segunda-feira, 11 de março de 2013

11 M

 

Por razões que não se incluem no uso que tenho como adquirido dar aos escritos do «espojinho» , não me foi possível dar continuidade «ao domingo» da publicação dos contos que o meu amigo António Claudino me tem feito chegar.
Como sabem, já publiquei - se a memória não me atraiçoa - sete contos. Sete pequenas estórias de pequenos acontecimentos que ganharam grandes dimensões na vida dos seus personagens.
Obviamente que os contos são ficção. Mas uma ficção onde o António Claudino coloca personagens  que agem num tempo em que muitos de nós fomos atores.
E por essa razão a razão para que eles se constituam como uma homenagem ao Pedro e ao Gama.
Atores desse tempo que marca o tempo de hoje.
E é desse tempo a primeira referencia a um 11 M.
11 M esse, que repôs Abril no caminhos de Abril.
Um 11 M, esse, do longínquo colorido, vibrante e esperançoso 75 (o vilipendiado).

E como negação desse…
Um  11 M, com M para escrever medo. Com que também se escreveu  morte.
M, com que não se escreve cobardia mas que foi com ela que mancharam vidas e Madrid.

Um outro 11 M  longínquo  este nas coordenadas, mas próximo,  na partilha da dor.
Uma conjugação da natureza e de erros do homem.
E uma tragédia que recordamos.

Mas  11 M, também pode e deve ser  afirmação de esperança.
Que assim seja então.

11 M = Esperança.

quarta-feira, 6 de março de 2013

OS AMIGOS

 

Há situações assim. Sentir-mo-nos como amigos de alguém com quem nunca nos cruzámos, com quem nunca tomámos um café, a quem nunca demos um abraço.
A quem dedicamos a mesma atenção e a mesma ternura e por quem sofremos quando sofrem.
Como se faz com os amigos. Àqueles que vêm desde os tempos de escola, aos outros mais recentes, de amizades feitas nas lutas e em outras  caminhadas.
Agora, perdemos um amigo. Daqueles com que nunca nos cruzámos.
Um amigo porque quem  já havíamos intercedido (se cada um de nós fizesse o que pode …) quando os esbirros de sempre o puseram na cadeia (e só não foram mais longe porque os tempos…), quando  lhe chamavam ditador (ele que para além de amado era sufragado) e de quem, as noticias dos últimos tempos sobre o seu estado de saúde nos atormentavam .
Um amigo que acabou  por sucumbir e partir.
Um amigo a quem agora dizemos adeus.
E a quem, queremos acreditar, o seu povo lhe prestará a homenagem que mais desejaria.
Manter viva a chama da Revolução.
Adeus Hugo Chavez.
Viva a Revolução.

domingo, 3 de março de 2013

Lembras-te de como estava frio aquele Novembro?

Conto VII

Lembras-te de como estava frio aquele Novembro?

Porque é domingo. Publico mais um conto do meu amigo.

(Porque essa é a razão da sua existência, relembro aquilo que os que os têm lido não esquecem. Com estes escritos pretendemos lembrar e homenagear dois dos que deles são parte integrante: O Pedro e o Gama.

E tendo acontecido ontem o gigantesco grito de revolta de um povo que não suporta mais tirania, vem-me à memória que os tempos de hoje são o reflexo e o aprofundar daquele caminho de negação de esperança iniciado naquele frio novembro.)


