domingo, 3 de novembro de 2013

ONDAS

 

Não há – melhor dito, quase não há – terra, terreola, vila e vilarejo que não tenha um parque de feiras e exposições.

Por vezes, recheados com os pomposamente chamados pavilhões multi uso, outras, simplesmente, meros recintos aramados.

Não será certamente, por mera influência destes novos espaços, mas a verdade é que, paralelamente a este crescimento «logístico» ocorre o definhamento das feiras.

Muitos – e preocupantemente, muitos destes com responsabilidades na gestão autárquica – dominados por uma produção de discurso homogeneizado, esquecem os valores identitários da cultura e importam soluções tipo sopa de pacote.

A Feira de S. Francisco em Redondo era bonita e atraía quando preenchia as ruas da vila desordenadamente. Agora, cercada e aramada, perdeu áurea.

A Cozinha dos Ganhões, uma primeira referência no capítulo das feiras ou mostras gastronómicas, virou mais do mesmo. Uma coisa sem raiz, sem memória, sem futuro.

Nas feiras tem que se cheirar a fritos de massa – porra frita, burrinhol, farturas - , o cheiro do frango assado tem que ser misturado com o cheiro do polvo assado na brasa. Tem que haver pó e ruas augadas.

As conversas têm de ser sussurradas porque os carrinhos, os carroceis, as rodas e outras ilusões difundem a música e os anúncios de forma estridente.

Tem de haver quinquilharias, deslumbrantes relógios que vão marcar por curto tempo os nossos dias que queremos longos, ladainhas, «abra o olho, são cinco euros», botas, sapatos, cintos, gravatas, gelados de máquina, tudo em organizada convivência anárquica.

O que fizeram às feiras, foi destrui-las.

Modernizar não significa descaracterizar.

No sábado visitei a Feira dos Santos em Borba.

Deixou de ser dos Santos (aqui, com a ajuda de Passos) e passou a ser dos Finados.

Uma Feira, mais uma, finada.

Segundo ouvi, passou a ter uma distribuição espacial policêntrica.

Só consegui encontrar parte.

Com sorte, ainda consegui comprar figos, passas de abrunho e pouco mais.

Salvem as feiras.

D’a Sopa de Pedra

sábado, 2 de novembro de 2013

Os meus demónios

Sentei à minha mesa

Os meus demónios interiores

Falei-lhes com franqueza

Dos meus piores temores

Agradeço, obviamente, a Jorge Palma, a introdução que me permite falar dos meus…

Dos meus fantasmas, obviamente.

Juntei-os à minha mesa e nada me disseram.

Não sei porque carga de águas tenho por obrigação voltar a juntá-los.

Fico quase com a sensação que vou ter que elaborar um guião.

Coisa agora em moda, quando nos querem distrair.

Esperei que o D´a Porta Nova me falasse da nova governação da minha cidade mas dele só fiquei a saber que preciso de aguardar…

Cuidado. Enquanto aguardamos, alguém se movimenta.

Esperei que o D´o Jardim de Diana me falasse dos planos maquiavélicos (coitado… de Maquiavel) com que a direita fascistóide quer destruir Abril…

Esperei até que, e já em desespero de causa, o D´a Sopa do Pobre, me trouxesse uma sugestão…uma só que fosse…sei lá…com coentros e ovos à mistura, mas …

Nada. Nada me trouxeram.

Os meus fantasmas nada me trouxeram.

Pois, sendo assim.

Assina: O Espojinho.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Eles andam aí…

Sim.

Cada vez mais perigosos…e descarados.

Quem por aqui passa, sabe que por mais que uma vez, se chamou a atenção para o facto de estar em marcha um processo de perda continuada dos valores democráticos e consequentemente, em construção, um sistema ditatorial.

Nessas chamadas de atenção referimos que os contornos dessa ditadura não seriam observáveis à luz da comparação com as práticas conhecidas e associadas à ditadura do nosso passado recente.

