quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Centro Histórico de Évora

Nota de enquadramento: Quando se aproximam as eleições autárquicas e com elas temos a oportunidade de escolher as pessoas que queremos à frente dos governos das nossas cidades e quando, teimosamente acredito, que essa escolha por parte de cada um de nós é efetuada com base numa criteriosa análise aos programas com que essas pessoas se apresentam perante nós, eleitores, julgo importante publicar o artigo que se segue e que um amigo me fez chegar.

Trata-se de um contributo para analisar os graves problemas com que se defronta o CH de Évora, classificado pela UNESCO Património da Humanidade.

Assim o exemplo tenha sequência.

Porque senão a campanha eleitoral será uma enorme chalaça (ver, Diário do Sul , 22.08.2013 – arrazoado de um tal Chalaça – uma chalaça pegada).

 

Uma abordagem em torno da dinâmica populacional

1991 - 2011

 

Confesso que, nos momentos em que tudo parece ser analisado pela lógica dos números e de rácios construídos, cheguei a considerar contraproducente abordar a temática populacional.

De facto, eliminam-se feriados e atenta-se contra a memória histórica em nome de um rácio que se estabelece entre o PIB e cada um dos dias do ano, encerram-se maternidades e forçam-se partos à beira da estrada, por vezes em país alheio, por força de uma relação que se estabelece com base no número de parturientes por ano, encerram-se serviços públicos, carreiras de transportes públicos, estações de correio e postos das forças de segurança, sempre com base nos mesmos argumentos.

Por isso, repito, o meu constrangimento em abordar a dinâmica populacional do Centro Histórico de Évora nos últimos anos. É que, face aos números temi que se corre-se o risco de alguém propor como solução, que o mesmo seja fechado.

Imaginemos o letreiro, provavelmente redigido em Português, Francês e Inglês: «Por motivos de uma diminuição acentuada de população e consequente diminuição de receitas, vemos-nos forçados a fechar o Centro Histórico. Para qualquer assunto, toque a campainha s.f.f.»

Mas, como considero que, apesar desta perspectiva, o desconhecimento dos factos ou mais apropriadamente o alheamento sobre os mesmos,não é de certo estratégia e são mesmo razões, entre outras, para a ausência de medidas de correção da tendência e que, sem elas, o cenário irónico pode muito bem ser o cenário real dentro de pouco tempo, trago para reflexão, alguns números:

População do Centro Histórico de Évora (1991 - 2011)

 

Freguesia

1991

2001

2011

Saldo entre 1991 e 2011

St. Antão

2068

1473

1303

765

S. Mamede

2920

2170

1725

1195

Sé e S. Pedro (1)

2894

2025

1691

1203

Total

7842

5668

4719

3 163 (40,3%)

Fonte: Para a generalidade dos dados : INE - Censos 91;01 e 11

(1) Esta freguesia foi criada em Julho de 2007 e resulta da junção da anterior freguesia de S. Pedro com a parte remanescente da Freguesia da Sé, situada dentro das «muralhas» (Centro Histórico). A freguesia da Sé foi extinta e deu lugar às Freguesias urbanas «fora das muralhas»: Bacelo, Horta das Figueiras, Srª da Saúde e Malagueira.

(2) Soma do n.º de habitantes da Freguesia de S. Pedro com o resultado da aplicação de um cálculo sobre o número de habitantes da parte remanescente da Freguesia da Sé (Fonte: Anexo PDM - CME).

A perda de 3163 habitantes em vinte anos, o que representa 40,3% face à população de 1991 demonstra friamente, uma preocupante realidade. O CH esvazia-se de gentes e consequentemente de funções.

Basta percorrermos as suas ruas, becos, ruelas e praças para constatarmos «in loco» os efeitos destes «números»: casas degradadas, comércios encerrados, solidão.

E só o facto de algumas funções ainda se manterem no CH (como por exemplos, a hospitalar, a cultural1 a financeira2) a que se juntam as consequências da existência de uma Universidade (cujo campus é o próprio CH) vai contribuindo para «mascarar» o problema.

Mas os  efeitos resultantes da ainda concentração dessas funções no CH são transitórios e tem pouca expressão na dinâmica populacional.

O CH de Évora funciona com horário de escritório das nove às sete e como destino mais tardio para noctívagos em busca dos bares.