O Antunes, a meio da manhã, percorria as ruas da aldeia apitando freneticamente a buzina do seu velho mini.
O Antunes era dali, mas ia todos os dias trabalhar para a fábrica dos automóveis em Vendas Novas. Era comunista e membro da comissão de trabalhadores da fábrica.
Entreabria a porta e erguendo-se gritava: «Temos que defender a revolução, vamos todos barricar a estrada» e repetia, repetia e as pessoas foram-se agitando e aproximando. Naqueles tempos era assim, as pessoas estavam muito atentas e ainda por cima, as coisas andavam muito agitadas.
Os senhores de sempre não se habituavam a que a «populaça» andasse agora de cabeça erguida e que não  tirasse o chapéu à sua passagem e esperneavam para destruir o sonho que o povo vivia.
Alguns generais tratavam da logística…
Por ali, os lacaios de sempre, começavam também a dar sinais de vida  e como répteis em fim de hibernação, espreitavam oportunidades.
Na sede da UCP decorria uma reunião geral dos trabalhadores  interrompida e logo transferida para as bermas da estrada que mais tarde acabou por ser cortada com uns bidões e umas varas que funcionavam como uma baias.
Por ali não passariam as armas com que queriam derrotar a Revolução. Tudo era revistado. Comentava-se que em Coruche, os camaradas tinham acabado de descobrir que um suposto funeral mais não era que uma tentativa de fazer passar dentro do caixão, um conjunto de metralhadoras. Por isso tudo se revistava, mas tudo mesmo.
Um senhorzinho da terra, por razões que vão lá saber-se, passou várias vezes pela barricada. Em todas foi revistado, ele e o carro. «Mas eu sou aqui da terra… vocês conhecem-me» implorava. Precisamente por isso, responderam-lhe
Era segunda-feira e estávamos a 24 de Novembro de 1975.
E frio, bem frio o dia.
Para aguentar as agruras havia uma fogueira e passava-se de mão em mão umas garrafinhas de bagaço caseiro.
Caiu a noite, o que em Novembro acontece cedo,  e não havia sinais de desmobilização.
Umas linguiças assadas em espetos improvisados, uns queijinhos e pão foram a ceia colectiva partilhada.
Estavam ali desde manhã cedo e decididos a continuar.
O João, bem miúdo ainda, tinha sucumbido aos efeitos do bagaço e enrolou-se numas mantas na valeta da estrada junto à enorme fogueira.
Estava assim menos frio e adormeceu.
Não sei como é que o gaiato consegue dormir nestas condições. Bateu-lhe forte o bagaço. Comentava um.
A noite foi avançando  entremeando-se entre umas anedotas e conversas preocupadas, agravadas pelas noticias que iam chegando.
O tráfego era pouco. De vez em quando um carro. Um lamento - caramba acabei de ser revistado em Montemor - ou uma palavra de alento - força camaradas.
Ainda tardavam as luzes da manhã, quando do lado de Vendas Novas surgiu a toda a velocidade um carro que rodopiando e fazendo pião se imobilizou junto à fogueira.
