domingo, 8 de junho de 2014

ESPERTICES

 

Difunde-se por aí, por enquanto em pequeno, que o governo se prepara para repor os cortes de Sócrates nos salários dos funcionários públicos.

Espertices de gente pequena.

Esses cortes já estão feitos para todo o ano de 2014.

A benesse (mais uma) de não se ter feito uma fiscalização preventiva, (que foi dada pelo homem que não cede a pressões) e que se traduz na não correção das situações já ocorridas à data do acórdão, leva a que esses cortes já estejam feitos para todo o ano.

Tomemos como exemplo um salário que era cortado em 9,8%. O valor total dos cortes entre janeiro e maio (5 meses) dividido por 14, dá um corte efetivo de 3,53% ou seja, acima dos 3,5% de corte de Sócrates.

Portanto não há nada para cortar.

O que as pequenas espertices se preparam é para novo roubo e nova provocação.

Com o homem que não se deixa pressionar, não precisam de se preocupar.

Entretanto falam de que precisam de previsibilidade.

Quem conduz em contramão conhece bem a previsibilidade de uma colisão.

E eles conduzem em contramão constitucional.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

ESCOLHAS

Sinto-me num país à deriva qual jangada de pedra fustigada por fortes e várias tempestades.

Em tempos alguém disse por aqui, que talvez fosse necessário suspender a democracia. Entretanto alguém a suspendeu mesmo e parece que ninguém ou quase ninguém se rala com isso.

Abdicámos da cidadania em troca de um salvo-conduto que julgamos suficiente para nos ajudar a sair da tormenta.

Só que à tormenta se acrescenta tormenta e os salvo-condutos não salvam nada.

Nunca julguei possível assistir ao degradante espetáculo do mais descarado desrespeito pelas mais elementares regras democráticas tendo como autores precisamente aqueles a quem foram atribuídas as responsabilidades de zelar pelo respeito das regras.

Ao sonho concretizado de reunir um presidente, uma maioria e um governo, faltaram alguns “pormenores” que agora lamentam.

Não cuidaram de escolher bem os juízes do Tribunal Constitucional, disse hoje o primeiro-ministro. Sim, o Primeiro-Ministro.

Eu sou dos que penso, que de facto houve uma má escolha, mas essa foi a que foi feita através do voto em pessoas deste calibre democrático.

Os Juízes interpretam e julgam com base no texto constitucional e não tenho a menor dúvida que o primeiro-ministro, também considera que este texto, ou seja a Constituição, também foi mal «escolhida».

E está no seu direito.

Mas também está na sua obrigação, respeita-la. Foi isso que jurou.

Do sonho concretizado – presidente, maioria, governo – resulta o pesadelo que vivemos.

Mas mesmo assim não estão contentes. Querem juntar-lhes: uma Constituição; Um Tribunal Constitucional com juízes bem escolhidos. Boas escolhas, para os outros tribunais.

O resto virá a seu tempo. Bem escolhidos presidentes de câmara e, porque não? Bem escolhidos presidentes de junta.

E o presidente da República … – vértice cimeiro da trilogia sonhada – tira fotografias com Ronaldo e Meireles.

Próximos de nós – dizem eles – os que se julgam no direito a ter mais votos nossos, brigam-se e esgatanham-se mutuamente numa assanhada disputa pelo poder cheirado.

Nesta jangada à deriva também temos direito à nossa orquestra.

domingo, 1 de junho de 2014

O dezasseis avos

 

Quando é que a política passará a ser uma coisa séria?

Os atores, fazem dela cada vez mais, uma coisa desprezível. Disso recolhem dividendos.

Os espectadores, batem-lhe palmas ao mesmo tempo que a consideram abjecta. Disso sofrem consequências,

Não me parece que daqui vá resultar coisa boa.

A política deveria ser, (a forma, a arte, a ciência) uma destas ou todas estas coisas, que tratasse da «coisa pública». Mas parece ser antes, a arte de tratar da «coisa privada» em público.

O espetáculo aberrante a que assistimos e cujo êxtase ocorre após as eleições para o Parlamento Europeu, confirma a deriva.

