sábado, 20 de abril de 2013

A quantos estamos? Que dia é hoje?

 

Por lá:

Vi, o que produziram para que visse. Mas no que vi, vi que haviam personagens de carne e osso.
É certo que não podemos descurar a encenação, mas muito menos podemos descurar o facto de os encenados o fazerem sob forma aparentemente livre.
E o que vi, resume-se a uma expressão brutal.
Um milhão de pessoas enclausuradas, dez mil policias armados de tudo, até de dentes, nas ruas de Boston à procura de um gaiato de dezanove anos.
Um presidente que foi de esperança, ganindo a superioridade americana.
O gaiato foi capturado.
Viva a américa!
Saíram de casa os heróis depois de abatido o gaiato. E davam vivas à américa.
Viva então a américa.
E não foi  nessa mesma América, que se deu recentemente a tragédia de uma explosão acidental que provocou quase duas dezenas de mortos?
Já sabíamos que o valor da vida variava em função da latitude e principalmente das latitudes criadas pela coordenada dominante. Ficámos agora a saber que mesmo dentro do ponto difusor de coordenadas, as vidas valem em função do peso mediático.
Uma coisa é a vida de um cidadão de Boston vítima de um atentado (?) e outra são as vidas dos Bombeiros no Texas, mortos na sequência de uma explosão quando combatiam um incêndio.
Aqui as televisões não nos mostram as hordas de vivas de Boston.

Por aqui:

Declaro, com toda a carga declarativa de uma declaração, que não.

Não perco o sono porque não tenho culpa.
Os pedros e paulos espertos, armados ao pingarelho querem fazer de mim - que sou aquela coisa que querem apresentar como abjecta… funcionário público – o malandro que para ter direito a subsídio de férias faz com que os desempregados recebam menos subsídio e os doentes menos dinheiro, fiquem a saber, pedros e paulos,  que não o conseguem.
Vocês, pedros e paulos espertos são os sacanas que vão cortar nos subsídios de desemprego aos desempregados que criaram e nos subsídios de doença, aos doentes que descuidaram.
Vocês são os sacanas que não têm o direito a dormir descansados.

E ainda por aqui:

Poupem-me.
Eu sou livre.
Eu voto livremente.
Eu só preciso de ser protegido dos que atentam contra a minha liberdade.
Dispenso revoluções que sendo brancas são rendições e dispenso atestados de menoridade cívica.
Eu voto em quem quiser e há candidaturas às quais o meu voto não concederia um mandato de uma hora e outras a quem atribuirei os mandatos que entender.
Mas uma pergunta  deixo aos homens de branco: os corruptos só não têm o direito a um quarto mandato, porque podem ter um segundo, e um terceiro, não é?
Corruptos sim senhor, mas mais do que 12 anos não pode ser.
E pronto, senhores corruptos, os senhores não vão para a cadeia não senhor. Só não podem é continuar a ser senhores presidentes corruptos.
Mas podem ser eternamente deputados e vereadores corruptos….

domingo, 7 de abril de 2013

Seis e meia …hora cola cola facha

 

I
Estou avisado. Irei beber uma cervejola.
Vou tentar, pelos meios possíveis, evitar a investida.
Por volta das seis e meia vai aparecer por aí, por aqui e um pouco por todo o lado à boa maneira «gobelsiana» um lobinho, com pele de cordeiro.
Vitima de tudo e de todos. Sem culpa de nada, o sacana…
Vindo da toca… instruído pelo lobo velho.
II
Ao dirigir-me hoje ao multibanco fui pré brindado com um restaurador olex e pós brindado com uma pasta medicinal couto.
Às seis e meia com uma conversa em família.
F…..da…-se.
III
Anda empestada a coisa.
Coléricos, brancos de raiva vociferam - enquanto ECONOMISTAS - contra a blasfemosa medida do TC.
Valha-nos o facto de o mau hálito não se propagar da mesma forma que se propaga o ódio que os seus olhares carregam, porque a não ser assim, muitas seriam neste momento as  corridas aos bancos (não lhe poderiam chamar outra coisa…) de urgência dos hospitais com sintomas claros de intoxicação…
Apodreceram o ar, para que hoje, às seis e meia
IV
Às seis e meia que horas serão em Berlim?
V
Já a bruxa estará dormindo? Às seis e meia!

terça-feira, 2 de abril de 2013

E depois do…. e depois dos contos.

