelas caras de entendidos em coisa nenhuma, defender: «é preciso cortar nos salários da função pública!»
A última cena foi-nos oferecida nas jornadas parlamentares do PSD. Dizia o dito cujo: «eu cortaria 15 a 25%».
É de macho.
Capa do.
Uma outra expressão que faz escola neste universo de analfabetos que estudaram economia# (empertigam-se vezes sem conta com tal atributo) é o «principio do utilizador pagador».
Excelente.
Costumam argumentar(???):«Não faz sentido que aqueles que nunca utilizaram as SCUT(S) estejam a pagar com os seus impostos para outros poderem usar».
Lindo.
A seguir dirão: «Não faz sentido que aquele que sempre foi saudável esteja a pagar para que o doente seja atendido no SNS»
Ou: «Não faz sentido gastar dinheiro para apoiar uma Companhia de Teatro, pois muitos não vão ao Teatro».
Ou: «Porque é que os que não têm filhos têm que pagar para a Escola Pública».
Ou : «Porque é que o que morreu antes da reforma (e são cada vez em maior número) teve que contribuir para a reforma dos que sobrevivem?»
Ou…Ou….
Mas porque não perguntam: «Se o Estado se demite, se o Estado transfere para o utilizador o custo total do serviço (e respectiva margem de lucro) então para que servem os nossos impostos (que aumenta)?
Não perguntam, porque sabem a resposta.
Teremos de ser nós a fazê-la até à exaustão (por contraponto):
Para que servem os nossos impostos?

#Considerando que são sobejamente conhecidos os personagens a que me refiro, não considero necessário fazer a destrinça destes com os muitos homens e mulheres, que estudaram e honram com os seus saberes a Economia.

domingo, 11 de julho de 2010

Gaspachos...de novo



Por aqui, quando anunciam uma baixa na temperatura prevista de 39 para 35, exclamamos: Ah bom.
Porque assim tem sido e porque o calor teima, volto aos gaspachos, não para vos dar receita, que isso já fiz, mas para contar uma história, daquelas histórias tristes de um Alentejo ainda presente que os alentejanos sabem contar com uma graça inimitável.
Sou alentejano mas não fui dotado com essa graça, assim como com a de cantar. Desgostos meus, mas vou tentar (contar a história, porque cantar não me atrevo…):
Numa ceifa (para manter a tradição de uma linda oralidade deveria escrever: «acêfa) de finais de Junho, com dias já bem quentinhos e grandes, um rancho de homens e mulheres param por momentos o penoso trabalho e preparam-se para a bucha (farta de miséria).
Naquele dia tinham tido uma visita,
O patrão tinha vindo acompanhar ,“de passagem”, a jornada.
Não precisava de se preocupar com visitas frequentes pois o manajeiro tomava-lhe muito bem conta do recado.
Ao chegar, depois de um sonoro bom dia e da breve pausa para a vénia, atirou; «faz um calor de rachar». Era meio da manhã.
Ficou até à pausa para a bucha e ficou a saber que a maioria dos trabalhadores trazia gaspacho para o almoço.
Ficou curioso, Já na semana passada traziam gaspacho…
Chegado ao monte, gritou para a criada: «Hoje fazes gaspacho para o almoço. Porque é que nunca fazes gaspacho???»
Esta, a medo respondeu: «pensava que o patrão não gostava…»
Passado pouco tempo resfolgava-se com um gaspacho recheado com bons pedaços de presunto gordo, paio, azeitonas, jaquizinhos fritos, arrematado com uma boa talhada de melão,
Enquanto se preparava para a sesta, remoía; «Queixam-se, queixam-se mas comem bem os sacanas…»
Entretanto, já há mais de duas horas que curvados sobre o peso do amassador sol, ceifeiros e ceifeiras já nem memória tinham do gaspacho de pão, azeite, vinagre e poucas azeitonas. Arrastavam os corpos naquela dolorosa cadência, com tanto de cansaço como de fome…
E ainda vinha longe o pôr do sol.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

ALQUEVA




Enquanto escrevo, através da televisão oiço Marisa esganiçando uns fados tendo como cenário Alqueva.
A Barragem que idealizámos para regar um Alentejo sedento.
E o que vemos? Uma elitezinha e seus apanágios debitando as palminhas da praxe que ecoam no mar de água que sonhámos mar de esperança.
Que bandeira virou hoje Alqueva?
Sempre que uma nova torneira se abre e uns metros de canal se rasgam, eis que surge a pompa.
Lutámos por Alqueva e quando alguém escreveu: “Construam-me Porra!” esperava certamente por um fim diferente.
É que os denominados «fins múltiplos» são cada vez mais só os interesses imobiliários e fundiários associados a grandes projectos turísticos.
A terra continua sedenta, cercada por arames, improdutiva.
As terras abandonadas pelas gentes.
Ficam e regressam velhos os que novos daqui haviam partido.
Alguns, levados por filhos e netos em visita de fim de semana, contemplam o lago, o imenso lago de que lhe falaram.
E voltam e ficam sós de novo.
Um pouco como o Alentejo.
Apesar de Alqueva, do lago, da água, está de novo só.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sol a mais na moleirinha