O PS e no PS acharam que passariam pela chuva sem se molhar. Molharam-se claro. E depois foi o sacudir de capotes que se vê.

De tal forma sacodem que conseguiram sacudir o peso da estrondosa derrota da direita que está no poder.

Portas e Passos, beneficiando assim (sem esperarem?) de briga vizinha, bradam: «tirem-mos de cima que nós damos cabo deles».

O tio avô, disso se vai encarregando. De os lhe tirar de cima.

O Tribunal Constitucional, vai aparando. Ah e tal sim…mas.

E depois, surge sempre o bom «vivant». Ah e tal a política e os políticos são uma aberração…mas …quanto…quanto? Ah. Bom!

Em cima da cereja coloco as afirmações do vice que, zangado com a moção de censura apresentada pelo PCP, questionava a legitimidade da iniciativa por parte de um partido, disse ele, que representava um sexto de um terço dos votantes.

Engraçado. E que representatividade tem o vice para ser vice.

Talvez um dezasseis avos.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Reflexão (quase) hermética

 

Vá-se lá saber o que lhe vai na alma…


Quanta vezes não ouvimos esta expressão dita a propósito ou por força da incompreensão da razão para determinado comportamento de alguém.
Esta minha obstinação em procurar compreender as razões dos comportamentos (que aqui já expressei por mais que uma vez) talvez se enquadre e encontre raízes neste desabafo popular, só que ao invés de dar à expressão o sentido da resignação, procuro fazer dela o alimento da curiosidade metódica.
Por estes dias, com um simulacro eleitoral à porta, verifico do despudor de muitos protagonistas.
Perante a miséria criada, os seus criadores fazem arrufos entre si para disfarçar as culpas. Alguns falam de mudança e a única que se vislumbra será similar às que por vezes fazemos nas salas das nossas casas – mudando o sítio do sofá.
Os outros dizem que o pior já passou. Pois passou, mas por nós, com a culpa deles.
Outros, surgem de novo, como sempre surgem, sempre que há simulacros (com o mesmo folclore de sempre).
Trinta e nove anos disto e parece que isto vai continuar.
Uns, alienados, incapazes já de discernir. Outros, descontentes com todos (inclusive com eles mesmos) bebem avidamente o veneno, dizendo ser para a cura. Outros, julgando-se mais entendidos que os outros (com o meu voto é que eles não contam). Outros, que alinham e seguem o rebanho murmurando a sua oração de resignação: «o que é que a gente há-de fazer»
Entretanto, diz-se nos jornais, que a Srª Merkel já escolheu Presidente e Comissão.
Setecentos e cinquenta e um deputados também já estão mais ou menos escolhidos, mais coisa menos coisa e preparam-se para fingir que decidem os destinos desta coisa a que chamam União.
Podia ser… podia. Se por uma vez, só uma vez que fosse, assim o quiséssemos.
Podíamos construir uma sociedade mais justa. Se o quiséssemos.
E se quiséssemos.
Esta Europa de território quase contínuo, em que podemos partir de carro de Lisboa e chegar de carro a Moscovo, percorrendo países, saudando povos e encontrando formas de comunicação para aceder às suas culturas, esta Europa, dizia, podia ser partilhada como um território de alegria, paz e progresso.
Mas, parece que não queremos.
Mas não queremos porquê?

Como pequena nota de rodapé  e a propósito  da maneira como os senhores da situação estão a tratar  as Eleições para o Parlamento Europeu atentemos no patético anúncio radiofónico pretensamente de apelo à participação.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Hábitos…maus hábitos

 

Existia até há um tempo não muito ido, o hábito de perguntar aos meninos e às meninas: Gostas mais de quem meu (minha) menino (ou menina), do pai ou da mãe?

A pergunta estúpida era acompanhada, obviamente, por aquele trejeito de rosto, todo ele patético, a que se acrescentava a não menos ridícula entoação.

Criaram-se a propósito algumas anedotas, sendo a mais conhecida de todas (e naturalmente também estúpida) a que acrescentava a resposta do (a) menino (a): «de carne».

