quarta-feira, 15 de março de 2017

A verdade e as suas construções


A História estará repleta de episódios de construção de verdades. Sempre se soube que, para atingir um determinado fim, importava que primeiro, se criassem as condições para a sua ocorrência.

Em linguagem corrente, designar-se-á por «criar o ambiente».

Para intervir no Iraque, «criou-se o ambiente» e inventaram-se armas de destruição maciça, para os serviços secretos Franceses matarem Kadhafi, tiveram primeiro que criar as condições «ambientais» e assim, de igual forma, em muitos outros sítios e em muitas outras situações.

Atualmente o processo é um pouco mais refinado. Se antes consistia no «bombardeamento» da mentira, que se queria fazer massificar como verdade, hoje consiste na pulverização (continuando a usar linguagem bélica, talvez um processo semelhante às bombas de fragmentação) de inúmeras mentiras de forma a criar a confusão generalizada.

O resultado é uma opinião pública desorientada, sem qualquer interesse em apurar a verdade e assumindo que esta – a verdade - é a que for mais bem construída e mais difundida. A verdade (que não sabe o que é) não interessa ao cidadão comum.

Confesso que já dei por mim a pensar se serão reais algumas das personagens. Vejam-se o loiro americano e o loiro holandês. Tão parecidos em tudo, com traços e posses inumanas. São gente? A mim parecem robots.

E as massas  – nunca fez tanto sentido, este termo – passeiam-se alheadamente por entre esta fragmentação, perdendo continuadamente a sua capacidade critica e a sua sensibilidade social e humana.

É incrível ouvir expressões do tipo: «eu não quero saber. Vou votar para castigar» - no caso, o voto era no robot loiro holandês».

Mas castigar quem? Diga-se que há uma grande carga de masoquismo nesta atitude anunciada.
Se não consegue espetar o prego, castigue e dê com o martelo nos seus dedos.

Vamos aguardar para ver quem sai castigado das eleições holandeses de hoje.

Pressente-se que se começam erguer, de entre a poeira causada pelas bombas de fragmentação, homens e mulheres que ainda dão valor à verdade e que gostam dela a corresponder o mais possível ao real.
Aguardemos.

terça-feira, 14 de março de 2017

A insustentável leveza das consciências pesadas


O episódio em torno de uma pretensa conferência, numa faculdade portuguesa, promovida por alguém que vangloria Salazar, virou assunto, politicamente correto e amplamente divulgado.
Bradou-se contra o ignóbil crime de violação da liberdade de expressão dos organizadores.
Os comentaristas de cartilha dedicaram-lhe extensas linhas e profundas análises, sob eruditos títulos, alguns deles de subtil carga irónica, tipo: “assim se vê a democracia do pc” ou “tolerância dia sim, dia não”.
A estes juntaram-se alguns políticos.
Ou seja, a tolerância que defendem, tem de incluir o direito de os outros fazerem a apologia da eliminação da liberdade do direito à livre expressão. Tipo, oferecer a outra face depois da agressão, coisa que nem os proprietários intelectuais da expressão, fazem ou fizeram uso.
Entretanto, ficou hoje a saber-se que o Parlamento Europeu, aplicou aquilo que define como severas medidas disciplinares, contra o eurodeputado polaco que proferiu uma série de idiotices sobre as mulheres.
Mas porquê, porque não se interrogam os mesmos analistas de cartilha? As medidas do PE não são violadoras da liberdade de expressão do eurodeputado?
Claro que a proibição da apologia do fim da liberdade de expressão e a punição ao eurodeputado são medidas que se integram na mais elementar ação pela dignidade humana e pelo pleno exercício da liberdade de expressão.
Assumir a liberdade de expressão como um princípio absoluto, pode ser um importante contributo para o fim da própria liberdade de expressão.
A liberdade de expressão pode e deve ser condicionada pelo respeito absoluto pela vida e dignidade humana.
O facto de cada um de nós ser hoje (os que o são) homens livres, não nos dá ou dará o direito de sobre um próximo, perorarmos a belo prazer, atentando contra a dignidade a honra dele.
Os homens são livres quando respeitam a liberdade dos outros homens.
Não são livres, os que defendem o fim da liberdade (como bem geral e de uso responsável por todos) e os que consideram que entre homens e mulheres, os primeiros devem ter a primazia porque são seres mais inteligentes.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Mulheres

Talvez porque a primavera se anuncia com uns dias quentes e cheios de sol.