Está calor por aqui.
Muito.
Mas são claros os dias.
Parece contradição, mas não é e os Alentejanos sabem-no bem: estes dias quentes propiciam reflexões frescas.
Um pouco como a água que vem fresca no caldeiro tirada de um poço envolto na terra quente.
Não é pois tempo para divãs e muito menos para psicanálise.
Há muita coisa à nossa espera.
A luta, com acções de rua já marcadas para dia 8.
Os amigos e companheiros de luta.
A bebida fresca no silêncio da cálida noite.
A cidade dos nossos reencontros mesmo que esta esteja deprimida por maus tratos.
O campo, nos seus cantos ainda livres e onde talvez encontremos um regato de água fresca.
A sombra de um freixo.
O chilrear de um melro no silvado já prenhe de amoras silvestres.
O sol.

Sempre por aqui ouvi, quando alguém perdia um pouco o controlo de si:
“coitado…sol a mais na moleirinha”.
Vou cuidar melhor de melhor me proteger e beber mais água fresca.

Mas sabemos que não foi o sol…

Porque sei que há amigos que em silêncio acompanham este espojinho.
Em silêncio também, o meu abraço.
Vamos continuar.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

FEIRA DE S.JOÃO




Não sendo criação actual, as feiras tiveram no entanto, na actualidade, uma explosão em número e em diversidade, digna de registo.
Há para todos os gostos e para todas as temáticas.
O último grito, prende-se com as denominadas feiras gastronómicas, percorrendo estas sub temas, quase sempre em torno de produtos, como o caracol, o azeite, o pão, os enchidos, o queijo, as ervas alimentares, só para citar algumas da enorme panóplia da oferta.
Subsistem algumas, poucas, que mantêm a traça da feira tradicional de raízes históricas e marcadas pela pluralidade de oferta e temas.
Nestas inclui-se (por enquanto) a Feira de S. João em Évora.
A Feira de S. João é (?) (foi?) um somatório de feiras em si:
Feira tradicional - com calçado, roupa, quinquilharias, massa frita, torrão de Alicante, barraquinhas de tiro ao alvo, circo (em tempos), vergas, loiças;
Feira do artesanato - com exposição e venda de produtos artesanais regionais;
Feira gastronómica - com as tasquinhas (que já o foram) os queijos e os enchidos;
Feira Mostra de Actividades Económicas - automóveis, tractores, maquinaria diversa, mobiliário, construção civil;
Feira Institucional - através da qual as instituições se aproximam das pessoas ou afirmam pretendê-lo.
Feira da Juventude (lembram-se?) com os seus espaços e sons próprios e alternativos.
E Feira da Música, dos espectáculos, do Jardim Público e da relva onde antes nos espojávamos na sensação da sua macia frescura. (Agora fecham o Jardim às 21 porque a relva não é para pisar)
Mas acima de tudo é (?) (foi?) a feira dos encontros, das gentes que se revisitam, o antídoto para as noites quentes de S. João.
Tenho pena, mas sinto que a Feira de S. João está a perder feeling.
Aliás, é um mal geral aqui na cidade de Giraldo.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O espojinho no divã



Por razões que nada acrescentariam para a razão, o espojinho tem-se remetido a um período de reflexão.
Talvez por causa do calor.
Talvez por estar apreensivo com os alertas - por causa do frio, do vento, da chuva, dos pólen(s), dos raio ultra violeta e agora, por causa do calor, dos raios de calor, do perigo de incêndios - talvez…
Talvez porque Portugal perdeu e o nosso cristianinho já é chamado de embuste na imprensa internacional.
Talvez porque cada vez menos suporte a cândida figura- por aqui dizemos fronha - dos que nos lixam, dos que apoiam os que nos lixam e os que dizem que é insustentável o que eles próprios criaram de insustentável.
Talvez porque o espojinho, porque é mesmo um espojinho e percorre diversos temas, diversas latitudes, passa por Évora, parte em viagem, enreda-se por vezes em melancólicas ternuras e em outras em insuportáveis azedumes, talvez, dizia, esteja a precisar de momentos de menor intensidade e de percorrer a planície com a calma que a «calma» impõe.
Talvez porque se interrogue sobre a importância da sua própria existência ou mesmo da razão para tal.
Talvez.
Talvez porque ele é mais uma razão para quem o escreve do que para quem o lê.
Talvez.
Veremos.

domingo, 27 de junho de 2010

Tanto ruído



Tanta vuvuzela, tanto futebol, tanto ruído, tanta crise,
Tanta insistência na velha, desgarrada, desbotada e insultuosa ideia da treta que consiste na tirada: Isto está mal, os nossos governantes não prestam… mas não há alternativa.
Então comam do mesmo mas não me venham depois falar de azias.
Eu por mim, de há muito que por aí não vou.
Aliás, nunca percorri tal caminho porque desde que me senti com forças para andar e me foi dada a possibilidade de subir ao monte (lembrando Manuel da Fonseca), sempre escolhi o caminho da esperança e sempre acreditei e acredito que está nas nossas mãos a possibilidade de um mundo justo e fraterno.
Porque hoje é domingo e a semana que findou foi difícil, muito difícil, este texto é… leve.
Coisas de domingo.