quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Talvez

Talvez, agora mesmo, neste preciso instante, estejam a lançar bombas sobre Donetsk esventrando edifícios e gente.

Talvez agora mesmo, mais não sei quantas crianças palestinianas tenham perecido como consequência de mais um ataque.

Talvez, agora mesmo mais um carro armadilhado tenha estoirado vidas em Bagdad, em Trípoli ou em Kabul.

E provavelmente, também agora mesmo, mais um negócio de armas esteja a ser fechado e comemorado com champanhe, uísque ou vodka em qualquer uma das cidades cofre do nosso mundinho.

Talvez, agora mesmo, alguém tenha posto uma corda ao pescoço cansado de não conseguir comer para os filhos.

Talvez, agora mesmo, alguém como nós tenha morrido desgraçadamente vítima de ébola, malária ou qualquer outra desgraça numa qualquer vala de África.

Ou de fome.

E, talvez, agora mesmo, o banqueiro tenha feito a transferência para repor o pequeno rombo nas suas contas pessoais de três milhões.

E, talvez, agora mesmo, os sinos toquem a repique em nome das dezenas de milhares de vítimas em Hiroxima.

Não sei, mas devem ter sido poucos os que se lembraram.

A vida continua não é? A nossa.

domingo, 3 de agosto de 2014

Tratemos-las pelo nome

 

As courgettes ou aboborinhas são relativamente recentes na gastronomia a que me habituei.

Talvez por isso, confesso, não fazem parte da minha lista de preferências, mas…elas agora abundam e por isso é necessário dar-lhes uso.

Porque também abundam os nomes que lhe dão os seus produtores, procurei usar denominação acertada apesar do corretor ortográfico insistir a que proceda a correção por causa do duplo t). Já as vi tratadas por gorgetes e por curjetes.

Mas o que importa ao caso é a forma de as consumir.

Experimentei este domingo e gostei.

Depois de bem lavada, cortam-se rodelas bem finas que se temperam com sal. Passam-se por farinha e fritam-se até se obter uma cor aloirada.

Fritam-se igualmente algumas rodelas de cebola.

Numa frigideira dupla (as que servem para fazer tortilhas) misturam-se as rodelas fritas de courgette com as de cebola e cobrem-se com ovos batidos. Vira-se logo que ovo comece a solidificar e espera-se o cozimento homogéneo dos ovos.

Retira-se para um prato, tempera-se de sal e pimenta e salpica-se com salsa finamente picada.

Acompanha-se com vinho branco fresco, azeitonas, amigos e família e com uma boa conversa onde se inclua a necessária crítica social e política.

Por último fiquem a saber que não sei se esta forma de confecção retira algum ou alguns dos atributos das courgettes, mas fiquei a saber que estas contêm poucas calorias e que são ricas em vitaminas e minerais, principalmente potássio.

São presença assídua das cozinhas grega, francesa e italiana.

Gostei

O «da Sopa dos Pobres»

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

OS SINS CASTRANTES

 

Os que, como eu, se habituaram a discutir e a ter opinião, a serem ouvidos, a aceitarem o contraditório e a preparar a contra argumentação, ficam hoje espantados com a generalização das hipócritas aceitações.

Aceitamos tudo.

Aceitamos que sim, que Sadam tinha armas de destruição maciça, assim como aceitamos (milhares de mortos depois), que afinal não tinha.

Aceitamos que os americanos armem o Iraque para combater o Irão, assim como aceitamos o processo contrário.

Aceitamos que se armem até aos dentes afegãos para combater russos, assim como aceitamos que depois se invada o Afeganistão para combater os afegãos que armámos.

Apregoámos aos ventos primaveras árabes (de céus tão carregados) e agora confrontamos-nos com a violência dos invernos líbios e egípcios.

Aplaudimos a guerra e as mortes na Síria, em nome de uma democracia que exportávamos através das ditaduras e agora (milhares de mortos depois) confrontamos-nos com os bandidos que armámos.