Talvez porque para tal me deu na real gana.
Talvez por saudades.

Saio, talvez só por uns momentos, da longa hibernação a que me sujeitei.
Espero que o «espojinho» ainda esteja ativo.

Para escrever sobre mulheres.

Há dois dias distribuíram-se flores nas ruas das cidades. Mas não eram cravos.
Os homens preenchiam longas filas nas floristas.
As mulheres encheram os restaurantes ao fim do dia. Muitas saíram para a rua com cuidadoso esmero. Sobrancelhas, lábios, unhas, tudo muito bem produzido.
Vestiram as suas melhores e mais vistosas roupas.
Algumas.
Outras, foram para as fábricas trabalhar ao lado dos homens para desempenharem as mesmas funções e serem remuneradas por um salário inferior.
Ou saíram de casa às cinco da manhã, deixando os seus filhos sozinhos ou ao cuidado de avós velhos, para irem tratar das lides das casas e dos filhos de outras mulheres.
Outras, deslocaram-se para mais uma entrevista ou ao centro de (des)emprego à procura do trabalho que lhe falta.
Ou ficaram em casa, cuidando dos filhos e gerindo o quase nada para que chegue a quase todos.
E estas, que também gostam de flores, talvez ao fim do dia, alguém se lembre.
Talvez lhe baste um abraço cúmplice, do filho que regressa da escola ou do marido, companheiro e amigo regressando a casa.
Assim costuma ser nos outros dias, quando não são dias da mulher.
No dia das mulheres, as mulheres não passam todas, a ser mulheres iguais.
No dia da mulher, há mulheres que, tal como nos outros dias, vivem de superficialidades, arranjarão o cabelo, as unhas e as sobrancelhas. Irão jantar fora, com outras como elas.
Algumas enviarão sorrisos aos seus maridos que discursam e que falam da destreza das mulheres…quando em compras nos supermercados ou no papel exemplar de fadas do lar.
As mulheres de Temer e de Trump são mulheres.
Mas estas e todas as outras iguais, não são as mulheres que se evocam no 8 de Março.
Por isso, quando de novo vos oferecerem flores na rua ou quando marcarem novos jantares de mulheres para 8 de Março, não se distraiam.
Há mulheres e mulheres.

E a diferença não se atenuará, com quotas.

…porque será que tenho a sensação que andamos distraídos?!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O mundo do faz de conta


Vivemos no mundo de faz de conta e faz de conta que acreditamos.

Todos sabiam (fez até mesmo questão que assim fosse, que todos soubessem) mas …, fizeram questão de fazer de conta e…votaram (ou não) em Trump.

De que importaram as boçalidades, as provocações mais grosseiras à dignidade das mulheres, as declarações inumanas sobre negros, mexicanos, a tudo o que fosse diferente, se as mulheres, os negros, os mexicanos votaram nele? (ou não).

De que importa sabermos que os media nos mentem todos os dias, a todas as horas?

Sabemos, pois não somos estúpidos, que é mentira que em Alepo os Sírios bombardeiam durante dias seguidos um edifício onde estão 100 crianças (só 100 inocentes crianças, separadas dos familiares, mais ninguém) mas fazemos de conta que não sabemos, que é mentira.

Porque bombardeiam os Sírios um edifício onde só estão crianças?

Porque o bombardeiam e ele (o edifício) não colapsa?

Porquê, apesar da ferocidade dos ataques, ainda continuam 100 crianças, no edifício que os sírios continuam a bombardear?

Porquê, tendo passado dias, semanas, meses, a bombardear edifícios (com 100 inocentes crianças) hospitais (onde estavam velhos e crianças) escolas (onde estavam velhos e crianças), os Sírios derrotam os rebeldes (sim, em Alepo, são rebeldes e em Mossul os mesmos são EI)?

A toda a hora, com diretos que não sabemos de onde, somos nós os bombardeados.

Bombardeados com mentiras que sabemos que são mentiras, mas fazemos de conta que não sabemos.

Este mundo de faz de conta, já é perigoso.

Mas fazemos de conta que não sabemos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

É obra...


Há dias, um blogue do burgo, sob venenosa insinuação – que não fica nada bem aos pergaminhos ditos revolucionários dos seus autores – afirmava que o Alentejo tinha perdido, nos últimos 40 anos, metade da sua população.

Os 40 anos a que se referia, eram os 40 anos do Poder Local Democrático, balizados entre as primeiras eleições autárquicas (12/12/1976) e a presente data.