 

Articulei com o António Claudino que com o 10.º conto se suspendia por uns tempos a publicação a que vinha procedendo, em cada domingo, daqueles contos que ele havia escrito e que tinham na memória uma homenagem ao Pedro e ao Gama.

E assim de novo me confronto com as coisas habituais do «espojinho». Inquietudes e aqui e ali alguma incongruência.

Volto ao aos meus gritos mudos. À minha eterna inquietação.

À minha obstinada forma de opinar.

Volto para reafirmar o meu desejo - quase doentio - de que cada um, aja por si, pense por si.

Seja livre.
E responsável.

E é, pensando essa liberdade que me interrogo sobre a pretensa «proteção»  que uns me querem garantir - via judicial - para que eu não caia na tentação de votar em quem não queira.

Ora, para haver essa garantia judicial, tem que haver uma lei. Quem a aprovou?
Creio que foram os mesmos que aprovaram o código laboral, o memorando da troika, os pec(s) o corte do 13.º mês e do subsídio de férias, a sobretaxa do IRS.
Estou convicto que foram os mesmos  que  garantem há anos , há muitos anos, a alternância - quando não a convivência - nas diversas sedes de poder.
Há quantos anos nos lixa Cavaco?
Há quantos anos nos lixam PS, PSD e CDS?
Aquela coisa da Madeira há quantos anos a lixa?
Há quantos anos o Professor?
Há quantos anos o baixote? (discípulo do professor)?
Há quantos? Quantos? Quantos?
E não pensaram numa lei?
Numa providênciazita?

Não me lixem.
Sejam responsáveis.
Não precisamos de leis que limitem a nossa liberdade.
Precisamos de liberdade para fazer as leis que a consagrem.

Viva a liberdade.

Não há revoluções sob as bandeiras da rendição.