Todos entraram em pânico. De dentro do carro, saiu esbaforido o Costa, um camarada conhecido de quase todos.
Ai sacana que já o matas-te! Berrou-lhe o João Ladeiras
Mais esbaforido ficou: «matei, matei quem?».
O gaiato, o João, que estava ali a dormir na valeta.
E a dormir continuava, com a roda da frente do lado direito do carro do Costa a palmo, palmo e meio da sua cabeça.
Porra, que cagaço.
Pois acordem-no que vamos levantar ferro. Temos de ir todos para Vendas Novas fazer uma grande barricada que impeça que os chaimites de Estremoz cheguem a Lisboa, gritava o Costa.
E assim se fez, uns de carro, aos sete e oito em cada um, outros de motoreta, outros na caixa de carga da camioneta da ucp e fizeram-se à estrada.
Chegaram a Vendas Novas ainda não amanhecera.
Na estrada, junto ao Quartel, largas centenas barricavam por completo a passagem. Os chaimites para chegarem a Lisboa teriam que passar por ali e por ali não passariam,  asseguravam. 
Um soldado dali, todo desbarrigado e com claros sinais de embriaguez afiançava: «Só que houvesse ali (e apontava para o quartel) mais dois ou três como eu e nem precisávamos de estar aqui barricados, varríamos-los da face da terra. Temos ali armas bem capazes disso…
Dos lados de Montemor aproxima-se uma viatura, com potentes luzes, mas a baixa velocidade. Aproximou-se e deu para perceber que as potentes luzes eram de um holofote com que agora varria com o seu feixe a multidão, como que a fazer o reconhecimento. Alguns metros antes da barricada parou. Vimos que um corpo se ergueu e munido de megafone, berrou: Têm dois minutos para desimpedir a passagem. Fez rápida inversão e voltou para de onde veio.
A multidão gritava. Aqui não passarão.
Decorrido algum tempo que para os barricados parecia uma eternidade, avista-se ao longe de novo a tal luz de há pouco.
Só que desta vez a muito maior velocidade e ouve-se um som estridente. O som do atrito provocado pelos rodados dos carros de combate no asfalto.
Ficou perceptível para todos os que ali estavam que não tinham a menor intenção de parar. Quanto mais se aproximavam, mais aceleravam.
O Jeep que encabeçava o desfile, cedeu já próximo, o lugar de comando a um dos carros de combate. Ficaram aí claras as intenções sanguinárias.
E quando já mais nada havia a fazer a multidão abriu alas e a coluna seguiu a alta velocidade para Lisboa.
Gritos, assobios, protestos, uma ou outra pedra atirada. Impotência.
Muitos sentiram ali o desmoronar dos seus breves sonhos.
João ainda estava atónito.
O regresso foi a pé. Ele e mais alguns.
Na confusão da desmobilização, os transportes não chegaram para todos.
E fizeram-se à estrada. Sem vontade de conversas. Quase em silêncio.
Três longas e penosas horas.
À chegada, só os familiares. Aflitos. Haviam-lhe dito que tinham sido presos.
Que tinham ido para Caxias.
Aqueles dias frios e tristes de Novembro anunciavam trazer de novo as trevas consigo.

