segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Que bem que nos fica

Os meus filhos continuam sem emprego.
Vão arranjando uns biscates, antes ao mês, agora ao dia e amanhã à hora.
Uma prima, tem que vir à cidade fazer tratamentos.
Antes tinha o transporte pago.
Agora pague-o do seu bolso.
Um amigo foi internado de urgência.
Ao terceiro dia a factura de taxas moderadoras já estava bem pouco moderada.
A gasolina só sobe no preço…
Porque no depósito baixa.
O IVA leva-nos o que já não tínhamos.
O meu salário foi cortado em quase 80 euros mensais.
As promoções ou progressões nas carreiras passaram a miragem.
Agora que até já somos avaliados…
Cortam nas prestações sociais.
Acabam com o abono de família.
Desumanizam ainda mais as pensões.
Mas.
Temos que condescender.
Afinal no Governo está o PS.
Um Partido de Esquerda.
E assim sendo.
Compreendemos que Vitalino o Canas
Escandalizado afirme: «O PCP sempre se disponibilizou para tentar derrubar Governos PS».
É mesmo uma coisa de puro sectarismo não é?
O PCP querer derrubar um Governo destes!!!
Sinceramente.
Fica-nos tão bem esta sensação de sabermos que somos lixados por um Governo que é do PS e que este se afirma de esquerda.
Fica-nos mesmo bem.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ai o poder, o poder…

Todo o poder emana do povo, dizem e determinam vários textos constitucionais. Este principio concentra em si, a própria génese da democracia (poder do povo).
Se abordarmos o conceito exclusivamente na perspectiva democrática «clássica» verificamos que acedem ao poder o indivíduo ou os indivíduos, integrados em organizações ou meramente a título individual, que são merecedores da confiança expressa (normalmente através do voto) dos seus pares.
Noutras situações, em que não é menos legítima a origem, o poder advêm da confiança expressa nas ruas, aos líderes que se destacam em processos revolucionários de tomada do «poder».
A Revolução Portuguesa é disso um bom exemplo.
Independentemente de algumas excepções e aceitando que ele não se cinge ao «clássico campo democrático» ocidentalizado, é correcto considerar como geral esse principio: todo o poder provêm do povo.
Mais difícil é encontrar a mesma aceitação teórica para os processos pós emanação.
Depois de transmitido pelo povo, o poder, a forma do seu exercício , o tempo do seu uso e os fins que lhe dão, origina as mais variadas e complexas situações.
Não poucas vezes a história nos mostrou que no exercício dos poderes emanados pelo povo, este vê os seus direitos postos em causa e mesmo violentamente sonegados.
Em outros casos, pessoas e organizações, com importantes participações em processos de regulação do exercício da emanação do poder, acabam por, aceitando-o, o usar como coisa sua.
É voz corrente dizer-se que todo o poder corrompe. A ser assim e assim o parece, conforme for a sua natureza assim será o efeito.
Estas notas que já vão longas , surgiram da abordagem às situações de que vamos tomando conhecimento, com destaque para a Tunísia e para o Egipto.
O povo está na rua para exigir o retorno do poder das mãos a quem o entregou e que dele se apoderou como coisa sua.
Que fez dele instrumento de opressão. Que com o seu uso, causou carências e misérias à generalidade do povo .
E está difícil essa recuperação.
Os ditadores não largam facilmente os seus privilégios.
Chegam mesmo a ser patéticas (não fora o caso de serem trágicas) as formas como se agarram.
«Eu prometo não voltar a candidatar-me» Diz um, em estado de completo desespero.
Candidatar-se?
O povo está na rua a dizer para ele se ir.
E, neste processo de reaver o que é seu, na Tunísia e no Egipto, centenas de pessoas já perderam as vidas.
Quantos já terão morrido hoje?
Que estas lutas e as tragédias a elas associadas possam ao menos contribuir para que o povo (os povos de todo o mundo) aprendam a fazer melhor uso na concessão do poder e principalmente uma mais apertada e eficaz fiscalização do uso que dele passe a ser feito.
Mas que no imediato, tragam finalmente a paz e o bem estar para os povos em luta.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Homem bicho ou bicho homem?