domingo, 24 de março de 2013

Uma tempestade

Conto X

Havia perguntado ao Frazão como fazer para ir para os Baldios.
Simples, respondeu-lhe este, apanhas a camioneta para S. Cristóvão e desces-te nos Baldios.
É assim tão simples?!.
Sim. Claro que os Baldios não estão ali especados ao rés da estrada à tua espera. Tens que andar um bocadinho…
Nunca lá havia ido. Ia para uma reunião com o colectivo de jovens comunistas na UCP, que estava agendada para as oito da noite.
Um colectivo aguerrido e numeroso. Não podia falhar ou sequer ser tentado a adiar.
E se é assim tão simples, não tinha com que se preocupar.
Claro que estaria mais descansado se o raio da motorizada não tivesse avariado. Mas estaria lá.
Porque a noite se aproximava e o dia estava escuro, pediu ao revisor que o avisasse quando fosse a paragem para os Baldios.
A viagem entre Montemor e a paragem foi rápida. Avisado atempadamente pelo revisor, tocou a campainha e o grande e desengonçado autocarro parou ali no meio do nada.
Ouviu o ranger de ferros à mistura com o ronco do motor e eis que parte o autocarro rumo a S. Cristóvão.
Levava poucos passageiros. Reparou no ar de curiosidade de alguns deles olhando-o das janelas quando se reiniciava a marcha. Como que a perguntarem-se: o que fará aqui este franzino num dia como o de hoje.
Já sozinho, completamente sozinho, no meio do nada, apercebeu-se agora com maior nitidez que a tempestade estava para breve. Escurecia rapidamente e a noite antecipava-se.
O Frazão disse que era perto.
À sua frente a estrada e um campo vazio. Nem um arbusto, um simples carrasco que fosse,  conseguia avistar em todo o plano que avistava.
Uma estrada de terra batida, nada mais. O caminho só podia ser em frente. O Frazão explicou que ficava à direita, pois só podia  ser assim.
A estrada era ladeada  por uma linha telefónica. Os postes que a suportavam eram as únicas coisas que emergiam acima da terra. E agora, ele.
É em momentos assim que nos sentimos pequenos.
A terra imensa, plana, a perder de vista.
O céu, enorme, escuro como breu, assustador. Ao longe já se viam relâmpagos.
O caminho já o havia iniciado há uns bons minutos. Quantos? O Frazão havia-lhe dito que era perto. Estranha não avistar ainda o casario.
A carga, não é grande. A sua velha pasta na mão direita. Na esquerda, um saco de plástico com os «juventudes». Trinta, era a venda mensal habitual ali. Já pesava. Trocou a carga de mãos.
E caminhou. Sentiu um pingo frio na cara. O seu velho hábito de não gostar de guarda chuvas se calhar ia sair-lhe caro. Logo outro pingo e depois outro.
Começou a chover. São só uns borrifos pensou. Vou chegar aos Baldios antes do temporal.
Os borrifos passaram a pingos grossos. A tempestade chegou antes a ele que ele chegou aos Baldios.
O ribombar dos trovões era cada vez mais intenso. Os relâmpagos cada vez mais perto  iluminavam os campos já escuros.
O vento estava de frente. Rasteiro e cada vez mais forte.
Dobrou o saco de forma a impedir que a chuva estragasse os jornais e colocou-o, junto a si, dentro do casaco. Fechou o fecho bem até cima. Sentia-se gordo, mas funcionava como bom aparo de vento e até de algum frio…
Caminhar era cada vez mais difícil. O vento cada vez mais forte.
A tempestade agora estava ali mesmo. Forte. Negra. Fria.
Andar era tarefa penosa. O vento de frente era tão forte, tão rasteiro que ele quase se arrastava. Os trovões já não se intervalavam, as faíscas eram quase permanentes. Reparou, por mais de uma vez, que as linhas de telefone, eram percurso  de curiosas e assustadoras descargas eléctricas, dando lugar a uma espécie de fogo de artifício, de cor azulada.
Se houvesse uma árvore. Só um arbustozinho que fosse, teria cedido, mas assim não podia.
Tinha que continuar.
Os bagos de chuva grossa, eram agora granizo. Projetado pela força do vento provocava-lhe dores, parecia estar a ser apedrejado. Protegia a cara como podia, com as golas e encolhia as mãos para dentro das mangas.
No meio daquele ensurdecedor barulho, pareceu-lhe ouvir o ladrar de um cão.
Outro viajante desprevenido, pensou. Mas não via cão nenhum. Aliás não via nada, por força do negro da escuridão e do efeito de encadeamento das faíscas.
Mas voltou a ouvir ladrar.
E depois ouviu alguém gritar: «vai ajudar, homem do diabo, que aquele pobre desgraçado deve estar a cair para o lado, não tarda».
Não se apercebeu, mas havia chegado aos Baldios.
Ajudado entrou em casa. Sentaram-no junto à lareira. Foram buscar uma toalha com que enxugou a cabeça.
Na casa onde foi acolhido, estava um casal de meia idade. Trabalhadores da UCP, disseram-lhe
Minimamente retemperado, apresentou-se e disse ao que ia.
Pois..na dava pra perceber o que é que andava a fazer por estas paragens num dia como o de hoje…disse-lhe o homem.
Mas olhe que não há reunião, disse-lhe a mulher. O meu sobrinho é que estava a organizar isso, mas por causa da borrasca, nem de trator se consegue passar para o Monte da Chaminé que era para onde eles estavam a organizar. Aqueça-se, que quando isto amainar eu já o chamo que ele mora aqui ao lado e ele depois explica.
Amainada a tempestade, chegou o sobrinho, o Zé Francisco que confirmou a anulação da reunião. É que sabes camarada, a gente somos alguns trinta e só temos condições de nos reunirmos no Monte da Chaminé e por causa da trovoada não conseguimos passar, vai uma enxurrada danada no ribeiro…nem de trator. Eu tentei telefonar para avisar, mas não consegui, o telefone não dava nada.
Que horas são, perguntou?
Oito.
Da paragem da camioneta até aqui, quantos quilómetros são? Interrogou de novo.
Cinco quilómetros bem medidinhos, respondeu-lhe o Zé Francisco.
Olha, naquele saco estão os «juventudes» se calhar estão também a precisar de uma secagenzita…
Hoje ficas aqui connosco, disse-lhe o homem. Amanhã o jeep da cooperativa vai a Montemor e leva-te.
Jantou com eles sopa de couves com toucinho.
Tão quentinhas.
Tão boas.