Choramos lágrimas de crocodilo pelas mortes das crianças palestinianas ao mesmo tempo que aplaudimos a venda de mais munições aos israelitas para que matem mais crianças palestinianas (naquilo que parece ser a especialização israelita).

Aplaudimos a venda de cinco mil misseis ao Iraque sem ter a menor ideia de donde poderão eles deflagrar.

Dizemos sim a Passos, para dar continuidade aos sins que demos a Sócrates e preparamos-nos para dar o sim a Costa para dar continuidade a todos os sins.

A tudo dizemos sim.

Só dizemos não a nós, homens livres.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

RETORNO

 

Confesso que eu próprio julguei não voltar aqui.

Por nenhuma razão especial, esclareço, mas simplesmente porque sim.

Mas hoje decidi o contrário – porque sim – e aqui estou.

Tenho textos do “da Porta Nova” e do “da Sopa dos Pobres” a cujos pedidos não dei sequência.

O primeiro, anda frenético para falar da cidade e para falar de rumos novos que por vezes se confundem com outros que nada têm de novo e o segundo, porque estamos em quase plena fase de esplendor de produção, que lhe permite as deambulações gastronómicas que quer partilhar.

Penso dar em breve seguimento às suas vontades.

Mas hoje sou eu a usar o espaço. Quase só para dizer: olá …retornei!

Mas também para desabafar – este tem sido o meu espaço para esse efeito.

Para falar das minhas preocupações – de algumas delas.

Os tempos, que medeiam a última publicação e o escrito de hoje, têm sido tempos conturbados, dramáticos e que nos remetem para uma profunda apreensão, não – como é useiro dizer-se - sobre o futuro, mas urgentemente, sobre o presente imediato.

E em flash percorro as mentiras sobre o avião abatido sobre a Ucrânia e procuro sentir a dor dos que perderam filhos, amigos, companheiros.

De igual forma imagino a dor dos pais das crianças palestinianas, as vítimas prediletas dos que dizem que estão a lutar contra o terrorismo.

E as imagens de destruição, guerra e morte que chegam da Líbia, do Iraque, do Afeganistão. Tudo territórios sob libertação americana e para onde estes foram levar democracia.

E relembro as palavras do Papa Francisco sobre os crimes económicos sempre que leio as últimas do banqueiro que esteve (não estará ainda?) sempre ao lado do homem do leme, sendo ele, o verdadeiro comandante.

São estas, em traços muito gerais, as condições deste retorno.

Razões também para a ausência.

Por vezes é necessário o silêncio.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Redondos discursos

Entretemos-nos por vezes, em redondos discursos sobre a natureza humana.

Redondos, pomposos, retóricos, empolgantes.

Mas…

Mais do que eloquência discursiva, de mais ou menos retórica, com mais ou menos audiência, preocupa-me, isso sim e unicamente, procurar saber em que plano nos situamos quando lemos que uma mulher foi linchada no Brasil após ter circulado no Facebook o boato de que se dedicaria a práticas de bruxedo?

E quando ficamos a saber que uma mulher foi condenada à morte por enforcamento, no Sudão, por se ter recusado a renegar a sua fé cristã?

E quando um responsável governamental, na Índia, perante crimes horrendos que nos chocam, desdenha das vítimas e defende a violação?

E quando se cravam no chão bicos metálicos para impedir assim que os sem-abrigo ali possam pernoitar?

E quando se considera que o vírus Ébola pode ser um bom aliado para impedir a emigração agora não desejada?

Para quem precisar de saber o que é um fascista, procure saber a forma como se responde a estas questões. Bastará.

Ou mesmo a outras.

Diga-me por exemplo o que pensa de uma pessoa (do aparelho no poder), que afirma que é preciso ponderar a criação de mecanismos judiciais (sanções judiciais) para os casos em que os poderes do Tribunal Constitucional são extravasados?