Esta é uma dicotomia presente há muito.
Rousseaau dedicou-lhe especial atenção e tem em torno da mesma, pensamentos mundialmente difundidos, citados e em torno dos quais se travam ainda importantes reflexões académicas.
É o homem naturalmente bom e é a vida social que o corrompe e o torna num homem mau, ou é precisamente o contrario, ou seja, o homem nasce mau e a vida em sociedade vai torná-lo bom?
Numa fase de maior azedume seremos tentados em concluir que o homem é mau, é bicho de si mesmo, independentemente de procurar saber se é a natureza ou a sociedade que têm a primazia nesse processo.
E percorremos a memória e o presente e assim obtemos um infindável rol de atrocidades cometidas pelo homem. Conseguimos mesmo, num processo de simbiose pictórica, definir contornos, imaginar a figura do «bicho».
Noutros momentos, de maior doçura, vemos o lado bom de tantos homens e mulheres, no passado e no presente, fazendo das suas vidas exemplos estóicos de entrega aos valores mais nobres da condição humana.
Uma pessoa amiga, arremataria: «Há gente boa e gente má em todo o lado».
E é neste «enleio» que encontro de novo em Rousseau o pensamento que pode ajudar. Disse-nos que, e passo a citar: «É demasiado difícil pensar com nobreza quando pensamos apenas em ganhar a vida».
Talvez na constatação e na aceitação deste pensamento se encontrem as respostas que por vezes procuramos.
Talvez aqui se perceba o porquê. Talvez a explicação esteja na capacidade diferenciada que exista nos homens e que permite a uns a capacidade de superar as dificuldades (dignificando-os) e em outros a fraqueza e a submissão (escravizando-os).
Porque hoje estou «Roussiniano», cito de novo: «A força fez os primeiros escravos. A sua cobardia perpetuou-os».
Ao ver o que se passa hoje, em Portugal e em tantas outras partes do mundo, em que o cenário não será muito diferente, constatamos que muitas cobardias estão a escravizar-nos.
Serão os homens capazes, terão força suficiente para olhar o mundo com mais nobreza?
Terão os homens força bastante para evitar a escravidão com que nos aguilhotinam de novo?
Quero pensar que sim?
Mas às vezes parece que não.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A velocidade da paragem

Vivemos num tempo alucinante em que tudo corre ou parece correr à velocidade da luz.
Muito se tem dito e muito se tem mistificado sobre essa velocidade.
Genericamente afirmam-nos: o mundo mudou. Mas mudou mesmo?
E quais são as expressões dessa mudança?
Falamos de tecnologia, de avanços científicos? Então sim é verdade, o mundo mudou.
Mas não é permanente essa mudança? (Será necessário recordar Camões?).
Não mudou ele com a aprendizagem do uso do fogo? Com o trabalhar da pedra e depois dos minerais? Com a descoberta da roda? Do motor a vapor? Da electricidade? Dos computadores e da Internet?
Não se deslumbraram os homens com a ida à Lua e com as imagens televisivas?
Pois então, é adquirido, que a mudança é um processo em contínuo aperfeiçoamento, com diferentes níveis de aceleramento (ou da capacidade de percepção desse aceleramento) e com diferentes níveis de participação dos actores em cada momento.
Não nos deslumbremos pois com a velocidade, porque o seu efeito pode ser estonteante e dediquemos algum tempo a reflectir sobre a paragem a que tantos se submetem.
De que falam as pessoas com que nos cruzamos? De graças e desgraças que por vezes somos tentados em crer reais mas que não passam de enredos da telenovela da berra.
Falam de amores e traições e tomam partido. Falam comovidamente de crimes passionais.
Interessam-se até à exaustão sobre se as cinzas poderiam ou não ser largadas no respirador do metro.
Conhecem todas as formas de morangos com açúcar. Sabem quem namora com quem - não na sua rua porque isso já lhe escapa à observação.
Em troca de uns segundos de exposição expõem na televisão males e desgraças que nunca confessariam a um padre.
Gritam, vociferam, matam, esfolam, políticos, governantes, autarcas, mas no primeiro encontro beijam-lhe a mão e oferecem-lhe o seu voto.
Para aliviar a coisa e para não se moerem com a análise vão berrando que são todos iguais.
Querem matar e esfolar ciganos, pretos, brasileiros, ucranianos porque são todos uns criminosos (dizem eles - coitados) e comovem-se com as palavras meigas do famoso pedófilo, do banqueiro que arruinou o país e dos grandes senhores dos grandes desfalques.
Esta é a imagem da mudança de uma velocidade parada.
Ah e também dizem (muitos que ganham 300€ de reforma)… isto sim é um grande homem, prescindiu do salário ( de 5600€) - coisa a que estava obrigado por lei e fica só a ganhar
as reformaszinhas (10 000€) mensais.
Grande homem de facto.
E tanto homem que já perdeu a grandeza da condição.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Branco, menos branco, não há

