sexta-feira, 13 de maio de 2011

IMPORTARÁ?

Porque se calam?

Porque se calam os órgãos de comunicação social, os fazedores de opinião e os pensadores ditos livres que costumam perorar sobre direitos humanos?

Porque nada - ou muito pouco - dizem sobre as tragédias que diariamente ocorrem aqui neste mar que sempre considerámos «mar nostrun»?

Quantos homens, mulheres e crianças já morreram na fuga a Tripoli, bombardeada pela NATO em consequência dos jogos de estratégia das grandes potências?

No post anterior afirmei terem sido lançados ao mar os corpos de 11 seres humanos que morreram por fome e sede num barco a quem foi recusado o devido socorro. Não foram 11. Foram 64.
Alguém já foi indiciado pelo crime de recusa de socorro?

Porque nos parece que os direitos humanos são cada vez mais, não isso, mas sim, estandartes de propaganda?

E nós?

Arrastamo-nos em dolorosas peregrinações e prostramo-nos perante as bentas imagens de santos e santas, também eles usados no trágico xadrez onde se jogam as nossas vidas. E onde se destinam as mortes de tantos..

Do Paquistão chegam imagens de mais morte. 80, dizem-nos as primeiras informações. Importará quantos são?

Quantos filhos não poderão hoje abraçar os pais? Quantos pais estarão a chorar os seus filhos?
Importará?

O que é que nos importa?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Vemos, ouvimos e muitos calam

Vemos, ouvimos e muitos calam

Parece que muitos, muitos mesmo, perderam a capacidade de se indignarem.
Retiram direitos, humilham, abusam e gozam-nos.
E muitos calam .
Gastam sem escrúpulos recursos que só foram postos à sua disposição para gestão e não há quem lhes peça contas.
Alguns desses sumptuosos gastos, não só são actos imorais, como constituem crime de abuso de poder e ninguém responde por esses actos.
Dois acontecimentos distintos reforçam este comentário:
Aqui, nesta pacata cidade onde vivo, dei por mim a observar, preocupado, a profusão de bmw, audis e mercedes estacionados em cima do passeio junto da CCDRA.
Junto de cada um dos bólides estavam os respectivos motoristas, fardados a rigor. Alguns deles tinham fardas militares ou de forças de segurança.
Para fazer o trajecto, que faço a pé e para o efeito é normal usar o passeio, tive que sair deste e usar a faixa de rodagem.
Como eu, outros foram forçados ao mesmo.
E calam-se. De tão anormal esta anormalidade, acham até mesmo que é normal.
Suas excelências que deduzo seriam directores regionais de diversas coisas, representantes locais dos poderes diversos, porventura arcebispos e bispos, presidentes de algumas câmaras, não podem conduzir as suas próprias viaturas e também não podem deslocar-se até ao parque de estacionamento que estava vazio a 20 metros do local.
Eles podem estacionar em cima dos passeios, desfrutar de benesses absurdas. Eu tenho que levar cortes no salário, aumentos de irs e ter a carreira congelada.
Muitos calam. Eu, enquanto puder, NÃO.
Um dos outros acontecimentos que me indignaram, tomei dele conhecimento quase à socapa: um barco com 72 homens, mulheres e crianças, fugindo de Tripoli fez-se ao mar numa barcaça (como tantos outros pobres desgraçados à procura de uma possibilidade de viver). Acabado o gasóleo, ficaram à deriva no mar alto. Pediram ajuda e comunicaram com um navio militar e com um helicóptero da Nato e com a Guarda Costeira de Itália. Demasiado ocupados em descarregar bombas de democracia sobre Tripoli, criminosamente ignoraram os apelos e pedidos de socorro.
11 dos 72 homens, mulheres e crianças, morreram à fome e à sede.
Andaram assim, durante 16 dias. Lançando em cada dia ao mar os corpos dos que não haviam resistido.
Corpos de homens, mulheres e crianças. Tão humanos como nós.
E os «democrata»» continuaram ciosamente a lançar bombas sobre Tripoli.
Muitos calam. Eu, enquanto puder, NÃO.

Há sessenta e seis anos a Europa procurava erguer-se por entre os escombros e começar de novo a paz.(De novo tantos a quererem que a gente esqueça)
A barbárie nazi chegava ao fim e em Berlim erguiam-se bandeiras de esperança.
Calculo - só posso mesmo calcular - a imensa alegria dos sobreviventes.