Estas lembranças surgiram-me a propósito de outras dicotomias que estupidamente nos vão artificializando e com que nos vemos forçados a tomar opção.

Gostas mais disto ou daquilo, não sendo possível a resposta de gosto disto e daquilo.

Gostas mais do campo ou da cidade, não sendo possível responder que gosto do campo e da cidade.

Gostas mais de letras ou ciências (mantive a expressão mas não partilho) não sendo possível dizer que gosto de literatura e de biologia.

Se às respostas, não estivessem associadas consequências, se as perguntas fossem meros exercícios dos doidos por rankings, não viria daí grande mal, o problema é que não é bem assim.

Quando olho para uma criança com quinze ou dezasseis anos, angustiada com a «área» que vai ter de escolher porque vai iniciar o secundário, então fica claro que não é uma questão assim tão neutral.

As estúpidas questões artificiaram estúpidas dicotomias. Estúpidos hábitos.

No ensino, conduziram a uma profunda segmentação dos saberes que quase produz génios analfabetos.

Na vida, em geral, conduziram ao arrebanhamento. Pensa-se como rebanho, não se pensa por cada um.

Anularam o «eu» em nome de uma pretensa ideia colectiva e como consequência fizeram do «nós» a anulação do colectivo e criaram o que pretendiam: um «eu» de rebanho.

E aqui chegados é tão fácil conduzir o «eu».

E é esse «eu» que berra mas segue apascentando.

Que, mesmo no voto (em que apesar de tudo ainda está garantida o direito à individualidade) acaba por agir sob a lógica do rebanho.

E vota (sempre no arco como descaradamente os pastores já definem) e depois queixa-se e depois volta a votar e depois queixa-se e vota e depois….

Como num final de dia, quando mansamente regressam ao ovil.

O «espojinho»

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Unanimemente

O «Da Porta Nova», fez-me chegar este escrito.

Parece um desabafo.

Ou talvez, um grito de alerta.

Não me cabe catalogá-lo. Haverá quem o faça.

Publico-o, simplesmente:

Perpetuamos as perplexidades sem cuidarmos por um momento, por um simples momento, que seja, que razões podem existir para a sua ocorrência.

Desapareceu a URSS, a RDA e todos os outros sonhos de Leste e perplexos, ao invés de procurarmos perceber, perpetuamos essa perplexidade ou de forma pior ainda, procuramos perpetuar a anulação da procura das causas.

E andamos, dizendo que em frente.

Somos até capazes de citar: um passo atrás para depois dois em frente.

E quanto muito, damos dois passos atrás e só um em frente.

E vivemos.

Vivemos hoje na corrente das unanimidades.

Pretensamente.

Sendo talvez, ou melhor, certamente, o tempo:

Das unanimidades das conveniências

Somos unânimes na condenação da política liberal que destrói as nossas vidas.

PSD e CDS são para nós, unanimemente e com cargas de razão, coisas abjectas. São as causas dos nossos males e por arrastamento, dos males do país.

De igual forma, unanimemente, partilhamos da ideia que não é percorrendo de novo os caminhos que nos conduziram ao desastre, que evitamos novo desastre.

E é com essas unanimidades que percorremos os caminhos das lutas. Como hoje, neste nosso 1.º de Maio, unânime.

E lá nos cruzámos.

No mesmo sítio. Com os mesmos objectivos. Mas desconfiados de cada um de nós.

E este não é um bom caminho. Mas é o caminho que percorremos.

Foi o caminho percorrido por outros, talvez na URSS, em que em nome da defesa dos necessários unanimismos, se criaram as clivagens da destruição.

Como é possível que, pensando de forma igual, nos transformemos em coisas tão diferentes no agir?

Como é possível que, sem que nos apercebamos, nos transformemos nas bestas que unanimemente criticámos?

Mas esta merda tem de ser sempre assim?

Mas é mesmo verdade que o poder corrompe o homem?

Mesmo os pequenos poderes?