António Claudino

Um conto em homenagem ao Pedro e ao Gama

domingo, 17 de março de 2013

Noite agitada

Porque é domingo,eis mais um conto. O Conto nono.

Sempre tendo presente a memória de Pedro e do Gama

 

Conto IX

Olhava para os escombros e ainda não queria acreditar.
Há poucas horas - muito poucas - havia ali estado, de guarda.
Os mais velhos, procuraram aliviar a tensão. Um deles atirou-lhe: «Tal não foi a tremedeira? Hein? Foi tanta, que esta merda não resistiu».
Durante a noite, ele e vários outros camaradas da terra haviam montado postos de vigilância em vários pontos da aldeia.
Ainda há pouco se tinham aberto as portas da liberdade e já a sacanagem do antes, punha os dentes e as patas de fora. Assaltos a centros de trabalho do PCP e de Sindicatos, agressões e emboscadas a camaradas, searas incendiadas. Tudo à boa maneira fascista, cujos hábitos não tinham perdido.
E era face a esta onda reacionária que naquele verão se mobilizavam os comunistas e outros democratas.
E assim fizeram os de Lavre, naquela e noutras noites.
Munidos de caçadeiras, montaram guarda. Ao centro de trabalho do PCP, à sede da UCP, a searas e pilhas de cortiça, às entradas da aldeia.
Combinaram entre si sinais. Em caso de gravidade disparava-se e todos os outros sabiam que tinham de acorrer ao local do disparo.
Da parafernália constava, para além da já referida caçadeira, um  agasalho para a noite - sabemos todos quanto são frescas algumas das madrugadas de verão -, algum pão, navalha, linguiça ou um queijo, uma garrafinha - daquelas da cerveja sagres - de tinto e alguns, acrescentavam, um bagacinho daqueles de fazer cair os dentes.
Nestes pequenos núcleos de guardiães da revolução as mulheres não entravam. Nem tal seria pensável. Muitas delas não sabiam sequer ao que iam os maridos ou os filhos. Segredos revolucionários guardados em masculino.
Convém ter presente que a Revolução era ainda uma criança e para mais uma criança já tão mal tratada.
Aos poucos, o discurso e depois algumas práticas de igualdade, passariam a fazer parte das preocupações, mas por enquanto, os redutos são masculinos.
Naquela noite, na noite que dá origem a esta narrativa, já tinha acontecido um episódio rocambolesco.
O José Pedro, dado a alguns excessos no uso dos álcoois, abusou do bagaço e o corpo ressentiu-se. No adro da Igreja de S. Sebastião - um ponto altaneiro numa das entradas da aldeia - lugar que lhe havia cabido na distribuição das posições, enroscou o agasalho e tendo-o como travesseiro, rendeu-se às pressões etílicas e ferrou o galho.
Acordou destrambelhado e  ainda hoje sem se saber como, na ânsia de retomar o posto  e o estado de vigília,  quando procurava empunhar a caçadeira, esta dispara-se  e dá sequência a toda uma grande confusão.
Conforme combinado, todos os outros acorreram à Igreja de S. Sebastião. Alguns, para marcar logo posição, desatam também aos tiros.
Àquela hora, quatro e meia, cinco horas, tal tiroteio criou o pânico e quase todos saíram das suas casas, uns de arma também em punho, outros armados de cajados, outros com o que tinham, roçadoras, marretas.
Demorou bem mais de uma hora até a situação estar completamente esclarecida.
Muitas mulheres tiveram então oportunidade para saber das razões das ausências de maridos e filhos.
Amanhecia e era garantido que a maioria dos que haviam saído abruptamente das suas casas, já não iam voltar à cama. O dia de trabalho estavas prestes a iniciar-se.
Mas eis que de novo se instala a confusão. Um barulho seco e estrondoso ecoou vindo dos lados da Praça.
«Há cabrões,  que nos apanharam distraídos e rebentaram com a sede do PCP» gritou alguém.
Nova correria. Novo tiroteio.
Chegados à Praça, esbaforidos, depararam com um monte de entulho e uma grande nuvem de poeira.
Demoraram-se alguns momentos até se conseguir ter uma percepção do que havia ali acontecido.
De novo serenados os ânimos, ficou claro para todos o que ali havia ocorrido.
As ruínas do prédio fronteiro à sede - o sitio que até há pouco havia servido de posto de guarda do João - o gaiato da Juventude, como era tratado - haviam desmoronado como um castelo de cartas.
Há anos que se encontrava ali aquela ruína.
Tinha pouco mais que as paredes laterais. O «miolo» já há muito havia caído.
Aquelas ruínas tinham uma  posição estratégica para servir de posto de guarda à sede do PCP.
Em tempos haviam sido um prédio de 1.º andar.
Conservara parte das escadas que então davam acesso ao piso superior e que agora permitiam chegar a uma das janelas, junto à qual existia uma pequena plataforma.
Nessa plataforma caberiam uma, duas pessoas se esta se aconchegassem.
Tinha sido precisamente aí que o João se havia instalado. Nessa plataforma junto à janela.
«Ficou lá a minha bucha» lamentava-se, «a garrafinha ainda estava meia e a navalha era nova, tinha-me saído numa rifa».
Deixa-te de lamechices disse-lhe um dos companheiros de milícia.
Tens razão, também a porcaria da linguiça até já tinha um gostinho a ranço.
E ala, que vai começar mais um dia de trabalho.
E de luta, disse o João por entre bocejos.