O arrendamento temporário, no CH, de casas e quartos por parte dos estudantes deslocados, sofre os efeitos da diminuição do número de alunos (consequência da grave crise económica do país e de uma política de ensino cada vez mais restritiva aos que têm pouco) e por outro lado, também de uma oferta crescente «fora das muralhas» de maior qualidade.

Os bares e os hábitos associados ao seu uso, se por um lado trazem população flutuante à noite na cidade, são por outro, factor de perturbação com a população residente envelhecida e com hábitos de vida diferentes a queixar-se das constantes violações ao seu direito ao descanso.

Não estão devidamente identificadas as causas determinantes para este êxodo populacional (verifique-se que ocorre em sentido diverso à dinâmica geral da cidade e até mesmo do total concelhio3) mas não é difícil supor como sendo prováveis: as de natureza administrativa e patrimonial; a área reduzida da maior parte das habitações; os custos de recuperação; as dificuldades de realização de obra; os acessos, as normas apertadas no uso de materiais e de construção; as problemáticas associadas ao carro (tornadas culturalmente centrais); a inexistência de profissionais habilitados à recuperação, a difusão e assunção de determinados «valores culturais», serão certamente, algumas delas.

A par da perda de efetivos populacionais, acrescem como problemas, os que derivam da estrutura etária nomeadamente os indicadores de um acentuado envelhecimento.

Estrutura demográfica da população do CH


1991 T 2001 T 2011 T

00-14 15-24 25-64 >65 00-14 15-24 25-64 >65 00-14 15-24 25-64 >65
Sé S. Pedro 373 317 1392 772 2854 164 210 922 729 2025 142 160 844 545 1691
% 13,07 11,11 48,77 27,05
8,1 10,37 45,53 36
8,4 9,46 49,91 32,23
















S.Mamede 420 360 1405 735 2920 205 241 990 734 2170 138 165 851 570 1724
% 14,38 12,33 48,12 25,17
9,45 11,11 45,62 33,82
8 9,57 49,36 33,06
















Sto. Antão 227 238 1039 564 2068 118 173 654 528 1473 124 107 672 420 1323
% 10,98 11,51 50,24 27,27
8,01 11,74 44,4 35,85
9,37 8,09 50,79 31,75
















Total CH 1020 915 3836 2071 7842 487 624 2566 1991 5668 404 432 2367 1535 4738

13,01 11,67 48,92 26,41
8,59 11,01 45,27 35,13
8,53 9,12 49,96 32,4

 

No total do CH a população com mais de 65 anos passa de uma percentagem face ao total, de 26,41% em 1991 para 32,4% ao mesmo tempo que a população com menos de 15 anos passa de 13,01% para 8,53%.

Acrescente-se que este cenário ocorre num contexto, já descrito, de forte diminuição de efetivos.

Para uma outra abordagem, haveria a necessidade de analisar outros outros indicadores nomeadamente ao nível da mortalidade, dos saldos naturais e migratórios.

Esta estrutura etária dá origem aos índices seguintes:



Indice Juventude ìndice Envelhecimento Indice Dep Idosos

Sé e S. Pedro

1991 48 207 45

2001 22 445 64

2011 26 384 54

S.Mamede

1991 57 175 42

2001 28 358 60

2011 24 413 56

Sto. Antão

1991 40 248 44

2001 22 447 64

2011 30 339 54

Total CH

1991 49 203 44

2001 24 409 62

2011 26 380 55

Assim, enquanto em 1991, a relação entre o n.º de jovens e o n.º de indivíduos com mais de 65 anos era de 49, em 2011 essa relação passa para 26. Ou seja, para cada 100 indivíduos com mais de 65 anos, existem 26 com menos de 15.

O índice de envelhecimento passa de 203 para 380 e o índice de dependência de idosos (relação entre o número de indivíduos com mais de 65 anos e os que situam entre os 15 e os 64) de 44 para 55.

Procedendo à comparação com os contextos: concelhio, regional (Alentejo sem a NUTS Lezíria do Tejo) e nacional (continente) (dados 2011):

 

Índice Envelhecimento

Índice dependência idosos

Centro Histórico de Évora4

380

55

Évora (total concelhio)

138

30

Alentejo (sem Lezíria do Tejo)

194

41

Portugal (continente)

131

29

O quadro mostra à evidência que, os valores registados no CH para os dois índices são extraordinariamente superiores, seja qual for o contexto base para comparação.