António Claudino

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Sim. Porque hoje é domingo

Contos de passagem.

Inevitavelmente. Sempre o que antes tenho dito.

Conto VI

Passagens…

O Fernandes já estava irritado. Cada vez carregava mais nos erres.

Mas afinal onde é o rraio dessa currva? Disseste que erra a seguirr à ponte e já passámos à ponte e nada.
-Se calhar há outra ponte…
-Não há nada. Eu conheço bem o caminho porrrra.
Este era o diálogo possível.
O Fernando havia conseguido convencer o Fernandes - um camarada militante do partido e que tinha uma pequena oficina de eletricista - a ir na sua velhinha Peugeot de caixa aberta, buscar uma motorizada que estava acidentada ali algures entre Montemor e as Brotas.
Eu sei que é depois do Ciborro, balbuciava o Fernando.
É depois do Ciborrro, é depois do Ciborrro, bem sabes tu! Parra a prróxima orrganiza melhorr as coisas, camarrada.
O Fernandes era assim. Parecia irascível, mas era um bom camarada. Era dos poucos que se disponibilizava para ajudar a juventude.
Mas eis que, finalmente, depois de uma curva e a seguir a uma ponte, avistaram a sachs encostada a uma azinheira. Estava seriamente danificada. Aro da frente feito num oito, pneu rebentado,  farol esborrachado, manetes de embraiagem e travão suspensas pelos cabos.
Viram-se e desejaram-se para a pôr em cima da carrinha.
Eh pá, esta coisa está mesmo em mau estado. Como é que isto aconteceu? - Perguntou o Fernandes.
Foi o Júlio, um camarada de Lisboa, que veio para cá participar numas reuniões, ia para uma reunião em Mora, ao sair da ponte deu de frente com um rebanho de vacas que atravessava a estrada e não teve tempo de parar…
Pobrre vaca…
Ah, sim?! Não te ouvi perguntar nada sobre o camarada…pois fica sabendo que partiu uma clavícula.
Não se pode brrincar, porrra?!
O Fernandes agora dava-lhe para a chalaça. Em todo o caminho de regresso a Montemor foi largando piadolas.
Porrra que esse tal Júlio estava mesmo com fome…uma vaca inteirrra?!
Chegados a Montemor, passaram pelo Centro de Trabalho para ver se encontravam ajuda para descarregar a motorizada. Naqueles tempos, por ali era sempre um grande bulício. Afluíam ao Centro de Trabalho  dezenas de camaradas para participar em reuniões das mais diversas ou em trânsito para reuniões nas freguesias ou com células das ucp(s).
Para toda esta azáfama era necessária a participação de muitos. O Fernandes oferecia-se  sempre para motorista, mas ultimamente e dadas algumas das suas particularidades, quase todos o evitavam. Sobrava sempre para a juventude, embora resmungando. Ele e um outro camarada, o Anastácio eram, assim se pode dizer, os motoristas da juventude.
Motoristas e financiadores, pois na maior parte das vezes nem viam o dinheiro do combustível.
São inúmeras as passagens que se conta de um e de outro, como por exemplo o ocorrido uma noite de Inverno, feia, escura e ventosa, em que o Fernandes foi com um camarada a uma reunião a S. Geraldo, no regresso, a alta velocidade numa estrada sinuosa, ficaram sem luzes e perante o grito aflito do companheiro, o Fernandes, atalhou: «não te assustes camarrada, fui eu que desliguei as luzes. A gente tem que estar prreparrado parra todas as situações».
Em contrapartida, o Anastácio era a calma em figura de gente. Dizia-se que nos podíamos descer em andamento, verter águas e voltar a apanhar o carro.
No lugar do banco do condutor, tinha um «mocho» amarrado com arames. Por ali, entre o «mocho» e o que restava dos outros assentos do carro, circundava  um pequeno cachorro, companhia insubstituível do Anastácio.
A maioria já conhecia o cachorro.
Um dia, o Anastácio foi com o Fernando, a Cabrela. E nesse dia foi também o Chico, um camarada do Secretariado local.
A dada altura da demorada viagem e porque o cachorro se intrometia entre os pedais, o Anastácio berrou-lhe: «vai lá pra trás chico, tás aqui tás a levar um porradão».
Do banco de trás, balbuciou a medo o Chico: «diga…».
Não é contigo, é com o cão, retorquiu o Anastácio.
O Fernando havia-se esquecido de apresentar os chicos…
A «fama» do Fernandes já passava para lá da «fronteira» das relações partidárias e ocorridas no âmbito dos «frequentadores» do CT de Montemor.
Na sequência de uma  completa ingenuidade, a Câmara, em que os comunistas estavam em larguíssima maioria, aprovou uma postura de regulamentação da propaganda em que na prática se proibiam as colagens de cartazes, murais e pinturas de palavras de ordem nas paredes.
Evidentemente que tal medida não podia ser tolerada e logo foi decidido avançar para o pleno usufruto da liberdade de expressão. Zelosa, a policia, tratava logo de identificar e levantar processos a todos os camaradas apanhados em tais atividades.
Como seria de supor, o Fernandes era campeão nos processos.
Numa noite, em que o serviço não apertava, entrou no CT e disse para o Fernando:     « Borra camarrada, que a revolução esperra por nós…».
O Fernando, que sabia o que o esperava, ainda tentou esquivar-se, mas em vão.
Estavam em plena atividade, quando o Fernandes sussurrou: «temos que nos esconderr, vem aí a ramona da policia».
O carro estava a trabalhar e de portas escancaradas e assim ficou, as latas da tinta e as trinchas, ficaram junto ao «trabalho» e eles esconderam-se sob a carcaça de uma camioneta velha que ali estava abandonada.
A policia chegou, olhou e um disse para o outro: «vamos embora que é outra vez o maluco do Fernandes».
Maluco! Maluco o tanas. Revolucionárrio.

