terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Homem bicho ou bicho homem?

Esta é uma dicotomia presente há muito.
Rousseaau dedicou-lhe especial atenção e tem em torno da mesma, pensamentos mundialmente difundidos, citados e em torno dos quais se travam ainda importantes reflexões académicas.
É o homem naturalmente bom e é a vida social que o corrompe e o torna num homem mau, ou é precisamente o contrario, ou seja, o homem nasce mau e a vida em sociedade vai torná-lo bom?
Numa fase de maior azedume seremos tentados em concluir que o homem é mau, é bicho de si mesmo, independentemente de procurar saber se é a natureza ou a sociedade que têm a primazia nesse processo.
E percorremos a memória e o presente e assim obtemos um infindável rol de atrocidades cometidas pelo homem. Conseguimos mesmo, num processo de simbiose pictórica, definir contornos, imaginar a figura do «bicho».
Noutros momentos, de maior doçura, vemos o lado bom de tantos homens e mulheres, no passado e no presente, fazendo das suas vidas exemplos estóicos de entrega aos valores mais nobres da condição humana.
Uma pessoa amiga, arremataria: «Há gente boa e gente má em todo o lado».
E é neste «enleio» que encontro de novo em Rousseau o pensamento que pode ajudar. Disse-nos que, e passo a citar: «É demasiado difícil pensar com nobreza quando pensamos apenas em ganhar a vida».
Talvez na constatação e na aceitação deste pensamento se encontrem as respostas que por vezes procuramos.
Talvez aqui se perceba o porquê. Talvez a explicação esteja na capacidade diferenciada que exista nos homens e que permite a uns a capacidade de superar as dificuldades (dignificando-os) e em outros a fraqueza e a submissão (escravizando-os).
Porque hoje estou «Roussiniano», cito de novo: «A força fez os primeiros escravos. A sua cobardia perpetuou-os».
Ao ver o que se passa hoje, em Portugal e em tantas outras partes do mundo, em que o cenário não será muito diferente, constatamos que muitas cobardias estão a escravizar-nos.
Serão os homens capazes, terão força suficiente para olhar o mundo com mais nobreza?
Terão os homens força bastante para evitar a escravidão com que nos aguilhotinam de novo?
Quero pensar que sim?
Mas às vezes parece que não.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A velocidade da paragem

Vivemos num tempo alucinante em que tudo corre ou parece correr à velocidade da luz.
Muito se tem dito e muito se tem mistificado sobre essa velocidade.
Genericamente afirmam-nos: o mundo mudou. Mas mudou mesmo?
E quais são as expressões dessa mudança?
Falamos de tecnologia, de avanços científicos? Então sim é verdade, o mundo mudou.
Mas não é permanente essa mudança? (Será necessário recordar Camões?).
Não mudou ele com a aprendizagem do uso do fogo? Com o trabalhar da pedra e depois dos minerais? Com a descoberta da roda? Do motor a vapor? Da electricidade? Dos computadores e da Internet?
Não se deslumbraram os homens com a ida à Lua e com as imagens televisivas?
Pois então, é adquirido, que a mudança é um processo em contínuo aperfeiçoamento, com diferentes níveis de aceleramento (ou da capacidade de percepção desse aceleramento) e com diferentes níveis de participação dos actores em cada momento.
Não nos deslumbremos pois com a velocidade, porque o seu efeito pode ser estonteante e dediquemos algum tempo a reflectir sobre a paragem a que tantos se submetem.
De que falam as pessoas com que nos cruzamos? De graças e desgraças que por vezes somos tentados em crer reais mas que não passam de enredos da telenovela da berra.
Falam de amores e traições e tomam partido. Falam comovidamente de crimes passionais.
Interessam-se até à exaustão sobre se as cinzas poderiam ou não ser largadas no respirador do metro.
Conhecem todas as formas de morangos com açúcar. Sabem quem namora com quem - não na sua rua porque isso já lhe escapa à observação.
Em troca de uns segundos de exposição expõem na televisão males e desgraças que nunca confessariam a um padre.
Gritam, vociferam, matam, esfolam, políticos, governantes, autarcas, mas no primeiro encontro beijam-lhe a mão e oferecem-lhe o seu voto.
Para aliviar a coisa e para não se moerem com a análise vão berrando que são todos iguais.
Querem matar e esfolar ciganos, pretos, brasileiros, ucranianos porque são todos uns criminosos (dizem eles - coitados) e comovem-se com as palavras meigas do famoso pedófilo, do banqueiro que arruinou o país e dos grandes senhores dos grandes desfalques.
Esta é a imagem da mudança de uma velocidade parada.
Ah e também dizem (muitos que ganham 300€ de reforma)… isto sim é um grande homem, prescindiu do salário ( de 5600€) - coisa a que estava obrigado por lei e fica só a ganhar
as reformaszinhas (10 000€) mensais.
Grande homem de facto.
E tanto homem que já perdeu a grandeza da condição.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Branco, menos branco, não há

