domingo, 6 de maio de 2012

VIVE LA FRANCE

 

Não precisas de me avisar, camarada.
Sei, sabemos…todos sabemos.
Dali não há que esperar grandes coisas.
A mudança de que falam, resumir-se-á, à mudança de cenários e que o que há a mudar, não mudará.
Sabemos.
Assim foi e assim é de supor que será.
Por enquanto.
Mas…
Nem esses avisos de impedem de a esta hora sorrir…e quase ser tentado a ceder à vontade de comemorar..
Podem só ter mudado o sitio dos móveis… mas mudaram-nos.
Já se tornava insuportável este aglomerar de cotão, este mofo irrespirável.
Agora Sarkozy já foi.
Merkel voltou a levar tareia…
Sobre a Grécia nem piam, estão a procurar ainda  procurar perceber o que aconteceu.
Houve um espojinho por aqui.
A  Europa parece mexer.
Vive la France
Viva a Europa.

Engraçado.
Hoje senti-me, por estranho que me pareça, europeu.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

DESCONTO TOTAL

 

Em tudo tão iguais…

Tão preocupantemente iguais…


Todos conhecemos situações semelhantes, quando outros (parecidos ou iguais), confrontados com os seus atos  e incapazes (por cobardia) de os assumirem, invocaram desconhecimento.
A história está tristemente recheada de tais episódios.
Agora, perante este vil ato de revanchismo e de puro ataque aos direitos dos trabalhadores, temendo o engrossar da repulsa, os responsáveis por tal, procuram lavar mãos.
Diz o sonso - aquele que não consegue encontrar talhantes - que não sabia da «campanha».
Pois…
E talvez também não fique a saber, mas eu digo, sabendo de antemão que tal não lhe tirará o sono, que comigo não contará mais como cliente.
E não vai perder o sono porque de dentro da sua opulência barriguda  e sob a sua caquéctica arrogância não vai nunca compreender o prazer que me dá poder decidir não pôr  mais os pés nas vossas lojecas.
Mas é um prazer enorme.
E prazer maior teria, se este meu prazer se transformasse no prazer de muitos.
Mas como o senhor que não consegue encontrar talhantes, não consegue compreender… olhe: dou-lhe um …desconto…total.

Para as suas vitimas:
Aqueles que se acotovelaram, empurraram, ofenderam para chegarem à última garrafa de óleo;
Os que, desesperadamente, precisam mesmo de aproveitar;
Os que, gananciosamente, estão sempre ávidos por borlas;
Os que , obrigatoriamente, tiveram que aturar.
Para todas estas e outras, por entre uma palavra de solidariedade para algumas, um aviso para todos:

Todos sabemos que,  quanto mais nos agachamos,  mais..

terça-feira, 1 de maio de 2012

Retrato da minha cidade no 1.º de Maio

 

Um som de fundo preenche as ruas.

O vento de sul, que arrasta consigo nuvens negras, traz também esporádicas e grossas pingas.

À mistura, arrasta o som das vendedeiras de cuecas, peúgas, atoalhados e outros bens.

No Rossio há mercado. E gente.

E nós percorremos as ruas, quase desertas.

Apesar de tudo, o comercio tradicional, quase todo, fechou portas.

Apesar disso,  encontrarmos, aqui e ali, alguns comércios abertos.

As lojas dos chineses, essas lá estão,(religiosamente – coisa estranha de dizer) à espera de nós.

Encontramos amigos que nos dizem haver enchentes nas grandes superfícies da periferia.

Nada que não tivéssemos previsto.

Na melhor estratégia Goebelsiana haviam anunciado descontos soberbos.

Canalhas.

Fascistas.

E as gentes miseráveis da minha cidade acorreram como feras esfomeadas...

Venderam-se por meio prato de lentilhas.

 

Mas nós fomos para o desfile... para a luta.

Nem um café comprámos.

Quantos éramos???

Perante o desalento, alguém me lembra os ditos de um homem simples:

«Há pobres desgraçados, que são pobres em tudo!…».

 

Lamento, mas hoje estou muito desanimado.

Só me confortam as palavras cantadas de Sergio Godinho:

...não é por mim que eu me queixo....

Quem me lê, sabe o resto.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Falta cumprir Abril

043

Dou por mim a pensar se estes figurões que se pavoneiam como senhores do país pensarão mesmo assim, ou seja, se se julgarão senhores do país.
Para mim não são mais que um mero (mas triste e grave) acidente de percurso.
E por força desse acidente, coube-lhes por voto e por negociata  posterior, o direito a governar.
Por quatro anos, mas de acordo com a Constituição e as regras própria de um regime democrático.
Ao ouvi-los (e muito mais ao sofrer os efeitos das suas medidas) ficamos com a sensação que por aqui não há Constituição, não há regras democráticas a respeitar e não há um tempo para um mandato.
A qualquer hora e qualquer um deles abre a boca, suspende, retira, ameaça.
Passámos a ser um país suspenso.
Suspendemos o TGV.
O Aeroporto.
O direito ao Trabalho.
O direito à saúde e à segurança social. O direito à remuneração.
Suspendemos a justiça.
Cumpriu-se a profecia da senhora velha (ou deverei dizer velha senhora?) que consistia em suspender a democracia.
Falam com uma arrogância e um desprezo que julgo que poucos julgariam possível. O chefe, incomodado com uma ameaçazinha de menino apanhado a fazer diabruras (o senhor velho da UGT), afirma com desdém: «Só pode ser brincadeira de 1.º de Maio».
Pois não sabe, mas vai ficar a saber que o 1.º de Maio não é dado a brincadeiras. O chefe (deles) está enganado no calendário e julgo que no país.
Aqui, sabemos, falta cumprir Abril
Mas mesmo com as graves consequências resultantes de acidentes de percurso, vamos cumpri-lo.