 

António Claudino

domingo, 17 de fevereiro de 2013

CONTOS DE PASSAGEM

Porque é domingo.

E sempre em memória do Pedro e do Gama

Conto V

Santiago

Ele bem viu.
A vermelho, numa placa de madeira sobre a bica do chafariz, constava o aviso: «água imprópria para consumo».
Mas era tanta a sede e era tanto o calor  e era tanta a secura que sentia vinda de dentro que descuidou as cautelas. E bebeu sofregamente.
No tanque para onde caía a água que saía da bica, caíam também os pingos de suor e as lágrimas que não conseguia conter.
Ali se quedou um pouco, no Chafariz das Bravas.
Apesar de finais de Setembro, estava quente o dia. Muito quente mesmo.
Ele havia ficado em Évora naquele dia,   digamos, em escala técnica, pois havia sido colocado em Beja e ia nessa noite apresentar-se ao colectivo que aí trabalhava.
Mas fez questão de fazer escala, tinha partido manhã cedo de Montemor e se quisesse tinha tido tempo para fazer a ligação à camioneta para Beja, mas Évora… é sempre Évora e arranjou uma desculpa para ali passar mais umas horas.
Iria para Beja na camioneta da tarde, garantiu por telefone à Cristina, reiterando repetidas vezes que lá estaria a horas.
Tal não iria acontecer.
Não por incumprimento ou indisciplina, mas porque razões maiores surgiram.
Secou a cara nas mangas da camisa e voltou ao carro onde o Manuel aguardava impaciente e nervoso.
E continuaram.
Fazia-se à sua passagem um silêncio profundo. Parecia mesmo que os carros desligavam os motores, os gaiatos saíam das escolas sem a algazarra costumeira, nos passeios as pessoas paravam, aturdidas.
Silêncio. Só silêncio. Um grande silêncio.
E ele sentia de novo a voz turvada.
Era cada vez mais forte a dor que sentia na garganta por cada vez que falava para o microfone.
Mas havia que continuar. A cidade tinha que saber o que se tinha acabado de passar.
E tinha que se reunir na Praça. Manifestar a sua revolta.
Era por isso necessário informar. Dizer a toda a gente, percorrer todas as ruas, becos, vielas, bairros.
Ir aos bairros, às fábricas, às escolas.
E por todos os cantos da cidade ecoava: «A GNR acaba de assassinar em Montemor dois trabalhadores da Reforma Agrária. Todos à Praça do Giraldo para denunciar este crime».
Para Évora confluíam agora a Cristina, o Fernando, o Carlos, o Mário, a Teresa e os outros.
Era preciso organizar o protesto. Era preciso honrar os mortos. Era imperioso condenar os crimes.
Redigiam-se em stencil os comunicados de denúncia e condenação que imprimiam nos velhos duplicadores, organizavam-se brigadas de distribuição.
Todos, estudantes e trabalhadores, da UEC ou da UJC afluíam ao velho 14  (tratamento carinhoso dado ao Centro de Trabalho do PCP  sito no Largo  Luis de Camões, 14) e perguntavam o que podiam fazer.
E havia tarefas para todos.
Terminado o trabalho no carro de som, poucos minutos antes da concentração na Praça chamaram o João ao 14. Era preciso saber urgentemente se o jovem Casquinha, um dos dois que havia sido assassinado, era militante da UJC.
Caravela - o camarada mais velho - já se sabia, era militante do PCP.
João sabia que ele tinha estado em reuniões com ele. Lembrava-se daquele nome e quase garantia que sim, que ele era da UJC.
Mas exigiam-lhe certezas: «Não podes só dizer que quase de certeza que sim, tens que ter a certeza de sim ou não» dizia-lhe irritado o António, o camarada responsável do Partido na Região.
E ele foi procurar no ficheiro. Procurou primeiro por ordem alfabética e depois já desesperado percorreu cada uma das fichas do ficheiro (mais de mil eram então) e não encontrou.
Foi para a praça e juntou-se ao mar de dor e revolta que ali se havia juntado naquele quente e triste final de Setembro.
Setembro Negro
Tarde Clara
Dois corpos
que caíram na Seara
Escreveram e musicaram mais tarde uns camaradas.
Os corpos iriam ficar em câmara ardente em Montemor. No Cine Teatro Curvo Semedo.