Antes do que aqui me traz, mais um apontamento: Os juros da dívida pública continuam a subir (Cfr Diário Económico de hoje - edição electrónica).
Mas isto não seria o que aconteceria se houvesse uma 2ª volta?

Agora então o tema a que me proponho:

Por enquanto, o direito de voto, (e consequentemente ao não voto) e salvo estúpidas excepções de origem tecnológica (dizem) é garantido, universalmente, a todos os cidadãos maiores de 18 anos.
É um direito e é uma conquista obtida com a luta corajosa de muitos.
E é um direito que, crescentemente, muitos optam por não usar.
Não tenho qualquer dúvida em aceitar como legítimo o direito ao não voto. Outra coisa é concordar com as razões, o que não faço.
Prescindir de usar o direito ao voto é, em minha opinião uma forma de desrespeitar a luta de tantos e em tão penosas condições para a que ele fosse consagrado, assim como representa o assumir da nossa negação, da nossa derrota e anulação enquanto cidadãos.
Julgo-me pois com o direito de criticar todos aqueles que tomaram essa opção.
São livres de não votar, pois são, mas eu também sou livre para dizer que assim não vale.
Dirão alguns agora: com o meu voto é que ele não foi eleito.
Puro engano. Pois ele foi eleito precisamente com o voto dos que não votaram.

Mas, tão grave como a abstenção e com expressão significativamente diferente é o que se passa com os votos brancos e nulos.
Estes, não contam. Mas são votos.
Representam uma corrente de opinião (de novo, uma opinião discutível) que o sistema pura e simplesmente ignora.
E ignora de tal forma que ele foi eleito com base nessa ignorância (e outras).
Se os 191 167 votos brancos + os 86 545 fossem considerados (o que parece legítimo) neste momento estaríamos em plena campanha para 2ª volta das eleições presidenciais a disputar entre ele e Manuel Alegre.
Estamos a falar da opinião de mais de 6% dos eleitores que pura e simplesmente foi anulada.
Por isso, branco, menos branco não há.
Por isso, ele é o Presidente da República Portuguesa, mas por favor deixe-se de hipocrisias porque não é o presidente de todos os portugueses, está isso sim constitucionalmente obrigado a ser presidente para todos os portugueses.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ele, os outros e nós

Ele disse, ameaçou , aterrorizou: Se houver segunda volta (do referendo presidencial) os mercados vão reagir e os juros da dívida pública vão subir.
Resolveu à primeira (por falta de comparência) o referendo presidencial e…
Os juros da dívida pública…aumentaram esta segunda-feira.
Este é só o primeiro apontamento, passadas que são poucas horas da sua coroação.
O segundo apontamento, é uma dúvida: Os que votaram no candidato vencedor, porque não festejaram?
Já estão envergonhados?
Ou tomaram tardiamente consciência que não há motivos para festa quando o que se anuncia é um cenário negro para a democracia?
E nós, uns, de entre nós, continuarão com profundas análises teóricas sobre razões e outros vão ter que continuar aquilo que é bandeira da sua vida:
Lutar, porque a luta continua.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Vai continuar a cheirar a mofo por aqui

Mas se fosse só o cheiro…

O problema é que os nossos problemas se vão agravar.