À afirmação, acrescentava: «é obra».
Insinuação tão primária e tão sem sentido.

Mas, concentremo-nos na afirmação.

A operação censitária mais próxima do início do intervalo, é a realizada em 1970. Nela, segundo o INE apurou, o Alentejo tinha então, 531191 residentes.

Em 2011, de novo por operação censitária, o INE apurou 509849. Portanto, menos 21342 (-4,01%).

A vontade de fazerem a insinuação foi tão grande que perdeu a noção do ridículo.

A perda de efetivos que o Alentejo regista a partir dos anos 90 é um problema grave. Não tem é (felizmente) a gravidade catastrófica que o bloguista lhe quis colar.

Se quiserem analisar a dinâmica demográfica recente (para além das perdas iniciadas em 90) podem analisar o êxodo dos anos 60 (e nem mesmo aqui atingiu as proporções que referem), assim como o crescimento muito positivo verificado nos anos 80 (precisamente a década de implantação do Poder Local Democrático).

Mas façam-no com rigor analítico.

Sem insinuações rasteirinhas.

domingo, 27 de novembro de 2016

Não, não morreram

Nem o comandante, nem o sonho.

Morreu o homem.

A Revolução Cubana preencheu o meu imaginario desde o tempo que me foi permitido imaginar.
E esse tempo começou quando comecei com muitos outros a trilhar os caminhos que a liberdade nos apontou.
Começou quando começou a liberdade.
Quando ficámos a saber que podiamos pensar o futuro a cores
Começou com a Reforma Agraria, com o tomar partido, com os movimentos de alfabetização de adultos, com as jornadas de trabalho voluntário.
E continuou mesmo quando a leste implodiram parte dele.
Quando aqui, com bastoes e mortes, destruiam pedra a pedra cada uma das coisas bonitas que haviamos construido.
E continua, nestes tempos de novo negros.
E vislumbra-se nos pequenos vislumbres de esperança.
Em vida, muitos quiseram matar Fidel.
Agora que morreu, querem matar-lhe o sonho.
Nao creio que o consigam.
Eu partilho-o
E sei que muitos outros, muitos, muitos mil, tambem partilham o sonho de Fidel.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Não fosse tanta a dor dos que sofrem...

E apeteceria ironizar.

Na guerra que quase todos foram fazer na Síria não há bons e maus.
Só maus.

Ou não será assim?!
Pelos vistos não é e há mesmo, bons e maus.

Maus, são os Sírios e os que os apoiam.
Bons, são todos os outros com exceção dos primeiros.

Se as «notícias» falam do objetivo de reconquistar Mossul (Iraque) tudo decorre em perfeita harmonia, quase tipo guerra de Raul Solnado, onde não há vítimas civis, hospitais bombardeados, crianças a sair de destroços. As baixas são sempre altas patentes do exército islâmico.

Se, pelo contrário, o «teatro das operações» - o que eles gostam desta definição- se centra em Alepo, então é um rol de desgraças. Ninguém disse até hoje quantos hospitais terão existido nesta cidade, mas seriam muitos certamente já que quase diariamente a aviação russa e síria destroem um. Dos bombardeamentos destes, resultam sempre e exclusivamente vítimas civis e em grande número crianças e velhos.

Infelizmente, o que contamos diariamente são mortes, muitas mortes.
E porquê e para quê?
Imensos e imorais interesses estão por detrás desta mortandade.
Geopolítica, dirão os analistas.
Canalhices, digo eu.

Nunca fui à Síria (e lamento não ter tido essa oportunidade) assim como não fui e também lamento, ao Iraque, à Líbia, ao Líbano, à Palestina, mas sei pelo que li e pelo que me deram a ver, que ali, nas redondezas e berço da nossa Antiguidade, existiam cidades bonitas, marcas civilizacionais deslumbrantes e povos como os povos de que fazemos parte.

Há uns tempos, quando dos seus diretos de Paris, era para mim impensável vir a dizer qualquer palavra elogiosa ao jornalista Paulo Dentinho (por muito alinhamento com o «sistema») mas, depois da entrevista que tantos viram, digo-lhe obrigado de forma sentida, por ele ter conseguido mostrar um pouco dessa terra, por instantes, por breves instantes, sem estar manchada de sangue, bombardeada, destruída e por ter contribuído para perceber (pela isenção que demonstrou) uma parte dos porquês e dos para quê.