O João, o Mário, o Fernando e a Teresa iriam  ainda nessa noite para aí. Tinham agendado uma reunião com um camarada que vinha de Lisboa.
Aí chegados, na entrada do CT, estavam a mãe e uma irmã de Casquinha. Recebiam os pêsames e os consolos possíveis.
A irmã de Casquinha reconheceu o João e num abraço choroso disse-lhe: Não te esqueças camarada, ele era um de vocês, ele era comunista. Ainda há pouco de mais de um mês esteve numa reunião contigo na Casa do Povo de Santiago.
No Centro de Trabalho, já os esperava o Afonso, o camarada responsável nacional pela UJC.
Para além de vários aspectos organizativos para os funerais - esperavam-se milhares de pessoas de todo o país - abordaram de novo a questão da militância de Casquinha, ao que o João acrescentou as suas dúvidas reforçadas pelo episódio presente do encontro com a irmã. Não é suficiente para o podermos afirmar - respondeu secamente o Afonso.
Podemos, podemos, afirmou tabacoso entre duas baforadas, o Mário. Eu estava no 14 quando a Cristina telefonou à procura do João - como não estavas - a Cristina pediu-me para procurar no ficheiro e eu encontrei a ficha - está aqui comigo e dito isto,  tirou  do bolso da camisa (de onde sobressaía sempre o grosso maço de sg gigante) a ficha dobrada ao meio.
Num ímpeto que apanhou todos desprevenidos, o João levantou-se e berrou: «E tu, meu grande sacana, trouxeste durante todo este tempo essa informação contigo e não a partilhaste, nem mesmo quando angustiados falávamos nisso na viagem de Évora para aqui?
És mesmo um grande sacana. Lambe botas de merda.
O Afonso teve que intervir, porque a coisa ía ficar feia.
Nunca ninguém tinha visto o João assim.
Então, então…vamos a ter calma…eu compreendo que estejamos todos nervosos. Serenava rematando…vamos comer qualquer coisa que bem precisamos.
Comer? Antes disso vamos ter que arranjar uma bandeira da UJC para pôr no caixão de Casquinha. Mas não uma dessas pequenas de tafetá. Tem que ser uma bandeira à imagem da heroicidade dele. As bandeiras pequenas nem para as pessoas pequenas como…
Chega. Gritou agora o Afonso.
E foram enganar a fome numa tasca ali perto.
O João chegou mais tarde. Tinha ido falar com a Maria, a mãe de uma camarada da organização local, que tinha jeito para a costura,
Amanhã de manhã, antes de começarem as cerimónias, a bandeira estará sobre o caixão de Casquinha. Disse seco, enquanto se sentava.
Foi um encontro muito diferente dos outros. Bebericaram e comeram qualquer coisa quase em silêncio.
Só as perguntas frequentes do Afonso, atenuavam aquele gélido silêncio.
Sabem hoje e alguns suspeitaram-no logo, que nada mais iria ficar igual. Muitas transformações se iriam processar em cada um.
Aquela entrega romântica, aquele acreditar infinito, aquela certeza de alcançar, tinha ficado seriamente abalada com os trágicos acontecimentos daquela tarde.
Cada um deles já tinha estado em situações complicadas. A ofensiva contra a Reforma Agrária era brutal.
Grandes cargas policiais, perseguições a cavalo e com ferozes cães, bastonadas com bastões de ferro e de choque eléctrico, jactos de canhões de água, balas de borracha, mas um acontecimento assim não esperavam.
Agora, na próxima «entrega de reservas», havia que repensar a táctica. Tragicamente haviam tomado consciência que a sua entrega juvenil e corajosa tinha que ser alterada.
Logo pela manhã, repartiram-se por diversas funções. Na guarda de honra aos corpos, na recepção de delegações que apresentavam condolências, no atendimento e informação telefónica, nas mais diversas tarefas logísticas.
E a Montemor afluíam milhares de pessoas de todo o País.
Nos seus rostos, apesar de visíveis marcas de transtorno e dor, via-se determinação.
E uma grande firmeza na continuação da luta e na exigência de punição dos assassinos.
E foram tantos, tantos mil, que se ligou com gente o caminho entre Montemor e Santiago.