Não precisarão de chicote, prisões, torturas, denuncias.

Citámos Boaventura Sousa Santos e falámos daquilo que este define como fascismo social.

PSD e CDS coligados no governo estão profundamente empenhados nesse processo. Os ataques quase frenéticos que vêm fazendo à Constituição, os desafios e afrontas diários e o eco de que precisam fazer reunir (declarações de António Barreto, por exemplo) são a clara expressão dessa vontade.

A Constituição é só um dos últimos obstáculos que têm de ultrapassar…

Maioria já têm, governo já têm, presidente já têm, comunicação social amestrada já têm e os magnatas das finanças já têm tudo isto.

E nós, cada vez menos direitos…

E eles até nos podem manter o direito de expressão…desde que nos expressemos dentro das ordens estabelecidas… nada de perturbação da ordem pública!

E esta, pode ser a ideia aqui desabafada, mas o que é um facto é que ela começa a ser partilhada por muitos.

Exclusivamente por razões associadas ao espectro ideológico de partida, refiro as tomadas de posição recentes de Jorge Miranda e Freitas do Amaral. O primeiro considerou impróprios de um estado de direito os ataques dirigidos à Constituição e ao Tribunal Constitucional e o segundo alertou que, a continuarmos assim, qualquer dia estamos em ditadura.

Atentemos…

D´o Jardim de Diana

sábado, 26 de outubro de 2013

OUTONICES…

 

A chuva tem andado por aqui. Por vezes forte.

É outono, diz-nos ou procura lembrar-nos.

E esse não sei quê de outono sente-se também na forma como vamos enfrentando as agruras da vida.

Aviso vermelho para mau tempo – orçamento para 2014 – chuva forte de redução de salários, ventos ciclónicos de impostos a varrerem o país de lés a lés, demissão das funções sociais do estado, tudo isto acompanhado de trovoadas de tiques fascistóides.

E os meteorologistas de serviço, protegidos das agruras, anunciam como medidas de precaução: mais chuva, mais ventos, mais tempestades.

Um pensador a metro, que tem pensado em tudo desde que julga que pensa, que é pago em produtos de mercaria, anuncia com a pompa que lhe é habitual: «É inevitável: temos que rever a Constituição».

Claro.

Aproveitando a temática meteorológica lhe digo: «Vá pró raio que o parta!»

Por mim, aproveito o outono, asso no forno uns marmelos e umas batatinhas doces, vou procurar um sitio no campo que não esteja aramado e apanho nas terras leves os primeiros espargos.

Convido os amigos. Bebemos um tintinho e retemperamos forças.

Amanhã, ainda por cima, transformam – gente sem rosto – os dias curtos em dias ainda mais curtos e fazem com que anoiteça mais cedo.

Para que seja de novo primavera temos que passar por isto.

D´a Mesa do Pobre

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Quem suporta os custos?

 

É muito habitual ouvirmos, de quem estacionou onde não devia e foi multado, de quem excedeu o limite de velocidade e sofreu igual penalização, ou de quem conduzia e telefonava, que assim: «é uma vergonha…isto é caça à multa».

Da mesma forma se comportam os ministros e o seu chefe primeiro.

Planeiam e agem contra a Constituição e depois culpam o Tribunal Constitucional.

E fazem-no com o maior dos descaramentos.

Há dias, no México, sentado à direita do seu padrinho, afirmou o chefe: «nós tentámos por todos os meios evitar conflitos com a Constituição».

E o padrinho nem tossiu. Tentaram?!. Mas o cumprimento da Constituição não é algo a que estão obrigados e que foi objecto de juramento?!.

De igual forma fala o condutor «manhoso», ou seja, ele também tenta não ser apanhado.