A conclusão possível para o demonstrado, quer nesta questão do envelhecimento, quer na diminuição dos efetivos populacionais só pode ser: temos aqui um problema, grave.

Vejamos em seguida sobre a perspectiva comparativa do efetivo populacional do Centro Histórico com a população da cidade.

Relação do peso populacional do CH com a cidade

  1991 2001 2011
Cidade (1) 38952 41164 42092
C. H. (2) 7842 5668 4719
Peso Relativo CH/Cidade 20,13 13,77 11,21

1.Operacionalizado através de um rácio estabelecido entre o somatório das Freguesias “da cidade” e a população que corresponde ao interior do seu perímetro urbano - cidade de facto. Tal atitude já é tomada quando dos trabalhos de caracterização que constam dos anexos à revisão do PDM, no entanto, segui critério ligeiramente diferente (que produz resultados com diferenças praticamente inexpressivas) e, considerando que o (INE - Atlas das Cidades - 2004) com base em dados dos Censos de 2011, identifica para a cidade 41164 habitantes, não só trabalhei com esse dado para 2001, como estabeleci a relação com a população das freguesias já referidas e apliquei rácio obtido (91,87) a 1991 e 2011.

O quadro reforça o que já se havia demonstrado: o esvaziamento populacional do Centro Histórico, teve neste últimos 20 anos expressão muito expressiva.

Para a análise desse processo e sem se pretender de forma alguma minimizar os factos, não podem deixar de ser considerados os factores seguintes:

Ao invés do que ocorre na zona «extra muralhas», no CH são naturalmente escassas as possibilidades de oferta de terreno para construção nova.(Anotemos por exemplo, como exceções: Edifício de St. Catarina; Convento de S. Domingos – onde se verificou um misto de reconstrução e de construção nova) e Cerca de Stª Mónica;

Por outro lado,

Não seria certamente de bom censo, esperar que a população do CH tivesse hoje níveis semelhantes aos verificados nas décadas de 60 ou 70. Os níveis de qualidade de vida e as exigências atuais são incompatíveis com a densidade populacional que então se verificava.

Ressalvadas que sejam estas duas premissas, convém não as levar em excessiva linha de consideração ou seja, partir da sua constatação para justificar o que não justificam para o todo (só para uma parte) do problema.

 

Não cabia no objectivo desta abordagem apresentar propostas ou sugerir medidas.

Pretendeu-se minimamente contribuir par o diagnóstico do problema e como se afirmou o mesmo é muito grave.

O Centro Histórico de Évora está em grave declínio e deve ser encarada com urgência terapia que estanque o problema e que tenha as pessoas no centro das suas atenções.

Por mais bonito e grandioso que seja o enquadramento paisagístico da acrópole e por mais pujante que possa estar o Templo, convém não deixar de ter presente que as cidades são a sua condição e as pessoas que as habitam.

Um Centro Histórico sem gentes a habitar as suas casas e fazer das suas ruas as suas convivências, é um espaço sem «património».

1 No essencial, por força da localização do Teatro e da generalidade das sedes de associações.

2 E já com muitas e significativas exceções.

3 Embora ligeiro, há crescimento populacional no total concelhio, diminuição no espaço rural (e no CH como estamos a constatar) e crescimento na zona de transição (Canaviais).

4Conceito operacionalizado de acordo com as referencia já aqui prestadas

domingo, 11 de agosto de 2013

Carta a uns amigos que estão longe

 

Era uma coisa  muito em uso, antigamente.
Escrever cartas.


Escreviam-se cartas aos filhos emigrados. Aos filhos no ultramar. Aos filhos, em Portugal, mas distantes.

Sim, porque as distancias dentro deste pequeno país eram então muito grandes e só as cartas, trocadas de quando em vez, as atenuavam.


Havia até uma trágica simbologia nos envelopes que encerravam as cartas.
Dois traços negros sobre o canto inferior esquerdo e tal significava luto.
Por avião, marcas azuis e vermelhas e tal significava distância e ansiedade.
Quase sempre destinadas a filhos e namorados em África em guerra.
Morrendo sem chegar a saber por quê, matando, sem saber como.
Cartas.