António Claudino

segunda-feira, 11 de março de 2013

Ode Mira

(ligeiramente atrasado…mas já explicado. Minimamente…)

Conto VIII


Uma vez mais havia fugido ao cumprimento das regras.
Era tão useiro esse seu comportamento como useira era a obstinação que punha no cumprimento de tarefas. Uma contradição em pessoa, como dizia a Cristina. Não lhe dissessem como, dissessem-lhe o quê e ele cumpriria.
Tinha uma reunião marcada, para apresentação, em Odemira, na sexta-feira. Para lá chegar só tinha  que apanhar  a camioneta que partia de Beja na tarde de quinta, pois esta chegava já noite a Odemira, bem depois da hora marcada para a reunião de apresentação.
Ele tomou de facto essa camioneta e partilhou a viagem até Aljustrel com o camarada que acompanhava esse concelho. Durante a viagem este falou-lhe da terra, do património de lutas, dos mineiros e das suas lutas e dos seus cantes.
Foi sentido em crescendo um apelo vindo dali.
E ele desceu em Aljustrel e disse: fico aqui contigo hoje, quero conhecer esta terra. Amanhã estarei em Odemira.
-Mas olha que não tens camioneta para lá estares a horas.
Não te preocupes. Lá estarei.
E nessa noite, percorreu a terra, entrou em tabernas, bebeu vinho e foi apresentado aos camaradas.
E ficou estarrecido com o som do cante que percorria as ruas e que saía das tabernas, cantado por grupos de homens naquele fim de tarde.
E ouviu as histórias das lutas e dos sofrimentos dos homens das minas.
Histórias com padrões idênticos às histórias de outras lutas que já conhecia doutros pontos deste Alentejo, mas que ali tinham particularidades que desconhecia.
E porque o interior da terra, as suas entranhas, era um cenário que se lhe apresentava como terrível, ele ouvia e imaginava a coragem necessária a esta gente.
No dia seguinte, bem cedo, fez-se à boleia. Não foi fácil. Mas apanhou boleia numa camioneta de distribuição de cerveja cujo motorista lhe pôs como condição que se descesse antes de chegar à vila: - sabes, não posso dar boleias, por isso vais ter de te descer um pouco antes de Odemira, não vá eu ter problemas - eu aviso-te quando for.
Largos tempos depois de um caminho sinuoso: É aqui - tens de te descer.
Agradeceu e fez-se ao resto do caminho - a pé. Dali já se avistava a vila, mas o raio das curvas da estrada, pareciam afastá-la.
Mais tarde do que havia imaginado quando se desceu da camioneta da cerveja, chegou a Odemira. Exausto (a noite tinha sido curta e o vinho tinha sido comprido).
Entrou num café e perguntou onde era a Câmara - tinham-lhe dito que o Centro de Trabalho era próximo da Câmara - e ficou a saber que ainda tinha que dar às sapatilhas, ainda era longe e quando no Alentejo ainda é longe…
Eram para aí umas duas da tarde e estava a chegar ao pé da Câmara. Tinha fome, mas não tinha dinheiro. O Centro de Trabalho era logo ali - estava fechado - e a loja de oculista, cujo proprietário lhe tinham dito, ter a chave, estava fechada. Teria que aguardar até às três da tarde, para que abrisse.
Vaguearam, ele e o apetite que o acompanhava, por ali. Sentiu que umas velhotas trocavam segredinhos à sua passagem amiúde. É normal. Estava habituado. Tinha feito tanta vez de estranho.
E assim esperava pelas três horas da tarde, que a loja abrisse. E viu que ali era outro Alentejo,  horizonte mais recortado por montes altos, campos mais verdes, menos sobreiros e azinheiras e um rio. Um rio já a sério que ele avistava circundando a vila e que ele sabia que se despedia do Alentejo ali para os lados de Mil Fontes.
Desceu até à sua margem. Junto à ponte havia um pequeno jardim com mesas de pic nic.
Aí se quedou. Sentou-se numa das mesas e tirou da sacola «Os esteiros» a sua companhia de agora e que devorava com prazer.
Nem deu pela fome nem pelo tempo que correu.
Eram quase quatro da tarde quando se apercebeu. Nas mesas em volta tinham-se juntado grupos de velhotes. Numa das mesas jogava-se uma agitada suecada.
Subiu a rua íngreme e dirigia-se à loja de oculista quando reparou que o centro de trabalho já estava aberto.
Entrou e ouviu: «Deves ser o Fernando! Não era para teres vindo ontem à noite?».
Lá se explicou e o camarada entretanto apresentou-se. Era o Cristóvão, um dos funcionários do partido em serviço em Odemira.
Já comeste? Perguntou-lhe este.
Ontem. Respondeu.
Tens aí um resto de caldeirada de sardinhas que fiz para mim. Podes comer.
Quase sempre reservado, mas agora não se fez rogado.
E que boa estava a caldeirada.