Antes do que aqui me traz, mais um apontamento: Os juros da dívida pública continuam a subir (Cfr Diário Económico de hoje - edição electrónica).
Mas isto não seria o que aconteceria se houvesse uma 2ª volta?

Agora então o tema a que me proponho:

Por enquanto, o direito de voto, (e consequentemente ao não voto) e salvo estúpidas excepções de origem tecnológica (dizem) é garantido, universalmente, a todos os cidadãos maiores de 18 anos.
É um direito e é uma conquista obtida com a luta corajosa de muitos.
E é um direito que, crescentemente, muitos optam por não usar.
Não tenho qualquer dúvida em aceitar como legítimo o direito ao não voto. Outra coisa é concordar com as razões, o que não faço.
Prescindir de usar o direito ao voto é, em minha opinião uma forma de desrespeitar a luta de tantos e em tão penosas condições para a que ele fosse consagrado, assim como representa o assumir da nossa negação, da nossa derrota e anulação enquanto cidadãos.
Julgo-me pois com o direito de criticar todos aqueles que tomaram essa opção.
São livres de não votar, pois são, mas eu também sou livre para dizer que assim não vale.
Dirão alguns agora: com o meu voto é que ele não foi eleito.
Puro engano. Pois ele foi eleito precisamente com o voto dos que não votaram.

Mas, tão grave como a abstenção e com expressão significativamente diferente é o que se passa com os votos brancos e nulos.
Estes, não contam. Mas são votos.
Representam uma corrente de opinião (de novo, uma opinião discutível) que o sistema pura e simplesmente ignora.
E ignora de tal forma que ele foi eleito com base nessa ignorância (e outras).
Se os 191 167 votos brancos + os 86 545 fossem considerados (o que parece legítimo) neste momento estaríamos em plena campanha para 2ª volta das eleições presidenciais a disputar entre ele e Manuel Alegre.
Estamos a falar da opinião de mais de 6% dos eleitores que pura e simplesmente foi anulada.
Por isso, branco, menos branco não há.
Por isso, ele é o Presidente da República Portuguesa, mas por favor deixe-se de hipocrisias porque não é o presidente de todos os portugueses, está isso sim constitucionalmente obrigado a ser presidente para todos os portugueses.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ele, os outros e nós

Ele disse, ameaçou , aterrorizou: Se houver segunda volta (do referendo presidencial) os mercados vão reagir e os juros da dívida pública vão subir.
Resolveu à primeira (por falta de comparência) o referendo presidencial e…
Os juros da dívida pública…aumentaram esta segunda-feira.
Este é só o primeiro apontamento, passadas que são poucas horas da sua coroação.
O segundo apontamento, é uma dúvida: Os que votaram no candidato vencedor, porque não festejaram?
Já estão envergonhados?
Ou tomaram tardiamente consciência que não há motivos para festa quando o que se anuncia é um cenário negro para a democracia?
E nós, uns, de entre nós, continuarão com profundas análises teóricas sobre razões e outros vão ter que continuar aquilo que é bandeira da sua vida:
Lutar, porque a luta continua.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Vai continuar a cheirar a mofo por aqui

Mas se fosse só o cheiro…

O problema é que os nossos problemas se vão agravar.

Assim decidiram, menos de metade dos portugueses.
E, aproximadamente metade destes, são os responsáveis por esse continuar do agravamento dos problemas.
Espero que saibam assumir as suas responsabilidades.

Eu estou bem.
Com a minha consciência.