Os melhores escrevedores de cartas eram os gaiatos e gaiatas fresquinhos de saber escrever.
Sabiam e não interrogavam.
Não sabiam interrogar.
Nem se viviam então tempos propícios às interrogações.
Simplesmente escreviam o que lhe ditavam as velhas mães que não sabiam escrever.

Às vezes, por entre as palavras escritas, partilhava-se um pouco da solidariedade dos que nada tinham.

Uma nota de vinte para matar saudades e para transferir fomes ligeiramente saciadas.


Salvaguardando episódios recentes, as cartas caíram em desuso.
De tal forma que alguns, associam agora ao termo, as  cartas de naipes dos jogos on line em que se entretêm.


As cartas, como forma de comunicar, de matar saudades, de dar notícias, já quase não se usam.


Pomos no facebook  ( quem põe) as fotos e umas baboseiras, enviamos em linguagem encriptada uns sms, mas já não escrevemos cartas.
Pois, teimoso como sou, decidi hoje escrever esta carta.
Dirigida a vocês, meus amigos que estão longe.
Dantes, começavam assim: «antes de mais, espero que esta minha carta vos encontre de saúde junto daqueles que mais querem».
Por aqui, o verão manda-nos mais um sinal do seu carácter. Ou é ou não é. Verão é quente e seco. Por aqui é verão.
Sei que não é por aí.
Pudesse eu e enviaria nesta carta um pouco deste verão daqui.
E vocês retribuiriam, eu sei,
Para além do calor e da merda de governo, parece que nada mais acontece.
Muito fogo de artifício. Swaps. Falcatruas ao mais alto nível ainda do BPN.
Portas que saem e ficam.
Secretários que vendiam o que agora se preparavam para renegar.
Um país que parece que foi para férias e não foi.
Um país onde se continua a brincar com os números e onde se diz, sem se corar, que baixou o desemprego.
Um país que se prepara para autárquicas  e onde os governantes se estão cagando para os votos.

Também nos despedimos há pouco de um Homem que não sei se chegaram a conhecer.

Urbano Tavares Rodrigues.

Alentejano. Escritor. Comunista.

Despedimos-nos do Homem mas fica-nos a obra e o gosto sabor de poder dela desfrutar.


É este o país do qual vos quis escrever esta carta.
Eis então que assim segue.
Mas vós sabeis que também é o país onde ainda  florescem cravos de Abril.
Mesmo que em Agosto.
Ou Setembro.
Talvez estejam mais vermelhos em Setembro próximo.
Esperemos.
E, por outro lado e apesar de tudo.
Mesmo apesar de tudo.
Em setembro, temos a festa.


A do Avante, claro.
Um abraço

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Aparentemente soltas

 

Selo Branco

Ficamos a saber que o diploma que impõe as 40 horas de trabalho e que permitem o despedimento na FP seguiu para a Presidência da República para ser aposto o selo branco.

Porquê?

Se alguém souber chegue-se à frente: se há Fps a mais, se os que há trabalham pouco, porque é que se vai aumentar o horário para as 40 horas?
Não me digam que é por mera represália?
Não acredito?
Os senhores do governo são tão sérios!

Traque

A propósito de swaps lembrei-me de uma anedota que em perfeita consonância literária, atribuem a Bocage. Terá ele dito: o traque que aquela senhora deu, não foi ela, fui eu.

Nova profissão

Primeiro sob uma capa auto considerada branca e agora sob a batuta do BE começa a surgir no mercado uma nova profissão, a de reguladores de voto de cada um.
A expandir-se, a coisa promete.

É a lei . É a lei

Proclama a esquerda moderna.
E ei-los de espada em riste defendendo-me da minha pobre e indefesa incapacidade.
Ai se não fossem eles eu até era capaz de ir votar num corrupto.
Livra.

É a lei. É a lei

E eis que já vejo a esquerda moderna a apresentar previdências cautelares por tudo quanto é sitio para que o Código do Trabalho se cumpra escrupulosamente, para que as 40 horas se apliquem em todo o lado (atenção à Madeira ), para que a mobilidade para o desemprego não deixe de ser aplicada.

É a lei.