António Claudino

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Haja Papa


Expressa Mente

Já havia prometido não regressar aos comentários.

 

Reservava agora o meu tempo na publicação dos contos que o meu amigo António me tem feito chegar e que há quatro domingos dava à estampa, quando  dou com uma chamada de atenção muito importante no portal Sapo ainda há pouco e que continha em si razões de sobra para me tirar da razão.
Segundo este,o portal, o Expresso lembrava uma sua «caixa» dada à estampa quando da visita de Bento XVI a Portugal e onde se podia ler:

Papa em Lisboa: 280 mil no Terreiro do Paço
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/papa-em-lisboa-280-mil-no-terreiro-do-paco=f786438#ixzz2KdP8gdJX (clique e espero que confirme por si)

E de imediato me veio à memória trabalho publicado no mesmo jornal, sobre as capacidades da mesma praça, no qual, com poses de rigor matemático era afirmado não caberem mais de 100 000 no dito terreiro.

Isto para o caso de uma manifestação convocada pela CGTP.

Ou seja, sem Portas e sem a mamã, sem duartes e sem pios.


Era este o título do referido trabalho:
Quantos cabem no Terreiro do Paço?

http://expresso.sapo.pt/quantos-cabem-no-terreiro-do-paco=f756492 (clique e espero que confirme por si)

Afinal, expressa mente quantos cabem?

domingo, 10 de fevereiro de 2013

CONTOS DE PASSAGEM

Sempre.Lembrando o Gama e o Pedro.

Personagens presentes nestes contos. Algures.

Conto IV
O grupo

A noite já há muito que por ali se impunha e eles continuavam  despertos como se esta ainda agora fosse nascida.