Sabes, disse-lhe o Cristóvão. Aqui é um pouco o nosso quartel general para os concelhos de Odemira e Ourique. Estou aqui eu, que tenho parte do concelho de Odemira - que é muito grande como deves saber - e o concelho de Ourique e está também outro camarada, o Manuel Francisco.
E onde está ele agora?
Foi almoçar a um tasco de um camarada nosso. Chegámos aqui já por volta das três.
Eu faço a comida mas ele é fino, vai sempre comer ao tasco. Ainda lhe propus que eu cozinhava e ele lavava a loiça, mas não quis. Disse o Cristóvão quando verificava que o Manuel Francisco já entrava no centro de trabalho.
Não quero morrer intoxicado com as tuas comidas - gracejou. Já chegaste? Dirigindo-se ao Fernando.
Sim e já comi e a caldeirada estava muito boa.
Gaba-o.
Sentaram-se e os camaradas apresentaram-lhe em traços gerais os concelhos, os quadros mais destacados e aqueles a que poderia recorrer em caso de dificuldade, os meios de transporte possíveis, os apoios possíveis nas freguesias.
Aqui o problema maior são as distâncias e a profusão de localidades. Uma ou outra é-nos mais adversa, agora Ourique… aí tens que ter cuidados.
Ah e aqui não há aquela coisa da separação juventude, partido. Aqui, talvez por causa das distâncias estamos todos no mesmo barco…
Ou então talvez por causa do mar estar tão perto..arriscou.
Olha o gajo é dado a piadinhas, sim senhor. Brincou o Cristóvão.
Bem o resto vais te apercebendo com o tempo. Está aí uma motorizada, que de forma planeada usamos e podes usar também, é só combinarmos.
Logo, deves ter aí uns 5 ou 6 camaradas não julgues que isto é Pias ou Montemor…marcámos para as sete. Mas daqui a pouco vem aí o camarada Marques, o oculista que te devem ter falado, e que te queremos apresentar. Ele é um pouco como uma referencia do partido aqui em Odemira, todos o conhecem e respeitam - um comunista à maneira - se ganhares a confiança dele, tens ali um amigo.
O Marques tinha um ar austero e cara de poucos amigos, mas cedo deu para perceber que tinha um grande coração. Parecia conhecer todo o Alentejo e falava-lhe de camaradas de Montemor, de Avis, de Évora e queria saber deles e perguntava pela família e acima de tudo queria saber do seu empenho e militância comunista.
Tiveram que interromper a conversa que prometeram retomar depois. Eram sete horas e a reunião ia começar.
Quase como tinha previsto o Cristóvão. Compareceram quatro camaradas. A Rosa e a Francelina que trabalhavam no secretariado concelhio das ucp(s), o José António que trabalhava na Câmara Municipal e o Francisco que trabalhava num café, o café que ficava ao pé do rio, junto ao jardim onde tinha estado quando chegou.
Tive quase para me meter contigo, mas não tinha a certeza se serias tu, disse-lhe o Francisco, no final.
Entretanto, o Cristóvão que tinha ido a S. Luis falar com um camarada, já regressara.
Se quiseres ensino-te a cozinhar vais ver que é uma aprendizagem fundamental para a sobrevivência. Queres aprender?
Claro.
Havia no centro de trabalho uma pequena cozinha e nela uma frigideira, um tacho, uma panela, alguns talheres e copos. Fogão de um só bico e um velho e enferrujado frigorífico completavam o equipamento.
O Cristóvão assumia-se como o cozinheiro do quase nada. De quase nada fazia um pitéu.
Levando em linha de conta a caldeirada que havia comido à tarde, estava tentado em reconhecer-lhe o estatuto de artista. Ou seria da fome?
Pois agora vamos fazer sopa de cação para o jantar. Para começar vais aí ao quintal que é do camarada Marques e trazes uma boa mão cheia de coentros, deves saber o que são coentros, não és alentejano?!
Claro que sei.
Vá rápido. Não tragas salsa.
Rápido foi. Tão rápido que não trouxe os coentros.
Atão?!
Podias ter-me avisado do cão. Quase me abocanhou as nalgas.
Ah! O freitas. Ele tinha o cão à solta?!. Bastava esticares um dedo que ele até se agachava e metia-se na barraca de rabo entre as patas. Deixa estar que eu vou lá enfrentar aquela fera. O  freitas, pobre bicho, mais manso que as coisas mansas. Chi.
E assim foi, num ápice voltou com uma mão cheia de cheirosos coentros.
Não demorou muito a sopa a estar pronta. Foi ajudando, seguindo orientações: descasca cebola, pela dois dentes de alho, lava e corta os coentros.
Caldo espesso, fumegante, aromatizado, dois ovos escalfados, vertido sobre sopas de pão duro cortado finamente.
Saborosa. Muito saborosa e acompanhada com um tinto muito bem encorpado.
Um manjar de ricos, disse o Cristóvão.
Só não percebo porque é lhe chamaste sopa de cação. Só te vi pôr farinha e os ovos.
Ah. Pois foi. Esqueci-me de pôr o cação. Deixa estar, acho que de qualquer forma não tínhamos.