Viva o 25 de Abril

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Ai, como vieram tarde…

 

Não porque tenham peso na consciência - não lhes pode pesar o que não têm - mas porque lhes convém  contribuir para atenuar a brutalidade das medidas que tomam - fazem pulular por aí campanhas de diversas tonalidades e sons, ditas de solidariedade.
E chamam solidariedade ao que sabem chamar-se caridade. Alguns nem sequer  este cuidado têm já…

Nos últimos dias ganharam destaque  duas campanhas desta dita «solcaridade».
Uma que noz diz que não devemos passar o tempo a queixarmos-nos e uma outra que nos fala de desperdícios.

Na minha opinião, chegaram tarde tais campanhas.
Se tivessem chegado em tempo, talvez muitos portugueses tivessem tomado consciência em tempo, de que não bastava queixarem-se de Sócrates e do PS e que era preciso agir para que Coelho e o PSD não dessem continuidade ao trabalho feito,  ou então, tivessem tomado consciência do desperdício que foi o seu voto em tais gentes.
No que se refere a desperdícios, é com mágoa que vejo Vitorino, Jorge Palma, Sérgio Godinho e outros, que sei que têm sobre a caridade as mesmas objecções que eu e que partilham de igual forma os valores da solidariedade que também partilho, a darem voz a um simplório e triste hino que denominaram  «acordar».
Estou em crer que tal facto só pode derivar de não terem acordado quando aceitaram tal convite…
Gostar de vos ouvir (Vitorino, Jorge Palma, Sérgio Godinho), saber dos vossos valores e admirar a vossa consciência cívica não me pode impedir dos vos criticar.
Não gostei de vos ver ali…

terça-feira, 17 de abril de 2012

Um raminho de alecrim

 

 

Tanto Mar

Sei que está em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim


Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Sim, por aqui é primavera. É Abril

Dizem-me que é Abril por aqui. 
O calendário assim o dita.

Mas não encontro as cores, os cheiros, as alegrias de Abril.
Procurei um raminho de alecrim e esbarrei nas paredes de arame com que cercam as terras.
Procurei cravos vermelhos e encontrei agressivos cardos a dificultarem-me o caminho.
Procurei alegria e vi os rostos tristes das gentes desempregadas.
Eu sei…eu sei, que restaram muitas sementes nos jardins, mas angustia-me o tempo que demoram a germinar.
Eu sei que temos muito por navegar. Tanto mar. Tanto mar. 
Só que  tão tempestuoso. Tão revolto.

Eu sei…apesar da tristeza e do desânimo, que nos vamos encontrar nas ruas.
Com as nossas bandeiras.
Com as nossas esperanças.
Com os nossos risos que teimamos jovens.

E com os cravos vermelhos que guardámos no coração e dividimos com os amigos.


Chico Buarque
 

terça-feira, 10 de abril de 2012

Paradoxal paradoxo

Dizem-me alguns que tenho uma aborrecida tendência para «dramatizar» e quando pergunto por que o dizem logo me fazem notar que esta se expressa na forma trágica com que abordo determinados temas e no «jeito» nada «divertido» de escrever.

Confesso que, mesmo nas situações em que discordo logo, logo encontro um tempinho a sós, em que ajusto contas comigo.

Sim, talvez e talvez seja, por isto, ou por aquilo. Talvez.

Se conto anedotas...são longas, repetidas e sem graça.

Se conto estórias...são confusas e tristes.

Talvez mesmo o indicado seja estar calado.

E até nem é ideia muito absurda.

Antes calado do que pregador em monte ventoso.

Talvez .

Poderia reconfortar-me com a ideia / desculpa , que são só alguns que assim pensam... Pois podia...

Mas o pior é que eu também penso assim.

Vejam só no que me deu para pensar nesta Páscoa:

Nestes dias, por aqui e especialmente na segunda-feira de páscoa, devem ser poucos os que não comem borrego.

Borrego assado, em ensopado, frito, vísceras e sangue em forma de sarapatel, grelhado na brasa, cabeças no forno.

Em casa, a sós, com pouca ou mais quantidade e variedade, regado ou a seco, com vinho ou branco, no campo em festa.

Afinal é a festa.

São milhares os borregos mortos para o festim ou para a mais solitária das formas de dar corpo a uma tradição.

Não me atrevo a dar nome humano à coisa, mas que se trata de uma enorme mortandade de borregos ai isso é inquestionável.

E eu, que também sou cúmplice, dei por mim a pensar em tanta coisa, quando vislumbrei através dos vidros, nos campos quase nada verdes, um rebanho de ovelhas pastando.

Quietas, serenas, nem um brado...