Que haja um dia, em breve, a mesma alegria.
Para todos os povos do mundo.

Porque ainda há quem não se cale. Tal como eu.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

TROIKAS

Uma troika nacional, a que uns chamam «eixo da governação»» e que tem de facto estado nos governos nos últimos trinta anos, prepara-se agora, de novo, para se apresentar aos Portugueses como solução e ainda por cima como solução «patriótica» - o país precisa da «aliança de todos» clamam empresários, presidentes (actuais e ex), cardeais, doutores de tudo e vassalos de sempre.
Esta troika - que designei de nacional só por força do local de registo da patente - é constituída (formalmente) pelo PS, PSD e CDS e informalmente por todos os que se sentem confortáveis e bem retribuídos em resultado das políticas e acções que ela desenvolve.
São os responsáveis e apresentam-se como solução.

Uma outra troika, internacional, assentou por aqui praça e munidos da autoridade que lhes advém do facto de serem os «patrões»» da outra troika - a de patente nacional - determinam das nossas vidas, como não determinam sobre as suas vidas privadas. Vende-se isto, privatiza-se aquilo, aumentam-se os impostos, cortam-se os salários e as pensões, banalizam-se os despedimentos, determinam o valor do empréstimo, o valor das taxas de juro, o prazo de pagamento e os destinatários do dinheiro assim emprestado - ou seja, regressa à barriga dos mesmos.

E perante estas, uma outra se forma. E com a formação desta, assegura-se a perpetuação do domínio das outras. E nesta troika associam-se o medo, a alienação e a impotência.
As vítimas preparam-se para ajoelhar.
Uns, deixam-se levar pela candura de ex qualquer coisas que candidamente imploram «agora não é tempo de apurar responsabilidades» e por outros ex qualquer coisas - trânsfugas de toda a espécie que cresceram nos partidos e que agora mordem nas mãos dos que os empurraram para onde estão e que em suma só pretendem: deixem-se ficar quietinhos, porque senão é pior…
E a vítima nem se interroga: porque carga de águas é levado a aceitar como menos mau o que só é a continuação de todo o mal que lhe têm feito.
E prepara-se para juntar o seu voto ao voto do seu carrasco.
E provavelmente virá para a rua dar vivas à morte dos seus direitos.

E há ainda uma outra troika. Formada pelos que nunca aceitaram, sempre denunciaram e que fazem da luta o caminho possível para a mudança.
Que amam o país, a liberdade e a dignidade.
Que não ajoelharam, não ajoelham e não ajoelharão.

Que troika vencerá a 5 de Junho?

domingo, 1 de maio de 2011

Viva o 1.ºde Maio

Maio começou chuvoso.
Uma chuva miudinha, teimosa.
Mas resolvemos não ligar.
E fizémos bem.
E uma juventude irrequieta, talentosa, trouxe-nos o Maio da Luta.
E foram bonitos os reencontros.
Há muito que não víamos por aqui, a fraternidade tão solta.
E encheu-se com a dança graciosa o espaço.
E reentoámos Fausto, Sérgio Godinho, Zeca.
E cruzámos olhares cúmplices.
Abraços sentidos e largos.
E o desejo de um grande beijo.
E pusémos os olhos no futuro, em Junho, futuro imediato.
Que faremos?

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Patetices e marias que vão com as outras