Nesse mesmo dia, também foi afirmado, no mesmo sítio, só com a pequena “nuance” de, neste caso, este orador estar sentado à direita do senhor que estava à direita da parede, dizia eu que, nesse mesmo dia, esse senhor, que foi eleito para ser o garante do cumprimento da Constituição, afirmou que, em matéria de apreciação de constitucionalidade do orçamento – este ano, assim como no passado – que analisa sempre, em primeiro lugar, os «custos» e só depois, a constitucionalidade.

Julgávamos nós que a responsabilidade dele era para com a Constituição!

Mas mesmo em matéria de custos de que custos fala ele?

E quem suporta os custos de que fala?

Sem outras apreciações, vem logo à memória os subsídios de férias e de natal, subtraídos em 2012 e que o TC considerou a medida como inconstitucional.

Como se sabe, por razões que sabemos (1) quem ficou sem eles foram os  legítimos detentores do direito a eles.

Ele pode ter pesado os custos.

Só que, como sempre, quem os suporta somos nós.

(1) Ele primeiro analisa os custos…

D´O Jardim de Diana

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Sim, senhor ministro.

 

Os mais pobres não estiveram lá.

E ele tem razão, porque sabe bem onde estão eles – estão no gueto social para onde ele e os seus comparsas empurram cada vez mais os portugueses.

Os pobres, que não estiveram em Alcântara:

Estiveram a trabalhar para os belmiros amigos do sr. ministro por tuta e meia abençoada - a renda da casa e a garrafa de gás assim o exigem.

Outros e outras, a lavar, a arrumar, a passar a ferro, a limpar o pó das casas e palacetes dos senhores e senhoras do tempo do tempo do sr. ministro.

Outros fazendo biscates depois de uma semana de escravidão, para acrescentar um pouco de pão na mesa da família.

Outros cavando na beira das estradas à espera que a terra lhe devolva o suor, em cenouras e batatas e temendo que a qualquer momento lhe surja uma besta berrando: «fora daqui que a terra é minha».

Outros vendendo ilusões em feiras onde vão os pobres e onde de tempos a tempos aparece o sr. ministro vendedor de banha de cobra: quando quer espoliar o voto dos pobres.

Outros retemperando-se de mais uma noite dormida sobre papelões e esticando a mão para a esmola dos outros.

Outros, porque estavam longe, fora do país, à procura daquilo que aqui não encontram: trabalho e dignidade.

Mas estavam lá outros sr. ministro.

Estavam lá aqueles que ainda não foram para o gueto.

Aqueles que o sr. ministro ainda não conseguiu pôr no gueto mas para o qual se esforça diariamente.

Estavam lá aqueles que querem assegurar a dignidade.

Os que sabem e praticam os valores da solidariedade.

Os que são homens com aga e mulheres com eme.

O sr….

O sr. devia ter tido vergonha na cara antes das baboseiras, mas pedir-lhe o impossível não abona a meu favor.

Continue com a sua caridadezinha da treta…

A mamã, as titis e os outros gostam muito de ver o menino ser assim…

D’ o Jardim de Diana

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Vamos dar alguma ordem aos caos

Sendo necessário, previamente, explicar que como ordem[1] , entendo a definição de um certo rumo.

Após alguns anos de errâncias, da fidelização de amigos e certamente de partilhas, julga-se por bem proceder a alguns arranjos na casa.

Assim, surge a ordem. Que quer dizer rumo e que virá de:

D´a Porta Nova – Um amigo recente, virão comentários, desabafos e certamente algumas parvoíces sobre esta cidade onde nos cruzamos.

D’ o Jardim de Diana – Virão os comentário e desabafos dispersos. Daqueles que por ali se espraiam pelo mundo em pretensas filosofias de ocasião.

D´a Mesa do Pobre – Virão frigideiras de misturas desordenadas de sabores e disparates, adicionadas por memórias presentes e futuras.

Assina: O Espojinho, que pode estar ou não em todas.


[1] Não esperariam outra definição, pois não?. Lagarto…lagarto…lagarto.