Enjalecados

Porra. Aqui na minha cidade não há rotunda que não esteja jaleca.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O peso do arco três

Sobre o vernáculo: Crise

Quando classifiquei de vernáculo o vocábulo crise fi-lo, partindo de duas ordens de razão, a saber:
Uma, por o considerar de uso próprio a uma determinada tribo e uma outra, assumindo aqui a minha luneta, na perspectiva ideológica.
A tribo de que dele faz uso é a tribo da alta finança, dos jogadores de roleta, dos homens e mulheres sem escrúpulos.
A ideologia que lhe associo é a ideologia dominante, a que enquadra os discursos recorrentes através dos quais justificam as medidas que pretendem e que nada mais não do que baixar salários, destruir direitos, aumentar os lucros.
Se Pessoa dizia que a sua pátria era a língua portuguesa, a pátria dos membros desta tribo é o dinheiro.
E a sua honra é aquela que lhe vimos e que se expressa nos expoentes máximos de isaltinos, oliveiras e costas, duartes lima.
E que se expressa também naqueles que não têm pudor nenhum em terem recebido rios de dinheiro vindos do mixordeiro do bpn.
É com esta honra que impõem aos honrados que paguem o que eles desbarataram.

Sobre as vitimas que votam nos carrascos

É um trabalho interessante e sempre adiado: Procurar saber as razões subjetivas que determinam o sentido de voto.

Mas, com recurso aos mecanismos do senso comum, pode-se fazer a tipologia seguinte:

Tipo I - O sentido de voto é consequência de um estado de maturação ideológica já devidamente elaborado e traduz-se regra geral numa fidelização das opções. Representam uma pequena parcela dos eleitores. Não se verificam grandes oscilações.

Tipo II - O sentido de voto corresponde a uma apreciação a cada momento e obedece a adaptações circunstanciais diversas. São os que são mais influenciáveis pelos candidatos em detrimento dos seus programas. Esta influência pode resultar da tentativa de equiparação a modos de vida, ser resultado de influência de familiares e amigos. Apresenta elevados valores de volatilidade. Não representam um número muito expressivo de eleitores.

Tipo III - O sentido de voto é facilmente fabricado. As televisões, as sondagens, a onda. São largamente maioritários e oscilam em torno os dois principais pilares do arco. Ou agora é PS ou logo é PSD.

Tipo IV - Os antipolíticos fabricados. Os anti tudo. Os que proclamam sempre: «eu cá não votei neles» ou «eu quero lá saber, eles são todos iguais». São muito numerosos e há uma clara tendência de crescimento. Dividem-se entre votantes e abstencionistas crónicos. Quando votam (retirando quase sempre inexpressivas variações) comportam-se como o eleitor Tipo III.

Tipo V- Grupo muito reduzido de eleitores responsáveis que ainda procuram o sentido do seu voto.

Para quem como eu, partilha o sentido da plena responsabilidade dos eleitores (ou seja, se vota é co- responsável pelo resultado) merece especial atenção (e grande preocupação) a constatação de que a grande maioria dos eleitores se enquadram nas tipologias III e IV.

Há um longo percurso a percorrer.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O peso do arco dois

O peso do arco (2)

(não é inocente este trocadilho entre título e subtítulo – prefiro o título)