Assim decidiram, menos de metade dos portugueses.
E, aproximadamente metade destes, são os responsáveis por esse continuar do agravamento dos problemas.
Espero que saibam assumir as suas responsabilidades.

Eu estou bem.
Com a minha consciência.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Abram uma janela

O cheiro a mofo é aqui insuportável


Aí estão.
Vigorosas, viçosas, engenhosas e manhosas.
Confiantes na força da carga mediática de vender um vencedor, aí está ele a ser «vendido».
Mas por muito que nos custe, a verdade é que muitos (mas muitos mesmo) alienados, já são incapazes de discernir e formar opinião que não seja a de dar o seu voto ao vencedor.
Como se de uma corrida de cavalos se tratasse:: «Aposta no x porque o x é que vai ganhar».
E se lhes dizem que Cavaco é que vai ganhar…

Quanto custa a democracia?
É repugnante o uso e abuso de pseudo conceitos económicos como forma de limitar ou eliminar mesmo o pleno funcionamento democrático.
São useiros a contabilizar custos do funcionamento dos partidos, custos com eleições, custos com o funcionamento da Assembleia.
Sabemos que preferiam custos com o pagamento aos bufos, custos com o funcionamento dos serviços de espionagem aos cidadãos, custos com o funcionamento das policias políticas, com as prisões, com as deportações, custos com o funcionamento das organizações do regime tipo palhaçada de mocidades e legiões.
Nós sabemos que eles preferiam esses custos.
O que é ainda mais repugnante é ver que há quem o defenda e viva à custa dos custos com a democracia.

Pobres coitados ou grandes safados
Vidas miseráveis. Noite e dia atrás do rabo de meia dúzia de vacas. Caldos de couve e toucinho rançoso a todas as refeições. Frios de rachar ossos.
Missa para descansar.
E viver sempre de joelhos.
E agora…votar senhor cavaco pois claro.

Abram uma janela
Cheira aqui a mofo que tresanda. Hoje João Gobern falava de democracia vegetativa e Boaventura Sousa Santos vem-nos alertando para o fascismo social.
Não sei qual a designação mais adequada.
Só sei é que está irrespirável.
Que é urgente abrir uma janela.
E pelo esforço, pela emoção e dedicação, pela vontade de contribuir para abrir essa janela, deixo aqui o público obrigado ao PCP e à candidatura de Francisco Lopes.
No domingo podemos abrir essa janela.
Está nas nossas mãos.
Nas mãos dos que não ajoelham.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Em bicos de pé

Normalmente, o pôr em bicos de pé, ou pretende constituir-se como disfarce para uma pequenez que não se quer assumir (diz-se de Sarkozy) ou para procurar reduzir ao mínimo o ruído do andar.
A propósito de algumas pretensas sondagens (poucas), vemos agora alguns candidatos nesta posição, pelo que é legítimo supor uma das duas coisas: ou disfarce de pequenez (no caso, moral) ou tentativa de anular ruídos que os possam denunciar.
Não sou dos que comungo de grande confiança no saber do uso do voto pelos portugueses no próximo dia 23. A história recente está recheada de indicadores que me reforçam essa não confiança.
Uso mesmo de alguma apreensão sobre esse «saber» o que é bem visível no “post” anterior, mas independentemente do uso que possa ser feito , é prudente algum discernimento, chamemos-lhe acautelativo…
Até porque alguma coisa se está a passar no reino das sondagens… há algo que parece inquietar os seus usuários militantes.
Não gostarão do que pressentiram?
Estarão a guardar-se para a recta final?
Veremos.
Eu vou fazer uso do meu discernimento acautelativo…
Sei que alguns cantam já vitória.
Pois que cantem.
Desde que não tenham razões para o fazer no final do próximo domingo…

Nota de Roda Pé - Só por mera curiosidade, gostaria de saber quais os fundamentos técnicos e os respectivos enquadramentos teóricos que levam certos «especialistas» a tratarem a indecisão dos que pretendem inquirir como uma expressão de abstenção. Para mim, técnicamente, uma abstenção, é uma expressão de opção e não uma indecisão, sendo certo que essa indecisão pode conduzir à abstenção - mas como opção e não como consequência directa.