António Claudino

11 M

 

Por razões que não se incluem no uso que tenho como adquirido dar aos escritos do «espojinho» , não me foi possível dar continuidade «ao domingo» da publicação dos contos que o meu amigo António Claudino me tem feito chegar.
Como sabem, já publiquei - se a memória não me atraiçoa - sete contos. Sete pequenas estórias de pequenos acontecimentos que ganharam grandes dimensões na vida dos seus personagens.
Obviamente que os contos são ficção. Mas uma ficção onde o António Claudino coloca personagens  que agem num tempo em que muitos de nós fomos atores.
E por essa razão a razão para que eles se constituam como uma homenagem ao Pedro e ao Gama.
Atores desse tempo que marca o tempo de hoje.
E é desse tempo a primeira referencia a um 11 M.
11 M esse, que repôs Abril no caminhos de Abril.
Um 11 M, esse, do longínquo colorido, vibrante e esperançoso 75 (o vilipendiado).

E como negação desse…
Um  11 M, com M para escrever medo. Com que também se escreveu  morte.
M, com que não se escreve cobardia mas que foi com ela que mancharam vidas e Madrid.

Um outro 11 M  longínquo  este nas coordenadas, mas próximo,  na partilha da dor.
Uma conjugação da natureza e de erros do homem.
E uma tragédia que recordamos.

Mas  11 M, também pode e deve ser  afirmação de esperança.
Que assim seja então.

11 M = Esperança.