Bolas.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

NO DIA MUNDIAL DO LIVRO

 

Dura há longos anos, este meu gosto.
Vem do tempo dos primeiros passos.
Dos tempos em que nem todos eles eram bem vistos, havendo mesmo alguns deles considerados perversos.
Confesso que cheguei a temer, nos tempos dos meus primeiros passos, que o meu gosto por eles tivesse conduzido acidentalmente  a algum contacto com algum deles, perverso.
Saía da carrinha da Gulbenkian, com eles bem apertadinhos junto ao peito e com medo que o guarda que por ali sempre cirandava me berrasse: «Alto aí! Que livros levas tu aí, gaiato?»
À luz do candeeiro a petróleo e pela noite dentro, quando todos os outros dormiam, devorava página a página.
Na semana seguinte, estavam prontos a entregar e a renovar a remessa.
Dessas primeiras leituras retenho Júlio Verne.
Como eu me encantei pela «Jangada» e pela «A Volta ao mundo em 80 dias».
O que eu sonhei com a ilha deserta de Robinson Crosué e o que eu temia os canibais que o apoquentavam. Isto, graças a Daniel Defoe com as suas «As aventuras de Robinson Crosué».
Depois, pouco depois, com a meninice e os primeiros passos já largados, as leituras deixaram de ser as possíveis através dos livros requisitados na Biblioteca Itinerante da Gulbenkian.
Naqueles tempos, os tempos eram curtos para se ser menino.
E passaram a ser escassas as leituras.
Estas, retomar-se-iam em breve.
A liberdade reacendeu a chama.
E as leituras passaram para Alves Redol (Gaibéus), Soeiro Pereira Gomes (Esteiros; Engrenagem); Urbano Tavares Rodrigues (Desta Água Beberei); Gabriel Garcia Marques (Cem anos de Solidão, Crónica de Uma Morte Anunciada); Pablo Neruda (Nasci para Nascer); Manuel Alegre (Praça da Canção) José Carlos Ary dos Santos (As Portas que Abril Abriu).
Percorreram-se outros caminhos, por força de outras razões e que saem do campo estrito da Literatura e aí é incontornável Karl Marx (O Capital, O 18 de Brumário); Álvaro Cunhal (A Revolução Portuguesa: o passado e o futuro); Max Weber (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo».
De novo na Literatura, José Cardoso Pires (O Delfim); Manuel Tiago (Até Amanhã Camaradas; Estrela de Seis Pontas; Cinco Dias e Cinco Noites); Mário de Carvalho (Os alferes; Fantasia para dois Coronéis e uma Piscina; Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto).
Ernest Hemingway (O Velho e o Mar; Por Quem os Sinos Dobram).
Manuel da Fonseca (Cerromaior)
E José Saramago – que agora leio avidamente. Depois de «O Memorial do Convento» que adorei, parei inexplicavelmente, estupidamente, acrescento.
No retorno, li «Caim»; «Ensaio sobre a Lucidez» e «Levantado do Chão»
Num campo de mistura em que a Literatura não foi a razão primeira para a opção de leitura, tive o prazer de «descobrir» Eça de Queiroz (O Primo Basílio); Almeida Garrett (Viagens Na Minha Terra); Vergílio Ferreira (Aparição); Albert Camus (O Estrangeiro).

Pela casa (não consigo imaginar uma casa sem livros) ainda há muitos outros por ler, alguns – os especiais entre especiais, para reler- e muitos outros lidos, muitos de autores por quem fiz esta breve resenha outros de outros autores que não citei por não terem tido igual impacto ou por imperdoável esquecimento.
Para não cometer injustiças (ou para não lhes dar continuidade), tenho uns problemas por resolver (que quero resolver) com José Luís Peixoto.
Para terminar, um pequeno reparo na mesma linha. Tenho para ler, em lista de espera, João Tordo.
Dos novos escritores, julgo que seria injusto, terminar esta resenha sem falar de Ondjaki (os da minha rua).
Tudo isto, veio a propósito de sendo hoje o Dia do Livro, me apetecer homenagear aqueles que fazem deles, os nossos companheiros de sonhos, angústias e de viagens.
Bem hajam.
Viva o Livro.