Estou convictamente convencido (não sei mesmo se não deveria acentuar o grau) que o conjunto de cinzentões que governa o país e a europa, julga que por aqui, somos todos um grupo de patetas.
Ou em alternativa (solução para que me inclino mais) os patetas são o grupo de cinzentões e nós, apenas uma imensa mole de marias que vão com as outras.
As conversadas (longas e entediantes) sobre os mercados e a forma como procuraram explicar a gula e a especulação desenfreada destes, é só um dos sintomas da patetice.
Nervosos, agitados, perturbados, por causa da chuva, por causa do sol, por causa das inundações, por causa dos fogos, porque corriam rumores que os príncipes não casavam, ou que casavam na coxixina, tudo foi aduzido.
Só não compreendo é como, numa situação tão prolongada de «nervosismos» os ditos cujos não foram levados a uma loucurazinha. Sei lá…
E ninguém pergunta quem são? De onde vêem e de onde vem o dinheiro?
E ninguém pergunta o destino da usura?
Convenhamos que para anti depressivos é uma verba já muito alta…
E também ninguém pergunta, porque carga de águas temos que estar nas mãos destes nervosos mercados?
Devemos biliões???
Quem os pediu emprestados em nosso nome?
Onde os gastou?
Perguntaram-nos alguma coisa?
Agora encenam outro jogo.
Todos os dias atiram barro à parede para verem qual cola melhor.
Como a toque de uma batuta, cadenciadamente, bombásticamente, vão «anunciando» as medidas que a «troika» se prepara para impor.
A par dessa preparação, preparam o acompanhamento. Que consiste em afirmar que é inevitável viver pior.
Que é inevitável viver de cabeça baixa.
Que é inevitável levar uns tautauzinhos (quais meninos mal comportados) de tudo o que se julga impante nesta europa.
E que é inevitável «unir» o gato da vizinha, o doberman vadio, o peixe do aquário, o elefante e a formiga, o rato e o saca rabos e tudo no mesmo saco.
E o senhor presidente dá-lhe a ênfase de estado. É preciso que o próximo governo tenha o apoio maioritário do Parlamento, diz.
Claro. Se não, não é possível termos governo não é verdade?
Que saibamos, o governo tem que submeter e ver aprovado o seu programa na AR, não é verdade?
Ou já não é verdade porque a «troika» assim o determinou?

Ontem vi «48» um filme / documentário impressionante.
Só espero que as marias vão com os outros não sejam cúmplices de um regresso a um tempo, tão triste, tão cinzento e tão violento como aquele que é ali tratado.
Se quisermos, somos capazes.
Ou então (se surtir mais efeito) e remoendo-me:
We can.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Não há outro caminho

Agora, depois do tempo de todas as misturas, avançamos para o 1.º de Maio com a confiança de quem sabe que afrouxar não é solução e com a apreensão que resulta desta ampla orquestração contra os direitos de quem trabalha.
A Páscoa é por aqui , só por si, tradicionalmente, um período de confluência de padrões religiosamente distintos e mesclados com hábitos pagãos.
Não se comemora de igual forma em Évora e em Castelo de Vide, por exemplo.
Em muitos locais desta pátria grande (O Alentejo), a Festa é a segunda-feira, o dia de ir para o campo comer o borrego.
A Páscoa (dor e lamento), cinge-se ao interior dos Templos.
A Festa ganha o colorido dos campos.
Quis o calendário que à «Festa» se juntasse este ano a Festa da Liberdade.
E foi com toda esta mescla que comemorámos.
Com cravos de liberdade nascidos em campos de tradição.
Este ano menos viçosos por causa das preocupações…
Mas eis Maio.
Já aí está à nossa espera.
À espera das cores vivas com que vamos enfeitar a luta.
Não há outro caminho.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Irra.

Experimentei todas as formas.
A sério e de semblante carregado, de forma aligeirada, por vezes ironicamente (no que não é de certeza o meu campo favorito), optei por deixar andar, omiti, mudei de assunto vezes sem conta, mas nenhuma destas estratégias resultou.
O problema subsiste.
Ganhou hoje de novo honras de 1ª página.
«Os mercados continuam muito nervosos».
As taxas de juro atingiram novo recorde.
Depois do novo recorde ontem obtido.
E os jornalistas nada mais têm a escolher para título do que a expressão já useira e referente ao equilíbrio emocional e psíquico dos ditos mercados: «Os mercados continuam nervosos».
E nada parece acalmá-los.
E não há um. Um que seja. Que titule: « A usura continua».
Ou:
«Continua o roubo descarado».
E a par dele, desse frenesim de loucura, finlandeses, turcos, marroquinos, alemães, luxemburgueses, franceses e todos os restantes fregueses, vão ditando postas de pescada:
Os portugueses têm de …
É preciso que os portugueses aprendam a…
Vão ter que ter juízo.
Oposição e oposição à oposição têm que se unir…
Vão ter que aprender a poupar.
Vão ter que aprender a viver sem comer (e nós que estamos avisados sobre o burro do espanhol)…
E os portugueses…
Que têm na mão uma oportunidade soberana de os mandar comer um cão…
Preparam-se para engolir toda esta cachorrada…
Irra.