E de um general ou de um coronel que manda calar o protesto popular em nome do respeito pelo país, isto na sequência do “piripaque” de SEx. ?

E de outros que afirmam que no futuro têm de ter mais cuidado na escolha dos juízes?

Restarão ainda dúvidas?

Pois eu não as tenho. O fascismo está aqui já.

Por enquanto, em pele de cordeiro.

Mas da boca já sobressaem os seus carnívoros dentes…

domingo, 8 de junho de 2014

ESPERTICES

 

Difunde-se por aí, por enquanto em pequeno, que o governo se prepara para repor os cortes de Sócrates nos salários dos funcionários públicos.

Espertices de gente pequena.

Esses cortes já estão feitos para todo o ano de 2014.

A benesse (mais uma) de não se ter feito uma fiscalização preventiva, (que foi dada pelo homem que não cede a pressões) e que se traduz na não correção das situações já ocorridas à data do acórdão, leva a que esses cortes já estejam feitos para todo o ano.

Tomemos como exemplo um salário que era cortado em 9,8%. O valor total dos cortes entre janeiro e maio (5 meses) dividido por 14, dá um corte efetivo de 3,53% ou seja, acima dos 3,5% de corte de Sócrates.

Portanto não há nada para cortar.

O que as pequenas espertices se preparam é para novo roubo e nova provocação.

Com o homem que não se deixa pressionar, não precisam de se preocupar.

Entretanto falam de que precisam de previsibilidade.

Quem conduz em contramão conhece bem a previsibilidade de uma colisão.

E eles conduzem em contramão constitucional.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

ESCOLHAS

Sinto-me num país à deriva qual jangada de pedra fustigada por fortes e várias tempestades.

Em tempos alguém disse por aqui, que talvez fosse necessário suspender a democracia. Entretanto alguém a suspendeu mesmo e parece que ninguém ou quase ninguém se rala com isso.

Abdicámos da cidadania em troca de um salvo-conduto que julgamos suficiente para nos ajudar a sair da tormenta.

Só que à tormenta se acrescenta tormenta e os salvo-condutos não salvam nada.

Nunca julguei possível assistir ao degradante espetáculo do mais descarado desrespeito pelas mais elementares regras democráticas tendo como autores precisamente aqueles a quem foram atribuídas as responsabilidades de zelar pelo respeito das regras.

Ao sonho concretizado de reunir um presidente, uma maioria e um governo, faltaram alguns “pormenores” que agora lamentam.

Não cuidaram de escolher bem os juízes do Tribunal Constitucional, disse hoje o primeiro-ministro. Sim, o Primeiro-Ministro.

Eu sou dos que penso, que de facto houve uma má escolha, mas essa foi a que foi feita através do voto em pessoas deste calibre democrático.

Os Juízes interpretam e julgam com base no texto constitucional e não tenho a menor dúvida que o primeiro-ministro, também considera que este texto, ou seja a Constituição, também foi mal «escolhida».

E está no seu direito.

Mas também está na sua obrigação, respeita-la. Foi isso que jurou.

Do sonho concretizado – presidente, maioria, governo – resulta o pesadelo que vivemos.

Mas mesmo assim não estão contentes. Querem juntar-lhes: uma Constituição; Um Tribunal Constitucional com juízes bem escolhidos. Boas escolhas, para os outros tribunais.

O resto virá a seu tempo. Bem escolhidos presidentes de câmara e, porque não? Bem escolhidos presidentes de junta.

E o presidente da República … – vértice cimeiro da trilogia sonhada – tira fotografias com Ronaldo e Meireles.

Próximos de nós – dizem eles – os que se julgam no direito a ter mais votos nossos, brigam-se e esgatanham-se mutuamente numa assanhada disputa pelo poder cheirado.

Nesta jangada à deriva também temos direito à nossa orquestra.