Bebericavam, conversavam, relatavam histórias recentes e repisavam outras já tantas vezes contadas.
Tinham acabado a reunião por volta das oito, foram ao Zé das Iscas, comeram qualquer coisa e voltaram.
Ali estavam aqueles que calcorreando o Alentejo se atarefavam na preparação do 1.º Encontro Regional da Juventude Trabalhadora.
São quase todos pioneiros de um trabalho intenso de recrutamento e de crescimento da organização da Juventude Comunista.
O Vieira, o mais velho de todos, tinha vindo para ali logo que Abril raiou. Era o único de entre eles que desenvolvia atividade política antes do 25 de Abril - no MUD juvenil e no MJT - Movimento da Juventude Trabalhadora. Tinha vindo da zona de Lisboa. Ali, na velha sede do Largo Luís de Camões, fazia a sua casa. Que partilhava com outros e hoje connosco.
O Vieira era uma figura austera, muito exigente e pouco dado a graças. Não lhe conhecíamos namoro nem namorisco. Mas era justo na critica e humano na aceitação dos erros.
Cedo, naquela noite, como aliás sempre fazia, deixou a «farra» com um sonoro recado: «eu quero dormir e vocês se não querem e não se sentem cansados - coisa estranha - façam pelo menos pouca algazarra - até amanhã.»
Tinha sido pela mão dele, que todos, os que ali estavam, tinham vindo para funcionários.
O Fernando que havia saído para levar a casa a Teresa e a Cristina, regressou.
Era oriundo de Aljustrel, terra de mineiros, mas não era nem nunca tinha sido mineiro, com pena sua,. Antes de ser funcionário havia  sido empregado de balcão. Para mal dos pecados de todos os outros estava convencido que sabia cantar «à alentejana».
E mal regressado já entoava esganiçado «dá-me uma pinguinha de água», mas não era água o que ia bebendo. Adorava um bagacinho.
Daqui a pouco tens o «papá»  à perna, brincou o Carlos. Mas continuou-se cantando - o melhor que sabiam, o que era pouco - ali só o Mário arranhava qualquer coisa.
O Carlos não tinha tido tempo para qualquer profissão, ainda andava a estudar - fazia umas disciplinas de vez em quando,  mas optou pela UJC em detrimento da UEC que seria o seu «espaço» natural.
Aquilo é só copinhos de leite - dizia, quando era confrontado com o facto de sendo estudante, não ser da UEC. E os outros gozavam-no, dizendo: «precisamente por isso é que devias lá estar».
A Teresa, dizia-se operária agrícola. Ainda trabalhou uns dias na cooperativa, mas havia quem dissesse que tinha sido só numas jornadas de trabalho…
Era da margem esquerda do rio grande do sul. Das terras de aço de Serpa.
A Cristina , a sorumbática, já apresentava características refinadas de liderança. Aquela ia longe, tinha estilo, pensávamos todos em voz alta.
Todos sabiam, menos o eventualmente visado, que  a sorumbática Cristina, no seu mais secreto intimo, nutria uma enorme paixão pelo Vieira.
E neste descronemetrado relato, em que tal como o relógio de St. Antão não há meio de se acertar com o tempo,  pode-se desde já adiantar que a coisa não havia de concretizar-se…
Embora, pelo que se acaba de dizer, pareça absurda a comparação, se o Vieira era o «papá» a Cristina era quase a «mamã».
Era no entanto imperioso que salvaguardássemos que, tanto as referências a este amor (não partilhado), como a alcunha de «mamã» não chegassem de forma alguma aos ouvidos da dita, porque senão havia confusão da grossa.
Convêm lembrar que as questões do amor ou as questões dos amores, diziam então respeito ao «colectivo», o João sabia bem, o quanto o diziam…
O Fernando insistia no canto e agora, que o cansaço já quase vencia todos, só o Mário
o acompanhava. Este era dos poucos que às letras juntava um pouco de melodia.
O Mário era a «aquisição» mais recente e apresentava algumas dificuldades de integração. Em matéria de partilhas era problemático. Apresentava traços de um forte individualismo.
Era, no entanto, grande protegido da Cristina.
E eis feita em traços muito gerais a apresentação. Alguns não estavam na reunião de hoje e podem surgir mais tarde no relato.
O Vieira - que já dorme.
O João que fazendo um grande esforço para suportar o peso das pálpebras já sonha com a Anabela… ou com a Fernanda (não se sabe bem qual é paixão de momento) - mas não se duvide - ele apaixona-se mesmo - no que de melhor e pior esta patologia pode representar.
O Fernando que a esta hora ainda canta mais mal do que no inicio da noitada.
A Teresa deve estar já no segundo sono.
A Cristina que deve estar com um pesadelo centrado no dilema entre o amor da sua vida e o recato que deve manter.
O Carlos que continua preocupado com a algazarra do Fernando a que se juntou também o Mário.
O Mário que afina a voz julgando-se Paulo de Carvalho.
Foram buscar as placas de esponja e umas mantas e por ali se esticaram.
Lá fora já circulavam os carros a caminho do mercado e os padeiros iniciavam a distribuição do pão quente acabado de sair dos fornos.
Apesar de Évora ser uma cidade que acorda tarde alguns já haviam acordado para as suas lides diárias.
E por ali também não faltava muito.
O Vieira disso se encarregaria.

António Claudino