Volto, tal como havia afirmado, à questão do peso do arco.
Recordo que o arco, é referente a expressão comum em Portugal e que se traduz mais concretamente no que os politólogos entendem como arco do poder ou arco governativo.
Em português significa: PS;PSD;CDS.
Para os portugueses, significa: 38 anos de alternâncias sem alterações.
Este arco, assenta assim, em sólidos pressupostos de ordem teórica e que em minha opinião se enquadram nas teorias do fim da história a que também já aludi.
Foi Francis Fukuyama, que deslumbrado com a queda do muro de Berlim e olhando o mundo através das suas lunetas ideológicas, considerou que não havia mais caminho e que havíamos chegado, com o capitalismo e a democracia burguesa, à sociedade sem antagonismos, ao equilíbrio.
Ao equilíbrio de que Hegel já havia falado, mas que considerava adiado.
Pois poucos anos bastaram, somente os que nos distanciam de 1989, para verificarmos o quanto desequilibrada está a sociedade perfeita.
E o quanto convulsa em busca de um caminho que sabe que tem que percorrer mas não sabe ainda em que direção.
Parada não está. O que Fukuyama pode ter considerado um fim, pode ter sido simplesmente uma paragem para clarificações.
Pois em Portugal e aqui há mais anos,  estamos parados (ou antes tivéssemos, porque o que se passa é que estamos em movimento de regressão em muitos aspectos) debaixo deste arco, que embora com enormes fissuras, insiste em manter-se e em manter sob si um povo cada vez mais pobre.
Os episódios últimos, para manter este arco estável, são de índole a aconselhar todo o cuidado verbal.
Mas a imensa falta de vergonha dos atores deste arco é no mínimo, um absurdo.
Atente-se, só em pequenos trechos:
Os atores do arco, os que apelam à nossa honra para pagamento da divida, são os que  ganharam rios de dinheiro vendendo ações do BPN e quem paga os mais de 4 mil milhões que resultaram dessas «brincadeiras» financeiras, são …
Os atores do arco, saem de ministros, para os bancos, dos bancos para os ministérios, dos ministérios para Bruxelas, dos ministérios da tutela para as empresas tuteladas e para o desemprego, para os salários miseráveis, para as pensões de valores desumanos saem…
Os atores do arco ganham eleições fabricando ilusões e depois recusam dar de volta o voto a…
Os atores do arco falam como se daqui não houvesse saída.
Veremos…

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O peso do arco

 

Grassa hoje, um pouco por todo o lado, neste mundo onde se globalizou o discurso dominante, um ruído ensurdecedor .
Projetaram-se primeiro as ideias dos fins.
Do fim da história. Do fim das ideologias e outros fins .
Procurou-se assim consolidar as inevitabilidades  e a ideia de que o patamar onde nos encontramos é o ponto de chegada. Que não há mais caminho a percorrer.
Decretou-se, ruidosamente e à escala global, o fim da História e associadamente o fim das ideologias.
Ruidosamente e com cobertura intelectual.
Mas o que era a génese desse auto proclamado rico e novo paradigma era simplesmente a transfiguração de velhos e gastos preceitos.
Em suma, os novos preceitos, não eram mais que o velho «ajoelhai irmãos» e de outras expressões similares e anteriores.
E ajoelhai porque o mundo é Capitalista e a ideologia triunfante é a sua.
A história parou aqui e não há mais linha a partir daqui.
E assim têm agido e daqui rodopiam para interpretações enquadráveis.
Tem sido com base nelas que os políticos da política institucionalizada - Em Portugal ganha o bonito nome de arco do poder e inclui PS;PSD e CDS - se têm permitido fazer a ideologia da política como coisa abominável e terreno fértil para a corrupção.
Porque interessa aos políticos do arco, de todos os arcos, que não se faça política, ou melhor, que aqueles que a não sabem fazer, não se metam nela, até porque não há nada a fazer.
As coisas são assim.
Pronto.
Assim se começa a generalizar  a preocupante ideia de que sem políticos, a sociedade seria mais bem gerida.
Mas, atente-se que, por político se entende alguém que se sujeita o voto dos seus pares.
Se hoje o capital, já fabrica e faz eleger os seus políticos - os do arco, friso - na situação que alguns defendem alternativa (a meritocracia, uns), então teriam a vida extraordinariamente facilitada.
Não precisariam mais de embustes.
Eles escolhiam a seu belo prazer.
Presenciámos, recentemente, em Portugal, a expressão prática desse entendimento.
Quando o povo clamava por eleições.
O capital, acantonado nos palácios onde colocou os seus políticos, impôs, mesmo que num enquadramento miserável de completa falta de vergonha, a continuação de mais do mesmo.
Seria perigoso, muito perigoso, para Portugal, marcar eleições, balbuciaram.
Tal só ia agravar a crise (voltarei a este vernáculo) e o povo não estava em condições de perceber…
Eu vou voltar a esta questão, mas porque por agora, a coisa já vai longa,, não posso deixar de reafirmar que, mesmo correndo o risco dos homens do arco continuarem maioritários (essa é também uma outra questão, ou seja, porque é que as vitimas escolhem os carrascos), frisando, mesmo correndo esse risco, prefiro-o mil vezes proclamado, a uma qualquer meritocracia fabricada pelos políticos antipolíticos.

É pesado o peso do arco. (1)